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sábado, 30 de agosto de 2014

Diz-me o que comes e dir-te-ei quem és


‘sabes o que mais gosto em ti?’  a pergunta foi-me feita numa outra vida, mas lembro-me como se fosse hoje. Ele vestia uma camisola vermelha de gola alta e o frio parecia rachar a pele. Com um ar dengoso perguntei ‘o quê?’, à espera de ouvir dizer que era a minha boca, o sorriso, as mãos, as mamas, o sentido de humor, sei lá, tudo menos ‘o que eu mais gosto em ti é a tua lasanha’. A partir desse dia nunca mais fiz uma lasanha em condições. Faço, mas não me dedico a ela. Não é por ciúmes, mas por desamor.

A comida está intrinsecamente ligada à minha pessoa. Vagueio num supermercado com a mesma satisfação com que o faço em plena Avenida da Liberdade. Pelo caminho já odiei uns pratos e amei outros. No entanto, o amor pela comida, pela cozinha, pelos livros de culinária tem vinda o crescer. Por isso, quando me sugeriram que não escrevesse sobre comida neste blog, fiquei um tanto ou quanto triste, amuei um pouco, refleti e cheguei à conclusão que não vou deixar de o fazer. Não vou porque não posso. Era como deixar de falar de mim. Foi à volta da cozinha que cresci com minha mãe perto, com as minhas tias em ensinamentos temperados, a rirem de tudo, a ensinarem-me como se lava umas tripas, se mata um coelho e se depena uma galinha. Sobrevivia na selva, portanto. Ainda hoje é o meu sítio preferido da casa. Na cozinha curo de dramas e guerras interiores e alimento a alma com prazeres indizíveis. Não posso deixar de falar de comida, não posso. Apenas prometo nunca trazer aqui um prato de lasanha. Nunca. Estamos esclarecidos?

 
imagem retirada do blog Starlights husband

 

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

A minha relação com Pedro Mexia


Sabem aquelas relações em que um anda atras do outro de forma psicótica numa corrida sem fim e sem princípio? Assim sou eu com o Pedro Mexia. O rapaz cria um blog eu sigo-o, quando dou por ela, acabou com o blog. Lança o livro com os post do blog. Eu compro-o. Passa um tempo e volta a criar um blog. Descubro-o e sigo-o. Estou descansada quando um dia , ressacada, vou em busca do blog e puf, o blog deixou de existir. Novo livro. Lá vou eu para as livrarias. O rapaz é assim para o psicótico e eu gosto. Obriga-me a uma esquizofrenia para a qual nem sempre estou preparada. As relações são assim: um mais preparado do que o outro, ou um mais (in) consciente do que o outro. Não há muito mais a dizer sobre esta relação a não ser que tenho dedicado os meus serões a ler o seu último livro com os  post do seu último blog ‘Lei Seca’ e continuo a acha-lo único, delicioso, psicótico, misógino (segundo ele o que lhe dá um certo charme para todas as que têm tendência para o abismo) e brilhante. Estou preparada para um dia destes voltar a descobrir um novo blog, segui-lo até ao dia em que ele o apaga e mais tarde nasce em forma de livro e assim sucessivamente. Esta é a nossa história de amor. Um looping estonteante, é o que é.

«(…) o casamento heterossexual devia de estar sujeito a numerus clausus. Casavam umas quantas pessoas por ano, e apenas se superassem uma bateria de provas. Aquilo que se faz hoje com os casais desavindos devia fazer-se, a contrário, com os nubentes: várias reuniões em que se tentava convencê-los a não casar, atirando-lhes com tudo, tédio, flacidez, adultério, saudades da mamã, gostos cinéfilos ao sábado, boletim clinico, dívidas e hipotecas, impotência, peúgas sujas. Isto acompanhado de discursos catastrofistas, gráficos, estatísticas, vídeos, testemunhos. Só depois de o casal estar realmente ciente e determinado é que se dava acesso ao casamento civil. O atual regime de casamento a pedido é iniquo e deve ser revogado. Infelizmente, não vejo coragem política para esta medida de salvação nacional».

Pedro Mexia in Lei Seca (tinta da china)
 

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

biografia involuntária dos amantes


Ainda estou de férias. Isto nota-se pela cadência (inexistente) com que tenho vindo aqui. No entanto tenho, porque sim, porque o livro não me sai da cabeça, porque me esmagou, porque me fez chorar, falar do livro de João Tordo ‘Biografia involuntária dos amantes’. Por um lado alegra-me que haja alguém com tao pouco jeito para títulos como eu. Acho este particularmente infeliz. Não infeliz no sentido da frase, que é bonita, mas porque não faz grande ligação com a história. De qualquer das formas, é a única coisa infeliz neste livro.

Não sei muito bem o que vocês esperam de um livro. Eu, ao longo da minha vida, fui esperando coisas distintas: esperei distração; esperei conhecimento; esperei um passar de tempo; esperei risos. Hoje espero que a história me surpreenda e me acompanhe muito tempo depois de a ter lido. Já estou mais exigente e não é fácil encontrar livros que me proporcionem este tipo de sensação. Bolas. Li o livro há duas semanas. Deixem-me refazer a mentira. Comecei a ler há dois meses, mas na altura começou a fazer tanta mossa em mim, que tive de parar sob pena e não fazer o trabalho que tinha em mãos de forma correta. Ele estava a interferir com o meu dia-a-dia. Com o que escrevia. Com o que pensava. Tive de o deixar. Peguei-lhe novamente nas férias. Estava descansada e meti a cabeça nas páginas para ler sem parar, sem folego, até ao ponto final. Não sei como se consegue escrever assim, muito menos sei que teias se tecem numa cabeça (bonita, por sinal) para se entrelaçar tamanho enredo, sei que me fez chorar. Este livro fez-me chorar. É forte. É duro. É tão bom que no fim tive vontade de gritar bem alto a todos que estavam na praia entretidos com as suas Novas Gentes, os Correios da Manhã e o livro que mais vi a ler ‘A culpa é das Estrelas’, que lessem este, este e mais nenhum. Sabem quando temos mesmo de partilhar o que é bom? É essa a sensação com que fiquei e que não me largou até agora.

Se só têm por habito ler um livro por ano, façam tudo para que seja este.

quinta-feira, 21 de agosto de 2014

ouvi por aí #4


Ela disse sobre o marido ‘deu-lhe a gripe dos trópicos’

(i.é fugiu com uma brasileira)

terça-feira, 19 de agosto de 2014

o clooney na casa de banho


O pedro e o artur são os dois peixes da minha filha. Quando resolvemos ir de férias tive de pedir à minha amiga Marta que tomasse conta deles. Acontece que a marta tem um gato lá em casa, o dexter, mas logo a minha querida amiga me disse que iria por os peixes na casa de banho dela e teria o cuidado de fechar os coitados para que o felino não lhes chegasse. Há pouco falava com a marta que me dava conta de um deslize um dia destes ao deixar a porta aberta: entrou na casa de banho e viu o dexter a olhar, impávido e sereno para o artur e o pedro. Ela chegou a pensar que afinal podiam ser os três grandes amigos, que ninguém tivera vontade de comer ninguém, até ao momento em que pegou ao colo no dexter e verificou que este estava molhado. Na verdade, deve ter sido por pouco. Lá expliquei à marta que temos de entender o dexter. É como se uma de nós tivesse na casa de banho o Clooney fechado e não lhe pudéssemos tocar.

domingo, 17 de agosto de 2014

O 9º dia de férias


 Tenho em mim, gravada na pele, como se de uma tatuagem se tratasse, as minhas férias de verão em casa das minhas tias, com os meus primos e todo o tempo do mundo. Foram tempos de muita felicidade. Quero o mesmo para a minha filha. As relações vão-se construindo. E eu fotografo apenas porque sim, até porque sei que estes dias se vão cravando na sua pele de forma indelével. Ainda bem.
A sua prima teresinha que ela ama


Ela e a tia fãn-fãn



Este vai ficar como o verão em que ela aprendeu a mergulhar
 

O fim dos homens


«- O homem de Neandertal tinha 48 cromossomas em vez dos 46 atuais. Como o chimpanzé.

 (…)

 - Os nossos cromossomas não param de evoluir.

 - Em que sentido?

 - Há muito tempo, o X e o Y da nossa espécie eram de tamanho equivalente. O Y, ao longo dos milénios, não cessou de diminuir. Hoje faz uma triste figura ao pé do X da feminilidade.

- Isso quer dizer que o macho vai desaparecer um dia?

 - Exatamente. Vai deixar de haver homens na terra.

(…)

 - Isso é para quando?

- Para daqui a dez milhões de anos. Ainda temos grandes discussões à nossa frente»



Jean-Christophe  Grangé in A Floresta dos Espíritos