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terça-feira, 5 de março de 2013

Maia#3


Há uns tempos um amigo dizia-me, com um ar chateado, que tinha ido assistir a um colóquio sobre vinhos e que um dos tipos, na sua dissertação, utilizava uma data de estrangeirismos em inglês. Dizia que achava que faziam isso numa de aparentarem alguma intelectualidade, mas que a ele aquilo só o irritava. Hoje lembrei-me desse comentário porque o formador de Economia Inclusiva tinha um discurso desse género. O problema foi que tinha ao meu lado um senhor de Bragança que nunca na vida teve de falar inglês; que nunca precisou de aprender inglês para executar com qualidade a sua função; que, simplesmente, o inglês para ele estava ao nível do chinês para mim, ou seja, era totalmente incompreensível. E então, quando o formador disse:

 - (…) podem, quando chegarem  a vossa casa, fazer uma search e ver…

O senhor, muito baixinho, perguntou-me ‘Este gajo que eu faça o quê em casa?’. Là lhe expliquei. Mais à frente o formador diz:

 - (…) Temos de perceber que o bottom line é o social’
 o senhor disse ‘merda para o social’, e eu percebi que ele estava a ficar cada vez mais chateado. E quando o formador se estica e diz:

 - O papel das cidades no enterprise development’
o senhor foi mais longe e comentou-me ao ouvido ‘estes filhos da mãe pensam que são mais espertos porque usam estas palavras caras, mas eu sei mirandês e hei-de fazer-lhe uma pergunta em mirandês a ver se o animal gosta!’. Mas entretanto fomos para intervalo e enquanto bebia o meu chá dizia-lhe que era normal este género de cruzamentos com pessoas que no âmbito do seu estudo ou trabalho tiveram de usar outra língua que não o português, e que têm dificuldades em obter conceitos em português. O senhor não concordou e não em entendeu. Resolvi deitar uma carta mais alta, um ás de copas e disse-lhe: «Olhe, às vezes essa mistura é poética e funciona bem. Por exemplo, a Marisa Monte tem uma musica muito conhecida que diz ‘amor I love you’ e fica mais giro do que se dissesse Amor eu amo-te», e a esta altura, o senhor olhou-me bem nos olhos e disse num português perfeito:

 - Não sei quem é essa Marisa e eu gosto é do nosso Quim Barreiros que quando tem de mandar alguém levar no cú di-lo em português e depois só vai quem quer ou quem gosta, percebe?

Oh yeah!

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