A rua dos meus pais é uma rua
sem saída. Quem nela entra e a percorre, é acompanhada de vivendas do lado
esquerdo e vinhedo do lado direito. Toda a aldeia foi crescendo nos socalcos,
numa subida e descida que habitua quem lá nasceu e estranha quem a visita. A
segurar a terra do vinhedo num socalco típico, há um muro de xisto cheio de cal.
Nas noites quentes, os meus pais, a rosa, o gilberto, a adélia e o zeca, sem
nada combinado, acabam o jantar e colocam cadeiras na correnteza do muro e por
lá ficam na conversa. Os putos andam pela rua a correr atrás de uma bola, ou de
um gafanhoto. Quando vislumbram um besouro é a loucura. Pegam nele e fazem do
bicho uma pequena e leve aula de biologia. Eu sei porque já fui um desses
putos. Hoje a noite cheira a um verão que este ano não houve. Estou na minha
varanda virada a sul a ver se a brisa me traz o cheiro da maresia. O ar é
quente e eu estou aqui a imaginar a rua onde, certamente, a 400km daqui os meus
pais estão. E rio-me dos putos, descalços em busca de bicharada. E de nas costas
terem o Marão, imponente, de guarda. Não fui ao cinema em pequena, nem à ópera,
nem vi teatro e muito menos viajei para fora do país. Segundo as normas
vigentes, acho que não fui estimulada. Volto a rir-me. Nesta noite na minha
varanda virada a sul, sinto que tive a melhor infância que poderia ter tido. E nem
falei do bolo de laranja da minha mãe e do cheiro que deixava na cozinha e de como o cheiro se
espalhava para fora da casa até à rua onde se passavam os serões, com o Gilberto
a adivinhar ‘então, onde está o bolo, vizinha?’
quarta-feira, 22 de outubro de 2014
sexo vs idade vs amor vs desamor
O Supremo Tribunal
Administrativo desvalorizou a importância do sexo após os 50 anos, num
determinado acórdão, como noticiaram um pouco em todos os jornais e afins deste
Portugal. Imagino que os juízes que o fizeram tiveram mais em conta a sua vida
sexual do que a dos outros (nunca devemos adivinhar o que vai na casa alheia
através da nossa), mas entretanto disseram-me que um dos nossos senadores da
política, octogenário, deixou a sua esposa para viver um amor tórrido junto de
uma moça de 32 anos. Não sei e é verdade ou não, mas a ser, de ambos os casos
me rio, mas mesmo assim, aplaudo mais, muito mais o amor último, que o desamor
no primeiro caso.
terça-feira, 21 de outubro de 2014
a minha querida filha, ai a minha querida filha
Pela primeira vez a minha filha
levou manuais para a escola e ia com eles numa alegria contagiante. Resolvi
meter conversa:
- Filha, agora com os manuais vais poder
estudar muito.
Ela olhou para mim e respondeu:
dieta e mimos que chegam na altura certa
Dieta. Ando de dieta. A malta
que me conhece sabe bem o que isto pode fazer ao meu sensível cérebro,
habituado que está a jantares e almoços apetitosos. Mas a coluna não aguenta.
As minhas queridas próteses começavam a colapsar porque são sensíveis, as gajas.
E ah e tal tenho de perder uns quilos, disse o meu querido médico. Dieta. A
dieta entristece-me. Entre ser aquelas mulheres magras em que qualquer trapo
cai bem, e ser eu, onde tenho de escolher as roupas com parcimónia para
disfarçar gorduras e poder comer, sou mais, muito mais, esta ultima. Por isso,
a dieta surge-me sempre como algo estranho a mim, como uma tatuagem que não
quero. Coloco lembretes no telemóvel para que, em momentos que sei que são
complicados, a palavra dieta no ecrã me obrigue a focar.
A coluna. Sofro de problemas de
coluna desde a adolescência. Ela colapsou no início da minha terceira década de
vida. Daí até aos dias de hoje já foram várias operações, várias próteses para
conseguir andar. Não sei explicar o que é que sinto de cada vez que me
perguntam como é ter uma vida limitada, porque não sinto que a tenha. Se tiver
de ficar um fim de semana em casa, na cama a recuperar de uma semana mais
agitada, fico, rodeada dos meus livros, do meu computador, a mandar sms para
todo o mundo e a manter a cabeça ativa enquanto o corpo descansa e se prepara
para novo embate. Só não quero faltar ao trabalho. Nunca quero faltar ao
trabalho. Não gosto que me olhem como alguém com limitações, porque não sinto
que as tenha, e por isso, tento disfarçar a dor. Tenho sempre medo que não me
peçam determinado trabalho porque ‘ai e tal coitada dela…’, porque não me sinto
assim. Na verdade, o meu trabalho é escrever, e não apanhar batatas ou cavar
terrenos. Posso escrever. Os dedos não me doem e a cabeça, mal ou bem, vai
funcionando. Mas vivo rodeada do medo da pena, da comiseração e escondo.
Escondo-me. Por isso, agora vem a dieta, para aguentar melhor. Colapsar menos.
A idade não ajuda. Bolas, a idade…
Hoje, quando cheguei ao
trabalho tinha uma surpresa de uma pessoa que me lê. Uma pessoa que me dá força
quando percebe que não escrevo e que isso poderá ter algo por detrás. Uma
pessoa com quem já troquei email e que me dá alento, me fortalece. Sou uma
alminha sensível. Ela descortinou isso e alimenta a força que vê em mim, por
muito pouca e fraca que seja. Já por duas ou três vezes pensei vir ao email e
desabafar com ela. Não sei. Nunca tomamos um café juntas, mas gosto dela. Gosto
do que os seus olhos me dizem. Do que o sorriso dela me alenta. Hoje, com a sua
prenda, dissipou-se a vacuidade irónica da minha dieta. Hoje o dia está bem
mais leve e alegre, para mim. Obrigada Isabel, obrigada. Prometo que vou fazer
a sopa de lima. E vou lê-lo com mestria. E arrumá-lo na estante que tenho na
minha cozinha, o meu sítio favorito. Deu-me uma vontade de chorar quando li a
sua carta. Mas não ligue, a dieta deixa-me assim, sensível.
domingo, 12 de outubro de 2014
entre o tema raça e o tema carapinha, a minha vénia
sexta-feira, 10 de outubro de 2014
do meu trabalho - entrevista a Fátima Mendonça
Andei angustiada dias e dias.
Saber que a ia entrevistar deixou-me assim. Por um lado, fazer entrevistas é o
que mais gosto; pelo outro é o trabalho que mais me desgasta, mais me
esvazia, mais me consome, que mais me exige. E ela chegou perturbada com uma
multa, uma maldade ainda fresca e eu pensei que não a ia conseguir, que a
perdera. Mas não perdi. Ficamos ali, a tecer vidas, a ouvir como o medo nos
pode paralisar, mas também como o mesmo medo pode ser a combustão para
seguirmos em frente. Ela, uma mulher bonita; eu, aquela que ‘tem uns lindos
óculos’. No fim, pedi-lhe para assinar o meu catálogo da sua exposição.
Assinou. Deu-me e disse ‘gostei muito’. Por hoje chegou. E foi bom.
| A data está errada, mas tudo o resto está perfeito |
quarta-feira, 8 de outubro de 2014
A minha filha tem a quem sair
Na escola a Educadora pergunta-lhe:
- Maria, o que é isto?
- Claro que é uma batata, Ana. - Responde.
A querida da educadora respira fundo e reformula:
- Maria, que figura geométrica é esta?
- Um circulo.
(obrigada Ana M. por me pores ao corrente do feitio pertinente e curioso da minha filha, mesmo quando estou longe. És impagável).
Subscrever:
Mensagens (Atom)





