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terça-feira, 21 de outubro de 2014

a minha querida filha, ai a minha querida filha


Pela primeira vez a minha filha levou manuais para a escola e ia com eles numa alegria contagiante. Resolvi meter conversa:

 - Filha, agora com os manuais vais poder estudar muito.

Ela olhou para mim e respondeu:

 - Mamã, eu não vou estudar, eu vou aprender. Estudar é para quem já sabe ler e eu não sei.


dieta e mimos que chegam na altura certa


Dieta. Ando de dieta. A malta que me conhece sabe bem o que isto pode fazer ao meu sensível cérebro, habituado que está a jantares e almoços apetitosos. Mas a coluna não aguenta. As minhas queridas próteses começavam a colapsar porque são sensíveis, as gajas. E ah e tal tenho de perder uns quilos, disse o meu querido médico. Dieta. A dieta entristece-me. Entre ser aquelas mulheres magras em que qualquer trapo cai bem, e ser eu, onde tenho de escolher as roupas com parcimónia para disfarçar gorduras e poder comer, sou mais, muito mais, esta ultima. Por isso, a dieta surge-me sempre como algo estranho a mim, como uma tatuagem que não quero. Coloco lembretes no telemóvel para que, em momentos que sei que são complicados, a palavra dieta no ecrã me obrigue a focar.

A coluna. Sofro de problemas de coluna desde a adolescência. Ela colapsou no início da minha terceira década de vida. Daí até aos dias de hoje já foram várias operações, várias próteses para conseguir andar. Não sei explicar o que é que sinto de cada vez que me perguntam como é ter uma vida limitada, porque não sinto que a tenha. Se tiver de ficar um fim de semana em casa, na cama a recuperar de uma semana mais agitada, fico, rodeada dos meus livros, do meu computador, a mandar sms para todo o mundo e a manter a cabeça ativa enquanto o corpo descansa e se prepara para novo embate. Só não quero faltar ao trabalho. Nunca quero faltar ao trabalho. Não gosto que me olhem como alguém com limitações, porque não sinto que as tenha, e por isso, tento disfarçar a dor. Tenho sempre medo que não me peçam determinado trabalho porque ‘ai e tal coitada dela…’, porque não me sinto assim. Na verdade, o meu trabalho é escrever, e não apanhar batatas ou cavar terrenos. Posso escrever. Os dedos não me doem e a cabeça, mal ou bem, vai funcionando. Mas vivo rodeada do medo da pena, da comiseração e escondo. Escondo-me. Por isso, agora vem a dieta, para aguentar melhor. Colapsar menos. A idade não ajuda. Bolas, a idade…

Hoje, quando cheguei ao trabalho tinha uma surpresa de uma pessoa que me lê. Uma pessoa que me dá força quando percebe que não escrevo e que isso poderá ter algo por detrás. Uma pessoa com quem já troquei email e que me dá alento, me fortalece. Sou uma alminha sensível. Ela descortinou isso e alimenta a força que vê em mim, por muito pouca e fraca que seja. Já por duas ou três vezes pensei vir ao email e desabafar com ela. Não sei. Nunca tomamos um café juntas, mas gosto dela. Gosto do que os seus olhos me dizem. Do que o sorriso dela me alenta. Hoje, com a sua prenda, dissipou-se a vacuidade irónica da minha dieta. Hoje o dia está bem mais leve e alegre, para mim. Obrigada Isabel, obrigada. Prometo que vou fazer a sopa de lima. E vou lê-lo com mestria. E arrumá-lo na estante que tenho na minha cozinha, o meu sítio favorito. Deu-me uma vontade de chorar quando li a sua carta. Mas não ligue, a dieta deixa-me assim, sensível.

Obrigada por tudo o que este livro me transmite.

 "Doutor, se me deixar beber esta tequila, prometo não beber no meu funeral"
Frida Kahlo, mas poderia muito bem ter sido eu a dizer tal coisa.

domingo, 12 de outubro de 2014

entre o tema raça e o tema carapinha, a minha vénia


 Demorei a pegar-lhe. É um livro grande. Assusta um pouco quando o tempo que se tem (que tenho) para ler, ou o ócio, é cada vez menos. Temia o que imaginava, por tudo o que já tinha lido, que iria acontecer. E aconteceu. Peguei-lhe e não o larguei mesmo em sítios onde era suposto largá-lo. Mas aconteceu-me  a capacidade que o ser humano adquire quando o tempo escasseia - aumenta a sua capacidade de o fintar. Americanah da Chimamanda Ngozi Adichie é, sem sobra de dúvida, o melhor livro que li este ano (bem, na lista não posso colocar o Cozinha Confidencial de Bourdin porque é o mesmo que comparar chocolate com marisco). Vivi numa terra marcada pela emigração. E a emigração só é leve para quem não a viveu de perto, quem não a cheirou. Estar-se num sítio que se ama mas que não nos dá o que necessitamos e partir vestidos de dor, de saudades e muitas vezes de desamor, é uma provação de vida. Adichie descreve de uma forma única, intensa, forte o que é essa coisa de se fazer à estrada para um sítio onde, muitas vezes se está num patamar que pouco os distingue dos animais. Ser-se invisível numa rua movimentada. Fazer-se trabalhos que se assemelham à mais pura da exploração e depois este livro é uma mistura deliciosa entre essa dor, esse confronto cultural e a dificuldade que a protagonista tem, ao ser preta e ter carapinha, de domar o seu cabelo. A mim atrai-me sempre as atitudes, a sociedade, as massas, e de como se criam mares de distância entre raças mesmo que à distância de meio metro. É um livro que devia ser obrigatório em todos os cursos de sociologia, em todas as casas onde residem racistas, em todas as terras onde as raças coexistem com dificuldade. Porque ele mostra, ao fim e ao cabo, que nada nos distingue. Nada. Em absoluto, nada. Mas isso eu já sabia, não sabia é que era possível ser falado com humor e com tal sagacidade.


 

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

do meu trabalho - entrevista a Fátima Mendonça


Andei angustiada dias e dias. Saber que a ia entrevistar deixou-me assim. Por um lado, fazer entrevistas é o que mais gosto; pelo outro é o trabalho que mais me desgasta, mais me esvazia, mais me consome, que mais me exige. E ela chegou perturbada com uma multa, uma maldade ainda fresca e eu pensei que não a ia conseguir, que a perdera. Mas não perdi. Ficamos ali, a tecer vidas, a ouvir como o medo nos pode paralisar, mas também como o mesmo medo pode ser a combustão para seguirmos em frente. Ela, uma mulher bonita; eu, aquela que ‘tem uns lindos óculos’. No fim, pedi-lhe para assinar o meu catálogo da sua exposição. Assinou. Deu-me e disse ‘gostei muito’. Por hoje chegou. E foi bom.
 
A data está errada, mas tudo o resto está perfeito

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

A minha filha tem a quem sair


Na escola a Educadora pergunta-lhe:

 - Maria, o que é isto?

 - Claro que é uma batata, Ana. -  Responde.

A querida da educadora respira fundo e reformula:

 - Maria, que figura geométrica é esta?

 - Um circulo.

(obrigada Ana M. por me pores ao corrente do feitio pertinente e curioso da minha filha, mesmo quando estou longe. És impagável). 

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

das mães que abusam dos filhos e de como se faz muito mau jornalismo no mundo


Comprei a Sábado. Nela vem uma entrevista à Paula Rego. A entrevista é feita por uma jornalista do Sunday Times Magazine, Christina Patterson. A dada altura Paula Rego diz ‘quando estava de cama, sem me sentir muito bem, a minha mãe costumava vir e massajava-me’, e a jornalista pergunta ‘lá em baixo?’ e Paula rega anui com a cabeça. Ou seja, Paula era abusada sexualmente pela sua mãe. E o que é que a jornalista pergunta de seguida? Imaginem lá, senhoras e senhores… Ela pergunta ‘Isso é habitual em Portugal?’. Oi? Como? Desculpe, pode repetir? E assim se faz jornalismo em terras de Sua Majestade.

Sim, a paula foi abusada porque é a nossa cultura. Está-nos no sangue. Corre nas veias de qualquer mãe portuguesa massajar o sexo das filhas quando estão com amigdalites. Faz bem.

Ó Valha-me Deus!

domingo, 5 de outubro de 2014

das pessoas simpáticas


Eu sou simpática por natureza. É-me mais fácil o sorrir, o cumprimentar, o falar do que ser mais distante, mais séria, sisuda . Esta minha forma de ser já me trouxe alguns dissabores: há quem veja num sorriso um convite para rebolar na relva, mas a malta vai gerindo a situação o melhor que pode e que sabe. Há uns anos (não vou fazer contas porque deprimo) eu apanhava muitas vezes o comboio em Alcântara, onde vivia, para o Cais do Sodré. Muitas vezes era o mesmo senhor que estava na bilheteira. A dada altura o senhor pergunta: a menina de onde é? E eu olhei-o desconfiada, pela primeira vez, e nem respondi. Talvez por ter ficado calada ele justificou-se dizendo que normalmente as pessoas de lisboa não eram assim simpáticas. Lembro-me que era sexta-feira e de lhe ter desejado um bom fim de semana. Desejava mesmo que o senhor tivesse um fim-de-semana. Porque não verbalizá-lo? Eu gosto de interagir. Prefiro sempre a portagem onde o boneco de ter portageiro está acesso. Prefiro a bomba de gasolina onde tem o senhor que coloca a gasolina. E sei que tem uma neta e sei o nome da neta. Gosto das pessoas, de uma forma em geral. Ontem fui com a minha filha à Gulbenkian. Estava a acontecer um percurso artístico e achei que era uma boa altura para lhe distender os horizontes. O jardim tinha imensos espelhos. As duas riamos para um quando alguém nos tira uma foto. Era uma rapariga oriental, muito simpática, muito bonita, com um cachecol vermelho a salientar o seu tom de pele claro. Mostrou-me a foto na sua máquina e disse-me num português ainda cambaleante que se lhe desse o meu email que me mandaria a foto. Escrevi-lhe o email num telemóvel cheio de caracteres estranhos para mim. Depois de ir embora pensei que ela jamais me mandaria a foto, mas que não fazia mal, ela tinha sido simpática e soube-me bem o seu sorriso, a sua vontade de fotografar o meu momento de mãe. Ainda a tarde ia a meio quando a recebo. Veio de um mail da Lan (adoro o nome) e num português perfeito ela diz: Olá boa tarde! Esta é a foto de ti e a tua filha fofinha! Espero que tenham um bom fim-de-semana!

Li e reli o email e ali estava a foto. Fiquei tão sensibilizada. Gosto de pessoas simpáticas e ainda bem que sou uma delas. Preconizo muito o sorriso e faço tudo para que a minha filha faça o mesmo. Ser-se sisudo pode acalentar o mistério, mas aos 40 já não há pachorra para tal.

 
Obrigada Lan.