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segunda-feira, 28 de julho de 2014

Há princípios e princípios.


 Quando o Fernando, anestesista mas que ali estava presente como amigo, me perguntou como eu estava disse-lhe apenas: quero ver a minha filha. Estava no recobro depois de uma anestesia geral para me fazerem o parto, que esta coluna não aguentaria as dores de parto e muito menos uma epidural. Por isso, fui a última pessoa a vê-la. Ela estava a mostrar-se ao mundo, ao embevecido pai, à avó, à titi e ao tio Luis, ausente de tudo e presente no mais importante da família. E eu num outro canto. O Fernando disse-me que iria busca-la, mas tinha de ser rápido. E foi. E trouxe-ma e eu olhei-a e vi-a pela primeira vez, de olhos fechados, cara redonda, muito confortável numa roupa escolhida a dedo e desconfortável por lhe faltar o meio quente do meu útero. Ela estava calma para quem fora obrigada a sair mais cedo do que tencionava. Depois abriu os olhos e olhou-me. Não sei explicar, mas foi quase como que em forma de pergunta: onde estavas mamã? E aquele meu primeiro olhar sobre ela vem-me à cabeça amiúde, sempre que a sinto mais triste, mais fechada, mais melancólica. E tal como naquela vez, formo-me em concha e aconchego-a a mim. Digo-lhe que a amo mais que tudo. Talvez por causa deste nosso principio, receio sempre não estar na mesma sala do que ela quando ela precisa de mim. Luto sempre contra mim mesma para a deixar na escola, para a deixar ir nas excursões, para a deixar na casa de amigas, para a deixar a viver a vida que é dela e não minha. Luto. Luto mesmo. Estou sempre a dizer a mim mesma: ela é do mundo. Não a posso impedir de crescer livre. Não a quero espartilhada pelas minhas inseguranças, temores, angustias, que não quero… mas a nossa história não começou bem. Eu sei disso. Ela sabe disso. E talvez este nosso princípio justifique a dificuldade que temos de largar uma da outra. Porque temos. Porque nos agarramos imenso. Porque nos beijamos mais ainda e depois largamo-nos: ela para viver a vida dela e eu para tentar viver a minha, com a diferença de que a minha vida é, efetivamente, ela.
 

domingo, 27 de julho de 2014

das minhas leituras domingueiras


‘Vivemos num país com tantos séculos de existência, pensávamos que era uma casa já habitada e nossa, e de repente são os outros que nos vem tutelar, vigiar, controlar. Não foram eles que inventaram, fomos nós que criamos as condições, ou não soubemos gerir suficientemente o estado de democraticidade e, de repente, sem perder nenhumas das conquistas representadas pelo que nós chamamos Revolução de Abril, estamos no país que tem de prestar contas aos outros, sentados no banquinho dos que…’

Eduardo Lourenço em entrevista que deu a Ana Sousa Dias para a Egoísta

sexta-feira, 25 de julho de 2014

um amor deformado


Ele ia sempre à sua frente num passo apressado e ela, pequena, perna curta, tentava, com esforço, acompanhar. Anos e anos habituei-me a vê-los assim, em forma de comboio descontrolado e periclitante. Ele mal cumprimentava quem via e por quem passava e ela, sempre a sorrir, gostava de um dedo de conversa que nunca podia ser longo porque logo ele olhava para trás e sem uma única palavra, apenas com um frio olhar, mandava-a acabar com aquela treta. E ela nunca se queixou, nunca. O que me surpreendia era o sorriso constante dela. Não me lembro da sua face sem ser com a leveza de quem é feliz e nada tinha para o ser. Os filhos há muito foram para longe do pai castrador ausentando-se da mãe carinhosa. Ficaram os dois, numa casa cor de rosa, que parecia feliz por fora. Quantas vezes o vi ir em primazia pela rua, de mãos livres e ela logo atrás, carregada com o fardo de quem tem terras para amanhar. Que a vida do campo só é boa e leve para quem, da cidade, diz que aquilo é que é qualidade de vida. Como se os campos se amanhassem sozinhos e os vinhedos dessem o fruto saudável sem uma labuta intensa, dura, por detrás e durante um longo ano! Quando ela adoeceu ele não pareceu ficar sentido com a brutalidade da vida ‘é normal, há muitas pessoas doentes’. Ela continuou, até que pode, a acompanha-lo numa labuta diária que corrói as forças, que dilacera o corpo até que caiu por terra. Não aguentou mais. Dele sempre a mesma frieza. Dela sempre o mesmo sorriso numa face amarela que a doença imprime. E ela morreu. E ele ficou só. Só. Muito só. Continua a caminhar lesto, sem sorrir, sem paragens para conversas triviais, mas confessou ao meu pai há dias: ‘se eu soubesse, se eu tivesse a certeza que a encontrava, acredite que me matava’. Espero que ela, onde quer que esteja, o tenha ouvido. E dou por mim a pensar nas formas deformadas que o amor possui.

quinta-feira, 24 de julho de 2014

a minha suprema inveja de quem escreve maravilhosamente bem


‘não sei se foi uma revolução, um golpe de Estado ou uma insurreição militar. Nem sei se, tão apenas, foi um regime moribundo, exausto em si próprio, em expiação de cair à simples visão de uma «chaimite»… Mas, volvidas quatro décadas, pouco importa esta catalogação. Porque na História sempre existem três leituras para cada episódio relevante: quando acontece, quando é escrito e quando são compreendidas as suas consequências’.

Mário Assis Ferreira in Egoista
 
 

terça-feira, 22 de julho de 2014

Os meus fins de tarde

A varanda sofreu um problema  de personalidade e agora é um terraço. As minhas leituras. A lanterna azul igual ao mar e às portadas. O meu fim de tarde. O meu sítio favorito. Virada a sul a sentir ainda o sol na face. Gosto destes pedaços de verão em que só existo eu nos meus recantos e onde, de certa forma, me escondo do mundo. Porque todos temos os nossos esconderijos. Todos.
 Bem-vindos ao meu.


sexta-feira, 18 de julho de 2014

A puta da guerra que não tem outro nome, não tem mesmo.


 Olho para as noticias e fico incrédula. O mundo ainda possui essa capacidade em mim: o espanto. Negativo, leia-se. Abatem um avião assim, num misero segundo. Não sei como a coisa se processa com os misseis. Será que é assim: epah, vai ali um avião e vou carregar no botão e manda-lo pelos ares? Carrega-se num botão e acaba-se com a vida de 298 pessoas que nada, em absoluto nada tem a ver com aquela guerra. Acaba-se com vidas assim, num piscar de olhos. Estou para aqui meia esmagada com esta coisa de a vida já nada valer. Não consigo olhar para este acontecimento e não deixar de sentir medo por este mundo cruel em que vivemos. Lamenta-se e o que vale este lamento? Nada. Em absoluto nada. No avião iam investigadores e médicos para participarem na XX Conferência Internacional contra a SIDA. Crianças e famílias inteiras foram dizimadas por uma guerra que não era a deles. Assim, como um copo de cristal que cai de uma mesa. Poder-se-á seguir em frente? Sim. Seguimos. Mas cada vez mais vou perdendo a capacidade de acreditar na bondade humana e tenho de dar razão àquele meu amigo que afirma: o homem é intrinsecamente mau.

quinta-feira, 17 de julho de 2014

a minha ressaca


Conheço-me muito bem: há uma altura em que começa por ser um breve e quase inexistente pensamento. Depois começa a tomar corpo dentro da minha cabeça e chega ao dia em que já não há maneira de não pensar diariamente nesta coisa que é viajar. Começo a ressacar. Começo a tentar pensar num sítio relativamente perto para ir tipo três dias. E barato. E rápido. Começo a fazer contas à vida. A planear despesas e a cortar onde acho que posso cortar para a viagem que ainda não planeei. Se pensar bem, faço tudo ao contrário. Dizem que se temos um destino que ansiamos conhecer, que devemos planear para lá ir. Eu não tenho um destino, tenho todo um mundo de possibilidades. Primeiro junto o dinheiro e depois, quando a cabeça já não aguenta mais, tento ver até onde posso ir com aquele dinheiro. Não importa, inclusive, se o destino é repetido. Quero apenas ir. Viajar é o meu Zoloft e como preciso dele! Ai e tal no ano passado fiz duas viagens, dizem as más-línguas. Eu sei. Eu sei, mas foi no ano passado. Estou aqui, com 2014 até ao pescoço e com meses tão complicados a serem vividos, que só eu sei como poderia fazer-me bem alapar daqui para fora. Mas a vida de funcionária pública não está para essas andanças. O único destino que se me apresenta é Tomar. E não é nada mau. Afirmam que é na imaginação que está a felicidade. E quando a brisa se fizer sentir, vou fechar os olhos e imaginar que estou em Florença, à beira rio do Arno a ver a ponte Vecchio que, dizem, os alemães não tiveram coragem de bombardear aquando da 2ª Guerra Mundial, como se os nazis tivessem algum tipo de contemplação pelo belo! Vá, em frente… e depois subia até ao Duomo e sentava-me num daqueles cafés caríssimos mas solenes, pediria um cappuccino com espuma em forma de coração e ficava ali, pelo menos 60 minutos a babar, enquanto me sentia esmagada pela grandiosidade que me emudece sempre… esperem, estou em Tomar. Não, ainda nem em Tomar estou. Ressaco. Ressaco violentamente.