Dieta. Ando de dieta. A malta
que me conhece sabe bem o que isto pode fazer ao meu sensível cérebro,
habituado que está a jantares e almoços apetitosos. Mas a coluna não aguenta.
As minhas queridas próteses começavam a colapsar porque são sensíveis, as gajas.
E ah e tal tenho de perder uns quilos, disse o meu querido médico. Dieta. A
dieta entristece-me. Entre ser aquelas mulheres magras em que qualquer trapo
cai bem, e ser eu, onde tenho de escolher as roupas com parcimónia para
disfarçar gorduras e poder comer, sou mais, muito mais, esta ultima. Por isso,
a dieta surge-me sempre como algo estranho a mim, como uma tatuagem que não
quero. Coloco lembretes no telemóvel para que, em momentos que sei que são
complicados, a palavra dieta no ecrã me obrigue a focar.
A coluna. Sofro de problemas de
coluna desde a adolescência. Ela colapsou no início da minha terceira década de
vida. Daí até aos dias de hoje já foram várias operações, várias próteses para
conseguir andar. Não sei explicar o que é que sinto de cada vez que me
perguntam como é ter uma vida limitada, porque não sinto que a tenha. Se tiver
de ficar um fim de semana em casa, na cama a recuperar de uma semana mais
agitada, fico, rodeada dos meus livros, do meu computador, a mandar sms para
todo o mundo e a manter a cabeça ativa enquanto o corpo descansa e se prepara
para novo embate. Só não quero faltar ao trabalho. Nunca quero faltar ao
trabalho. Não gosto que me olhem como alguém com limitações, porque não sinto
que as tenha, e por isso, tento disfarçar a dor. Tenho sempre medo que não me
peçam determinado trabalho porque ‘ai e tal coitada dela…’, porque não me sinto
assim. Na verdade, o meu trabalho é escrever, e não apanhar batatas ou cavar
terrenos. Posso escrever. Os dedos não me doem e a cabeça, mal ou bem, vai
funcionando. Mas vivo rodeada do medo da pena, da comiseração e escondo.
Escondo-me. Por isso, agora vem a dieta, para aguentar melhor. Colapsar menos.
A idade não ajuda. Bolas, a idade…
Hoje, quando cheguei ao
trabalho tinha uma surpresa de uma pessoa que me lê. Uma pessoa que me dá força
quando percebe que não escrevo e que isso poderá ter algo por detrás. Uma
pessoa com quem já troquei email e que me dá alento, me fortalece. Sou uma
alminha sensível. Ela descortinou isso e alimenta a força que vê em mim, por
muito pouca e fraca que seja. Já por duas ou três vezes pensei vir ao email e
desabafar com ela. Não sei. Nunca tomamos um café juntas, mas gosto dela. Gosto
do que os seus olhos me dizem. Do que o sorriso dela me alenta. Hoje, com a sua
prenda, dissipou-se a vacuidade irónica da minha dieta. Hoje o dia está bem
mais leve e alegre, para mim. Obrigada Isabel, obrigada. Prometo que vou fazer
a sopa de lima. E vou lê-lo com mestria. E arrumá-lo na estante que tenho na
minha cozinha, o meu sítio favorito. Deu-me uma vontade de chorar quando li a
sua carta. Mas não ligue, a dieta deixa-me assim, sensível.
Obrigada por tudo o que este
livro me transmite.
"Doutor, se me deixar beber esta tequila, prometo não beber no meu funeral"
Frida Kahlo, mas poderia muito bem ter sido eu a dizer tal coisa.