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quinta-feira, 12 de abril de 2012

Há dias em que descobrimos verdadeiros tesouros


Houve um dia, há uns bons 20 anos, que veio para às mãos um poema que adorei. Decorei-o e disse-o várias vezes em voz alta a um namorado de quem gostava e que fazia sair a declamadora que existe em mim. Ele ria-se sempre que eu o declamava. Fazia-o sempre com grande atitude. Não sabia quem o tinha escrito, li-o uma vez numa folha caída num banco do metro. Adorei aquele amor tantas vezes vivido e tantas vezes morrido. Depois, com o fim do namoro, com o fim das declamações, com as anestesias consecutivas, fui-me esquecendo de partes. Tentei, em vão, obter o poema. Relê-lo e relembra-lo. Nunca consegui e hoje, imaginem, hoje veio parar às minhas mãos. Emocionei-me. Curiosamente não foi o longínquo namorado que se me aflorou na pele, foi a memória de mim, apaixonada, a declamar com grande ensejo. Deixo-vos e deixo-o aqui para que nunca mais o perca. Quem sabe um dia destes não volto a declamá-lo!





Balada do amor através das idades

Eu te gosto, você me gosta
desde tempos imemoriais.
Eu era grego, você troiana,
troiana mas não Helena.
Saí do cavalo de pau
para matar meu irmão.
Matei, brigamos, morremos.


Virei soldado romano,
perseguidor de cristãos.
Na porta da catatumba
encontrei-te novamente.
Mas quando vi você nua
caída na areia do circo
e o leão que vinha vindo,
dei um pulo desesperado
e o leão comeu nós dois.

Depois fui pirata mouro,
flagelo da Tripolitânia.
Toquei fogo na fragata
onde você se escondia
da fúria do meu bergantim.
Mas quando ia te pegar
e te fazer minha escrava,
você fez o sinal da cruz
e rasgou o peito a punhal…
Me suicidei também.

Depois (tempos mais amenos)
fui cortesão de Versailles,
espirituoso e devasso.
Você cismou de ser freira…
Pulei muro de convento
mas complicações políticas
nos levaram à guilhotina.

Hoje sou moço moderno,
remo, pulo, danço, boxo,
tenho dinheiro no banco.
Você é uma loura notável,
boxa, dança, pula, rema.
Seu pai é que não faz gosto.
Mas depois de mil peripécias,
eu, herói da Paramount,
te abraço, beijo e casamos.

Carlos Drummond de Andrade

quarta-feira, 11 de abril de 2012

Novos projetos

Na verdade é apenas um projeto, mas que me tem ocupado os dias, as horas, os minutos e os segundos. A par dele apenas a minha filha. Tudo o que vejo reservo e tudo o que reservo serve para colocar nas paginas em branco que tento encher para que um dia, quem sabe, o meu projeto veja a luz do dia.

terça-feira, 10 de abril de 2012

Acontece

Vou sempre com os mesmos amigos almoçar e vou sempre ao mesmo sítio. Nesse sítio estão sempre as mesmas pessoas, salvo raras exceções. E somos atendidos sempre pelas mesmas empregadas. Ninguém sabe nada do outro, mas parece que por nos vermos tanto nos conhecemos. Entre os 'Olá', e os 'como vai a criança', todos escondemos um mundo interior, nosso, tão pessoal que ali, naquele sítio parece não existir. Nem o nome sabemos da maioria a quem sorrimos e parece que também não importa. Apenas importa estar e sorrir e dizer 'olá'. Apenas isso importa naquela hora e meia de almoço.

Autobiografia Imaginária - Valter Hugo Mãe

' Tenho uma relação muito erótica com o Rubem Fonseca. Se estamos a falar na escrita como um investimento inesgotável no prazer, é melhor irmos diretos ao assunto. Leio os livros de Rubem Fonseca e sinto prazer e gosto mais dele do que devia. (...)Eu, se tivesse oportunidade, dormia quietinho ao lado do Rubem Fonseca, quietinho para não o incomodar e, de vez em quando, abria os olhos para o admirar e acreditar que existe.
Andei no Brasil a ver se alguém mo apresentava. Todos contavam aquela história de que é um escritor fora dos circuitos e que rejeita conversas literárias. O negócio dele, diziam-me, é andar feliz e gente de saias. Tinha prometido a mim mesmo que, se fosse necessário, arranjava um kilt só para o tramar'. 

Como não gostar do que este rapazinho, gordinho e feio, escreve? Adoro, adoro e eu também gostava de dormir ao lado dele, assim, só para o olhar e ver que afinal existe e é real.

segunda-feira, 9 de abril de 2012

Praga


Praga está cheia de campanários. Por isso, ela é encantadora vista de cima, da mesma forma que é encantadora vista da terra. Há qualquer coisa de conto de fadas e será este um dos motivos de ser intitulada de Terra de Príncipes e Princesas.

Pisamos a Cidade Velha e entramos, automaticamente, num filme antigo. Se fecharmos os olhos até juramos ouvir os cascos dos cavalos sobre as estradas em pedra. É realmente o passado a falar. A modernidade não é para aqui chamada e não faz falta. Digo eu que fui turista. Em conversa com uma lojista, para quem vive lá a conversa é outra. Mas como não vivo nem faço intenção de viver, confesso que adorei.

Como somos umas meninas orientadas, definimos tão bem a nossa viagem que vimos tudo e ainda tivemos tempo para repetir o que gostamos mais bem como para, no último dia irmos a Terezin ver o campo de concentração.

Praga fica ali, no virar do sonho e é terra para nunca mais se esquecer, nem que levemos com quinhentas anestesias no cérebro (como bem me pode acontecer). E do que repetimos temos coisas tão simples como o muro de Homenagem ao John Lennon. Sei lá, repete-se aquilo que a dada momento, e dentro de nós, nos tocou mais, nem que seja algo pouco relevante para a história em geral e para os pragenses em particular. O Muro do John Lennon tinha lá frases, umas curtas e outras compridas, outras apenas uma palavra que fazia sentido a cada uma de nós. Ficamos ali, de máquina em punho, a ler ao pormenor e a fotografarmos para que o revejamos sempre que nos apetecer. Happiness, I love you, I feel love around me, I’m sad in love… quem pode esquecer? Não são estas frases universais? E foi assim, de forma simples, que consegui aprender a dizer Amo-te em Checo: Milu Ju. Não esquecerei. E aviso que não vem assinalado no guia da American Express.






Temos a catedral de S. Vito, imponente e bela dentro do castelo. Ela manda naquilo tudo. Impõem-se em pleno, e se fossemos dignas daquela visita, devíamos logo, assim que entramos, colocarmo-nos de joelhos perante tamanha obra. Esmaga embora eu, a dada altura, me tenha distraído com um casamento que estava a ter lugar cá fora. Deixei para depois a Catedral e comecei a fotografar o casal. Nunca resisto ao amor, mesmo que seja um amor japonês em solo Checo. Parei quendo a noiva me deitou um olhar de odio. Parei.




Gostei da casa de Kafka. Pequenina, muito pequenina e com uma janela muito simples que dava para um pequeno vale. Ah se ele tivesse uma vista como eu tenho quando vou ao meu douro, que diferença teria feito nas suas obras!

A ponte, as casas cheias de arte nova, o cemitério judeu (meu Deus!), os pormenores das varandas, o relógio da cidade velha, o monumento às vítimas do comunismo, a mini-mini torre Eiffel and so one tornaram os nossos dias em dias de grande contemplação.




Mas o ultimo sitio, o campo de concentração de terezin, mudou-nos por dentro. Sabemos o que se passou na 2ª Guerra Mundial, lemos nos livros sobre o holocausto, vemos filmes, angustiamo-nos um pouco com a coisa, mas estar num sítio onde as vozes dos torturados judeus parecem ainda ouvir-se, onde fotografias de crianças judias que morreram por lá são mostradas, onde o cheiro do crematório parece vir agarrado às narinas, é outra história. Não se percebe como pode ter acontecido. Não sabemos como mesmo que saibamos. E cresce uma revolta que nos emudece.





De resto, vale a pena ir e é bom voltar porque é sempre bom voltar quando o cheiro que levávamos dos nossos filhos parecia estar a acabar e temíamos morrer de saudades e deixarmos pedaços de nós mesmas, enquanto mães, no solo de Praga.


quinta-feira, 5 de abril de 2012

a Páscoa na minha aldeia

Acho que nunca passei a Páscoa fora da minha aldeia.
O ritual que por lá ainda se pratica, faz-se sentir que o domingo de Páscoa não rivaliza mas é mano do Natal. As familias juntam-se. Estreiam-se roupas. Come-se cabrito assado no forno de lenha, e o Menino Jesus vai a todas as casas para que o beijemos. É assim uma festa toda pomposa onde, imaginem e pasmem-se muito, o meu pai e outros como ele, compram foguetes para que explodam no preciso momento em que o Menino Jesus entra em nossa casa. É assim uma preciosidade. E embora eu e o meu irmão gozemos com o assunto, a verdade é que cedo lá estamos, banho tomado e bem vestidos a receber o Senhor em plena sala de estar dos meus pais. A mãe obriga-me e colocar a melhor toalha de mesa para, sobre ela, repousarem os queijos, os presuntos, os doces e o inevitável vinho do porto velhissimo para que, ora vejam bem, os senhores que carregam o Menino Jesus possam alimentar a alma. É uma doçura de domingo. E eu gosto muito. E começei a gostar mais quando, por falta de padres passou a ser uma freira a andar com o Compasso (com o Menino). Ela é um género de super mulher mas sem o top azul e as cuecas azuis e vermelhas (acho eu). Corre, salta, canta, ri, pega no Menino com genica, beija todo o mundo, fala de tudo, mete-se com as criançinhas e bebe o vinhinho do porto deitando um 'ah' de satisfação no fim. Quando entra em nossa casa, e fará  mesmo em todas as outras casas, depois de dizer 'Aleluia, aleluia o Senhor Ressuscitou' desata a cantar, numa voz esganiçada e fina, como se estivesse sozinha no mundo. Fecha os olhos e abre as goelas e aquilo é qualquer coisa digna de uma filme de Kusturica. O Menino que nos é dado a beijar mete-me assim um pouco de rejeição porque quando Ele chega a minha casa já metade da aldeia o beijou. E a mim não me apetece beijar no mesmo sítio que a Aurora louca beijou, ou o Zé Pitadas, ou o Manelzinho do apaga-a-vela, ou mesmo a Luisa macho. Simplesmente não me apetece e assim dou um beijo do alto que funcionou até a freira-super-mulher aparecer. Com ela não tenho hipoteses. Ela remete o Menino em direção às minhas beiças e não tenho como escapar. Beijo metade da aldeia, portanto, nos domingos de Páscoa. Por tudo isto e mais uns pormenores que agora não interessam, este ano estou um pouco triste porque não vou passar a Páscoa à minha aldeia. Vai ser um domingo normal. Com o mano. Mas sem os foguetes, a freira super-mulher,  a aldeia em alvoroço, a roupa nova, o tentar fugir do Menino todo beijado e não conseguir fugir.
Pode ser que para o ano que vem consiga não escapar. Que bom que era!

Dia nacional do doente com artrite reumatoíde

Era dia 1 de Abril de 2007, mas não era mentira. Levava um envelope fechado a uma médica reumatologista porque, imagine-se, estáva com dores num dedo e o médico da medicina do trabalho tinha escrito uma carta para ela. Ria-me do assunto e não queria ir. Fui semi obrigada. Achei ridiculo uma mulher com 1,74 cm queixar-se de 12cm e achei que a médica me iria perguntar se eu achava que ela não tinha mais nada para fazer. Não foi nada disto que aconteceu. Ela olhou-me, viu os exames e disse de uma forma seca: tem artrite reumatoide sem qualquer dúvida, sabe do que se trata?
Eu acho que disse que sim, que sabia, mas devo ter dito de forma tão pouco convincente que ela continuou: parece-me uma pessoa diferenciada e como tal sugiro que veja na net, que coloque em imagens, que leia tudo o que por lá relatam. É uma doença tramada mas estarei aqui para minimizar os efeitos dela.
Foi um género de bofetada. Levantei-me meia zonza e ainda a ouvi dizer: não tem cura.
Fui à net. Vi. Chorei. Cheguei a casa banhada em lágrimas. Tinha-me casado há pouco e agarrei-me ao meu marido e gritei-lhe que devia ter pensado melhor quando casou comigo. Estáva completamente descontrolada. Já tinha uma saúde tão fragil que dispensava mais uma doença. Não exagero se disser que devo ter chorado durante horas e adormeci. O dia 2 de Abril de 2007 acordei e ouvi ao longe o som de um barco a entrar no estaleiro do tejo. Lembro-me disso na perfeição. Imaginei-o a tentar ir firme dentro de um nevoeiro cerrado. Ouvia-o num som nervoso e jurei a mim mesma que eu não ia ser um navio nervoso a andar, temerosamente, rio acima. Nunca mais voltei a chorar por causa da minha artrite reumatoide. Nunca mais. Tomo medicação. Uns dias ando melhor, noutros pior. Nuns nem me lembro que a tenho, noutros nem me consigo esquecer por segundos. E passados cinco anos sei, porque sei, que posso vir a chorar por muitas coisas, mas nunca mais chorarei pelos ossos que se me encolhem de dia para dia, pela sensação de inchaço constante nas articulações, pelo calor que imana dos meus membros. Nunca mais. Pode não ter cura, mas de certa forma sinto que a venci. Venci-a na minha cabeça e acho que já foi uma grande vitória.