segunda-feira, 28 de julho de 2014
Há princípios e princípios.
domingo, 27 de julho de 2014
das minhas leituras domingueiras
‘Vivemos num país com tantos
séculos de existência, pensávamos que era uma casa já habitada e nossa, e de
repente são os outros que nos vem tutelar, vigiar, controlar. Não foram eles
que inventaram, fomos nós que criamos as condições, ou não soubemos gerir
suficientemente o estado de democraticidade e, de repente, sem perder nenhumas
das conquistas representadas pelo que nós chamamos Revolução de Abril, estamos
no país que tem de prestar contas aos outros, sentados no banquinho dos que…’
Eduardo Lourenço em entrevista
que deu a Ana Sousa Dias para a Egoísta
sexta-feira, 25 de julho de 2014
um amor deformado
Ele ia
sempre à sua frente num passo apressado e ela, pequena, perna curta, tentava,
com esforço, acompanhar. Anos e anos habituei-me a vê-los assim, em forma de
comboio descontrolado e periclitante. Ele mal cumprimentava quem via e por quem
passava e ela, sempre a sorrir, gostava de um dedo de conversa que nunca podia
ser longo porque logo ele olhava para trás e sem uma única palavra, apenas com
um frio olhar, mandava-a acabar com aquela treta. E ela nunca se queixou, nunca.
O que me surpreendia era o sorriso constante dela. Não me lembro da sua face
sem ser com a leveza de quem é feliz e nada tinha para o ser. Os filhos há
muito foram para longe do pai castrador ausentando-se da mãe carinhosa. Ficaram
os dois, numa casa cor de rosa, que parecia feliz por fora. Quantas vezes o vi
ir em primazia pela rua, de mãos livres e ela logo atrás, carregada com o fardo
de quem tem terras para amanhar. Que a vida do campo só é boa e leve para quem,
da cidade, diz que aquilo é que é qualidade de vida. Como se os campos se
amanhassem sozinhos e os vinhedos dessem o fruto saudável sem uma labuta
intensa, dura, por detrás e durante um longo ano! Quando ela adoeceu ele não pareceu
ficar sentido com a brutalidade da vida ‘é normal, há muitas pessoas doentes’.
Ela continuou, até que pode, a acompanha-lo numa labuta diária que corrói as forças,
que dilacera o corpo até que caiu por terra. Não aguentou mais. Dele sempre a
mesma frieza. Dela sempre o mesmo sorriso numa face amarela que a doença
imprime. E ela morreu. E ele ficou só. Só. Muito só. Continua a caminhar lesto,
sem sorrir, sem paragens para conversas triviais, mas confessou ao meu pai há
dias: ‘se eu soubesse, se eu tivesse a certeza que a encontrava, acredite que
me matava’. Espero que ela, onde quer que esteja, o tenha ouvido. E dou por mim
a pensar nas formas deformadas que o amor possui.
quinta-feira, 24 de julho de 2014
a minha suprema inveja de quem escreve maravilhosamente bem
‘não sei se foi uma revolução,
um golpe de Estado ou uma insurreição militar. Nem sei se, tão apenas, foi um
regime moribundo, exausto em si próprio, em expiação de cair à simples visão de
uma «chaimite»… Mas, volvidas quatro décadas, pouco importa esta catalogação.
Porque na História sempre existem três leituras para cada episódio relevante:
quando acontece, quando é escrito e quando são compreendidas as suas
consequências’.
Mário Assis Ferreira in Egoista
terça-feira, 22 de julho de 2014
Os meus fins de tarde
A varanda sofreu um problema de personalidade e agora é um terraço. As minhas leituras. A lanterna azul igual ao mar e às portadas. O meu fim de tarde. O meu sítio favorito. Virada a sul a sentir ainda o sol na face. Gosto destes pedaços de verão em que só existo eu nos meus recantos e onde, de certa forma, me escondo do mundo. Porque todos temos os nossos esconderijos. Todos.
Bem-vindos ao meu.
Bem-vindos ao meu.
sexta-feira, 18 de julho de 2014
A puta da guerra que não tem outro nome, não tem mesmo.
quinta-feira, 17 de julho de 2014
a minha ressaca
Conheço-me
muito bem: há uma altura em que começa por ser um breve e quase inexistente
pensamento. Depois começa a tomar corpo dentro da minha cabeça e chega ao dia
em que já não há maneira de não pensar diariamente nesta coisa que é viajar.
Começo a ressacar. Começo a tentar pensar num sítio relativamente perto para ir
tipo três dias. E barato. E rápido. Começo a fazer contas à vida. A planear
despesas e a cortar onde acho que posso cortar para a viagem que ainda não
planeei. Se pensar bem, faço tudo ao contrário. Dizem que se temos um destino
que ansiamos conhecer, que devemos planear para lá ir. Eu não tenho um destino,
tenho todo um mundo de possibilidades. Primeiro junto o dinheiro e depois,
quando a cabeça já não aguenta mais, tento ver até onde posso ir com aquele
dinheiro. Não importa, inclusive, se o destino é repetido. Quero apenas ir.
Viajar é o meu Zoloft e como preciso dele! Ai e tal no ano passado fiz duas
viagens, dizem as más-línguas. Eu sei. Eu sei, mas foi no ano passado. Estou
aqui, com 2014 até ao pescoço e com meses tão complicados a serem vividos, que
só eu sei como poderia fazer-me bem alapar daqui para fora. Mas a vida de funcionária
pública não está para essas andanças. O único destino que se me apresenta é
Tomar. E não é nada mau. Afirmam que é na imaginação que está a felicidade. E
quando a brisa se fizer sentir, vou fechar os olhos e imaginar que estou em
Florença, à beira rio do Arno a ver a ponte Vecchio que, dizem, os alemães não
tiveram coragem de bombardear aquando da 2ª Guerra Mundial, como se os nazis
tivessem algum tipo de contemplação pelo belo! Vá, em frente… e depois subia
até ao Duomo e sentava-me num daqueles cafés caríssimos mas solenes, pediria um
cappuccino com espuma em forma de coração e ficava ali, pelo menos 60 minutos a
babar, enquanto me sentia esmagada pela grandiosidade que me emudece sempre…
esperem, estou em Tomar. Não, ainda nem em Tomar estou. Ressaco. Ressaco
violentamente.
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