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terça-feira, 30 de setembro de 2014

... e fui sincera

Talvez por ter sido criada numa aldeia, onde todos se conhecem e todos dizem bom dia e a maior parte catalisa mais a vida alheia do que vive a sua, gosto das relações de proximidade. Vou sempre à mesma mercearia. Vou sempre ao mesmo café. Vou sempre à mesma farmácia. Vou sempre à mesma livraria. Gosto de reconhecer os rostos e imaginar-lhes os defeitos e feitos. Manias. Não liguem. Na sexta fui à bulhosa onde vou sempre. Raramente estou sem ler. Tanto posso ler um livro numa tarde, como foi o caso da biografia da Snu Abecassis, como posso demorar meses, mas tenho sempre um livro a ser folheado. Hábitos, dizem uns, manias, dizem outros. Como dizia, sexta fui comprar um livro mas por um acaso dei de caras com um outro que chamou por mim. Comprei ambos. A moça, que já me conhece, pergunta:
 - Lê todos os livros que compra?
Respondi:

 - Não, faço amor com eles.

domingo, 28 de setembro de 2014

Cada um vê como bem entende

No mesmo dia uma pessoa disse-me que estava mais magra e uma outra disse-me que estava mais gorda. Com ambas concordei.

sábado, 27 de setembro de 2014

Dos meus outonos


Os dias de chuva levam-me, como se uma máquina do tempo se tratasse, para os meus outonos na minha aldeia. Não sei se é o cheiro a terra molhada, se é o bucolismo dos tons de outono que me remetem para o tapete ocre dos vinhedos pós-vindimas, ou o facto de não sair de casa, mas estes dias, como o de hoje, obrigam-me a ir para a cozinha da minha mãe, os primeiros dias de lareira acesa, os potes de ferro a laborarem um arroz de feijão com tomate como nunca mais comi em outro lado igual. Talvez por isso, por esse grito interno que hoje se fez sentir, tive de fazer um almoço condizente: peixinhos de rabo na boca e arroz de feijão e tomate. Não parei de pensar, enquanto fazia o almoço e abria a lata do tomate, e a lata do feijão, que a minha mãe nunca abriu lata alguma para fazer os seus cozinhados. No tempo do tomate come-se o máximo que se pode e o resto vai para a arca, devidamente dividido; o feijão também é debulhado no seu tempo, dividido e armazenado para o restante ano. Se a minha mãe lesse este blogue, estaria agora a telefonar-me e a perguntar se não aprendi nada com ela. Eu iria rir e dizer-lhe que sim. Que aquilo que perfazem as minhas qualidades na cozinha é a ela que as devo. O resto foram vícios adquiridos pelo caminho.

Bom outono!

sexta-feira, 26 de setembro de 2014

do amor

Há muito tempo que aprendi que o amor não tem só uma face. Não é uma linha reta. Não é simples e muito menos linear. Creio que o meu tio A. contribuiu muito para este meu entendimento. Sempre que o vejo, vejo ao lado a minha tia. Envelheceram juntos e hoje o futuro, para eles, já é uma estrada curta e breve. Aturam-se com paciência. Dão as mãos e creio que já os vi a darem mais beijos na boca do que vi os meus pais. Ele vai-lhe fazendo as maiores declarações de amor e ela ri-se, sempre um riso tímido, numa mistura de gozo com desconcerto. As suas irmãs torcem o nariz. Não acreditam em nada daquilo. Sabem que ele teve inúmeras mulheres pela vida fora, e de forma paralela. Minha tia também sabe. Não é segredo. Ele nunca foi bom a esconder a excitação da novidade. Ela sabia que depois passava-lhe. E ele nunca deixou de ir para casa à noite, jantar com ela, dar-lhe a mão enquanto, juntos, viam a telenovela. Para ela bastava-lhe. De certa forma, nunca pensou em deixa-lo. Nem ele a ela.
Um dia, andava eu na faculdade, quando fui com ele tomar um café. Sabíamos – a família - que ele tinha uma outra pessoa. Nunca lhe perguntei nada mas ele disse-me: sabes, sobrinha, é difícil resistir a uma mulher que põe as pernas no pescoço de um homem.

Ri-me. Nada disse. O que poderia dizer? Mas imagino que a minha tia não ponha as pernas no pescoço dele. E imagino que ele não se incomode muito com isso. Mas sei que se amam. Se é um amor que eu gostava de viver, não é, mas nunca devemos ver a vida dos outros apenas pela nossa lupa. A vida é bem mais complexa e o amor, ah, o amor então nem se fala!

Às vezes esta coisa de se viver não é mais do que andarmos em círculos

 Quando era miúda os meus pais davam-me, no início do ano letivo, óleo de fígado e bacalhau. Não sei se por isso, a verdade é que nunca estava doente. Eles acreditavam que era o frasco milagroso que me afastava das gripes e enfermidades típicas dos miúdos. Vencia estoicamente as mudanças de estação. Lembro-me de uma noite, teria uns sete ou oito anos, despir-me e ir para a minha varanda numa noite fria de janeiro em pleno Trás – os - Montes e passar lá grande parte da noite e a ver se no dia seguinte, uma súbita constipação, me afastava da escola. Nada feito. Estava como nova, apenas com muito sono pela noite ao relento. Aliás, ainda hoje, com quatro décadas em cima do pelo, não sou dada a constipações. Talvez por esta minha realidade (e a verdade é que não somos mais do que o que o nosso mundo nos ensinou), quando ontem, num convite muito simpático da Sofia, me deparo com a apresentação das vitaminas da Absorvit, todo um manancial de memória assolou-me em catadupa. Assim que soube que uma contém o tchan - óleo de fígado e bacalhau, pensei de imediato na minha mini. Senti toda a minha memória em ebulição. Voltei aos idos dias de pequena em casa dos pais. E veio uma decisão: vou dar à minha criatura o que os meus pais me deram. Quem sabe ela não passa melhor este inverno. Não sei se vai resultar, que não sei. Mas vou tentar.


Quero agradecer à Sofia, uma vez mais e às minhas companheiras de vida, Marta e Ana. O caminho assim é tão mais interessante. 

quinta-feira, 25 de setembro de 2014

adorava escrever um discurso para o Presidente da República (pronto, está verbalizado o sonho)

A Raquel Caldevilla lançou o desafio e eu não podia, de forma alguma, não aceitar. Descubro de mim quando de mim falo. Chego à conclusão que a minha vida está cheia de normalidade. É a minha vida. Questiono quem me quer conhecer melhor. Não sei… aqui estou:

1. O que sai sempre contigo de casa?
O telemóvel se não estou com a filha ao pé de mim. Não há volta a dar. Não o largo. Pode ser da creche, pode ser a  titi dela, pode ser a avó a ligarem e eu preciso atender. Estou sempre à distância de um telefonema em relação à minha filha. Mesmo em reuniões. Peço desculpa e licença para o ter à minha frente. Se tenho a filha comigo, nunca saio sem um bloco e uma caneta. Nunca se sabe quando me surge uma brilhante ideia para um brilhante livro que me vai granjear um brilhante prémio Saramago.

2. Qual é o teu animal favorito?
Os peixes da minha filha: o artur e o pedro. O cão salchicha do meu pai. E a Nika, cadela boxer que ofereci ao meu mano e que já não está no reino dos vivos. Os animais favoritos são aqueles com os quais interajo e me fazem soltar sentimentos.

3. Qual é o teu sapato preferido?
Casei com umas botas texanas. Já não as tenho. Mas de todos os sapatos serão aquelas que jamais esquecerei.

4. Produto de maquilhagem indispensável?
 Lápis. Risco preto nos olhos. Sempre. Senão parece que tenho os olhos dois números abaixo do tamanho real.

5. Qual é o teu maior sonho?
 Tenho dois para além do óbvio que é saber a minha filha feliz: escrever um livro de contos e um discurso para o Presidente da República.

6. Qual é o teu maior defeito?
Querer entender tudo.

7. O que te irrita nas pessoas?
As que se escondem por detrás de uma capa de bondade. Incomoda porque não as vemos logo.

8. Qual é a tua comida preferida?
A da minha mãe.

9. Doce ou salgado?
Doce.

10. O que te deixa feliz?

 A minha filha. Ela veio trazer-me um nível de felicidade que não sabia existir. E amo quando ela me pergunta: ‘sou a tua pessoinha favorita no mundo?’ É pois. 

o que esperamos quando vamos ao cinema?

Num Outro Tom é um filme que está por aí a granjear más críticas. Ai e tal está cheio de clichés, dizem os críticos de cinema. Mas afinal o que é que queremos de um filme? Que nos predisponha? Que nos eleve? Que nos faça sair da nossa vida? Que nos aumente a cultura? Que nos faça rir? Que nos faça sonhar? Que, que que... Os filmes, tal como a música e os livros, os espectáculos, até o mar, servem para muitas coisas. Todas ligadas ao sentimento. Puxam para cima ou para baixo, muitas vezes puxam para os lados. E a verdade é que o filme Num Outro Tom  está cheio de clichés, mas que mal tem? Qual o problema dos clichés? Porque é que os filmes para terem boas críticas têm todos de ter um pouco de Fellini? Ou Orson? Às vezes as coisas assim para o primitivo, para o sentimentaloide, predispõe, faz-nos uma ponte na nossa vida, faz-nos sonhar. Eu fui ver o filme e gostei. Não saí de lá a achar que era uma obra-prima, que não é. Não saí de lá a achar que tinha de comprar o DVD para rever em dias chuvosos agarrada ao meu cobertor, que não saí. Não saí de lá a achar que daqui a um ano ainda me vou lembrar dele, que não deve acontecer, mas saí alegre e feliz. E alimentou-me o sonho. O romance. Soltou as endorfinas (já que não corro…). E é isso que muitas vezes quero quando pago o bilhete de cinema. Que faça o tempo voar. E fez. E bastou-me. Se calhar sou assim pro facote e uma sentimentaloide. Presente. Mas basta-me, num filme, que me faça feliz por hora e meia. E fez.