Páginas

sábado, 26 de março de 2011

Sobre Leonard Cohen



Lembro-me nitidamente da primeira vez que ouvi Leonard Cohen. Lembro-me que estava um dia cinzento (‘aos meus dias cinzentos, não me interessa nenhum raio de sol’). Eu estava especialmente triste e refugiei-me num café meio perdido nas margens do Douro. Um café numa casa de madeira (um dia, hei-de ter uma casa de madeira no campo, desviado do mundo, onde as árvores respirarão o meu ar e acompanhar-me-ão no perfeito desmaio que é envelhecer) num quadro muito bucólico. Lembro-me, na perfeição, do sabor do chocolate quente que tomava, como que à espera que me aquecesse o coração. A dada altura, uma voz pungente atravessa-me ao dizer:
 ‘Touch me with your naked hand or touch me with your glove
Dance me to the end of love’
Como é que uma mulher resiste a uma voz quente e precisa a dizer: Dança comigo até ao fim do amor. Como? É humanamente impossível. Perguntei quem cantava e descobri o cantor que me iria acompanhar nos meus amores e desamores, nas minhas fantásticas vitórias e excruciantes derrotas, no meu crescimento feliz não obstante de por vezes sinuoso. Ao longo dos meus vintes, muita coisa aconteceu na minha vida. Fui tentando aperfeiçoar-me, desligar-me de alguns defeitos que me quebravam, deixando outros que aprecio. Leonard Cohen acompanhou-me neste processo. O meu eterno vício por chocolate vem sempre acompanhado de mim a trautear:
 «Everybody wants a box of chocolates and a  long stem rose…».
Quantas vezes entendi que vivia o momento único em que poderia viver aquilo[1]
 «and everybody knows that it’s now or never».
Várias vezes, inserida na política, quando a desilusão me abatia, colocava e fazia um dueto com ele:
 « I'm sentimental, if you know what I mean
I love the country but I can't stand the scene.
And I'm neither left or right
I'm just staying home tonight,
getting lost in that hopeless little screen.
But I'm stubborn as those garbage bags
that Time cannot decay,
I'm junk but I'm still holding up this little wild bouquet: Democracy is coming to the U.S.A.».

 Nunca abandonei um amor sem ouvir «Well you know that I love to live with you,
but you make me forget so very much.
I forget to pray for the angels
and then the angels forget to pray for us».

E sempre que fui abandonada, numa profusão da dor, chegava a casa e colocava o cd e ouvia:
 «There ain't no cure for love
There ain't no cure for love
All the rocket ships are climbing through the sky
The holy books are open wide
The doctors working day and night
But they'll never ever find that cure,
That cure for love».

Desconfio de homens que não gostem de Cohen.
Nunca gostei de homens não-românticos. E os não-românticos não gostam de Cohen.

Percebe-se alguma insanidade na minha vida envolta na vida deste homem.
Preciso que compreendam, na suave perfeição de um assentimento, a minha terrível obsessão por este homem que deteve todos os vícios, assimilou todas as vulgaridades e transformou-as em desmedidas inocências.

É por tudo isto e mais aquilo que sou incapaz de descrever por uma inaptidão estruturante, que gosto de Leonard Cohen.


[1] Seja ‘aquilo’ o que fôr;

Sem comentários:

Enviar um comentário