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quinta-feira, 30 de outubro de 2014

definição de maldade


Entrevistei-o já nem sei porquê. Sei que era professor universitário, um tipo cheio de saber, tímido, inteligente, acutilante e com uma particularidade: era cego. Nascera cego e como tal, não fazia ideia do que estamos a falar quando nos referimos a algo físico que se depara à nossa frente, porque para ele apenas havia ligações, como um puzzle, que se construíam na sua cabeça para a construção do objeto. Era cego e notava-se fisicamente que era cego. Não fosse isso, ninguém saberia. Durante a entrevista lembro-me que ele falava da maldade em frases, em lugares de palavras que não fazia sentido. Percebi que queria falar disso. Fiz-lhe a vontade. Levei a conversa para o que poderia ser maldade no seu entender. A pergunta veio seguida de uma resposta, errada, naturalmente, porque era a minha resposta, e não a dele. «Para si maldade será, provavelmente ter nascido cego», tentei com dotes adivinhatórios que apenas me remeteram para a valeta. Lembro-me nitidamente, dele sorrir e dizer: ‘não, nunca achei que isso fosse uma maldade. Maldade de quem? De Deus? Não, maldade foi ter comigo uma senhora durante 16 anos. Ela limpava e arrumava a casa. Não o consigo fazer mas preciso de saber onde está tudo para me movimentar. Quando me pediu um aumento absurdo e eu não podia pagar-lhe, tive de lhe dizer que não. No dia seguinte, quando cheguei a casa, bati contra o móvel da sala, entrei na cozinha e tropecei no sofá, fui à casa de banho e caí sobre a banheira, entrei no quarto e tinha uma mesinha cabeceira sobre a cama. Ela tinha alterado toda a disposição da minha casa. Eu não sabia onde estava. Caía e levantava-me para cair de novo. De tudo o que ela me poderia ter feito, fez a maior maldade: tornar desconhecido o meu porto’.  
Hoje, enquanto tomava um chá ao fim do dia, na mesa ao lado da minha ouvi um homem, com um ar bastante arrogante, dizer a uma mulher bastante desfeita: eu não fiz o que me fazia bem, ou aquilo que me fazia feliz, eu fiz aquilo que eu sabia que te iria fazer mal.
 

O Botequim da Liberdade - Natália Correia


Natália Correia sempre me fascinou. Aliás, não deve haver por aí nenhuma mulher que apreciando mulheres de espirito livre, não tenha um pequeno e sociólogo fraco por uma mulher como ela. Por isso quis muito ler o livro O Botequim da Liberdade de António Dacosta. Este não é uma biografia da Natália, são fragmentos da sua vida, sobretudo à volta das personalidades que ela conseguiu reunir no seu botequim da Graça. Fascina perceber que as tricas da política não mudaram assim tanto, apenas temos novos e diferentes usuários. Importa focar a mulher, a açoriana de temperamento inconstante, de feitio ora doce ora irascível, que deu dimensão ao lugar; a parte da política nos idos anos 80 e início dos anos 90 e à sociedade portuguesa – esta comunidade de malta ainda profundamente conservadora. Não consigo imaginar que dores terá tido esta mulher que apostava na androgenia dos seres; esta mulher absolutamente díspar daquilo que era aceitável a uma lady de então; esta mulher que pensava, como agora gostamos tanto de dizer: fora da caixa.

Parti para o livro gostando muito dela e, pelo meio, tive algumas desavenças com o seu feitio e as suas ideias. Receei chegar à ultima folha a detestá-la, por ser, de alguma forma, um misto de gente que afirma a liberdade mas que também a coíbe bastando, para isso, não gostar de uma determinada pessoa ou, mais, das suas ideias. Uma mulher que de alguma forma era viperina, insatisfeita, temperamental… temi mesmo deixar de sentir esta coisa que, afinal, ainda sinto. E sinto porque a sua dimensão intelectual foi maior que o seu feitiozinho de gaja. Sinto porque reconheço a sua importância na luta por alguns direitos importantes num Portugal pós-Estado Novo ainda muito obtuso, fechado, receoso e cinzento. Sinto, mas vejo nela alguma normalidade, que não via. De certa forma, este livro restituiu a Natália ao mundo dos mortais, retirando-a do alto do pedestal, o que não é forçosamente mau.
 

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

A vida é uma aventura.



Estou sempre com a televisão no Travel Chanel. Ontem mostrava um casal que depois de reformados resolveram vender a casa, pegar nas suas economias e mudarem-se para o outro lado do mundo, numa aventura sem impar. Eles estavam felizes. Viviam num género de cabana junto ao mar. Minha mãe ligou-me nessa altura. Contei-lhe o que acabara de ver. Disse-lhe que ela e o meu pai também deviam de pegar nas suas coisas e fazerem uma grande viagem. Irem à aventura. E estava imbuída deste espirito quando ela me responde:

 - Aventura filha? Aventura é eu aturar o teu pai há quase 50 anos.

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

adeus sarda


A minha mãe tem sardas. Eu adoro as sardas da minha mãe. Por isso, quando apareceu uma no lábio, fiquei feliz. Nem questionei o seu aparecimento após quatro décadas de existência. Era uma linda sarda que eu adorava ver, e que reluzia, de tão preta, quando colocava um bálsamo em cima. Mas a dermatologista, onde fui por causa de um outro assunto, não gostou. Disse que tinha de tirar. Fui a uma segunda opinião, afinal não podia abrir mão da única sarda que Deus me oferecera depois de tanto as ansiar. O segundo (um médico de olhos azuis-gélidos, que parecia ter vindo da sibéria) ainda foi mais perentório que a primeira: já devia ter saído.

Hoje fui tirar a sarda. Na verdade pode não ser uma sarda e sim um mau sinal. Estou aqui, em casa, com a boca num estado miserável e finalmente penso que assim sim, assim consigo emagrecer, na medida em que nada consigo comer. Olho para o sítio onde tinha a sarda/sinal e vejo pontos. Tenho pena se se confirmar que era uma sarda; tenho receio se se confirmar ser um mau sinal. E rio-me da senhora que se cruzou comigo no supermercado e que me disse: um homem que a ponha nesse estado, não a merece. Coitada da senhora. Nem ela imagina que o único que um dia se lembrou de me levantar a mão, acabou com uma cabeça de cavalo, em mármore, no sobrolho e com três pontos… e sem mim.

sábado, 25 de outubro de 2014

vamos beber um copo?


A primeira vez que entrei num café/bar a meio da tarde e pedi um copo de vinho, foi na Régua, num bonito espaço que hoje já não existe e que se chamava Prensa. Na altura, há mais de dez anos, as pessoas ainda não estavam preparadas para um sítio como aquele. Mesmo em Lisboa não havia esse habito do vinho em vez do café ou do chá, e todos sabemos que os hábitos custam a entranhar. Num destes dias uma amiga estava com um problema e combinamos encontrarmo-nos ao fim da tarde para falarmos. A combinação foi desde logo nos seguintes moldes ‘vamos beber um copo ao Porto de Recreio (oeiras)’. O verão mudou-se para outubro e as tardes estão apetecíveis. Nós ficamos pelo B’Entrevinhos, servidas por um rapaz igual ao António Variações e a beber um bom branco fresco. Entre lágrimas e risos, alimentamos as horas. Podíamos ter pedido um café, ou um chá, mas foi um copo de vinho. Bastou um. E soube bem. Muito bem. O sol começava a pôr-se. Ela começava a ganhar forças para o que aí vem. E eu senti-me quase pertencente a este mundo, um tanto ou quanto cosmopolita, urbano e intenso. Quase.

Amesterdão


Dia 3 voo para Amesterdão. Estou em modos que excitada com a viagem. Há muito que queria visitar a capital da Holanda. Tenho assim, como que uma wishlist de cidades europeias e Amesterdão estava no top 3. Vou estar muito pouco tempo, não faz mal, desde que consiga ver a casa de Anne Frank. Aliás, bastava-me ir à casa de Anne F, tomar um chocolate quente numa esplanada com vista para um dos canais, comprar uma tulipa e vir embora. Bastava-me. Tudo nas viagens me encanta, desde fazer a mala até a lentidão das horas nos aeroportos. Nunca me canso. Deve ser porque o faço poucas vezes. Estou a desviar-me do que me trouxe aqui - preciso de sugestões de sítios para, imaginem lá: comer. Nem mais nem menos. Se alguém souber do equivalente à nossa tasca no coração de Amesterdão, um sítio com comida típica mas onde não tenha de deixar o meu parco ordenado de funcionária pública, agradeço. Prometo uma surpresa a quem me der uma boa sugestão. Palavra de trasmontana.

Fotografia retirada do site www.feminina.pt

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

Ouvi por aí #5


Ele disse-me ‘tu tens um toque de experimentalismo social urbano’.


E não sei se fique contente ou triste.