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quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

O Ronaldo é inteligente?

No jornal de domingo, Marcelo Rebelo de Sousa dizia à Judite de Sousa, com um ar surpreendido, que o Ronaldo era um rapaz inteligente. Deixando de lado o preconceito que a afirmação denota, vale a pena debruçarmo-nos um pouco sobre esta ideia generalizada de que um jogador de futebol (ou de um outro desporto qualquer retirando os jogadores de xadrez, mas acima de tudo os jogadores de futebol) é excecional fisicamente mas burro que nem um calhau. Agora dei por mim a sorrir um pouco, porque me parece que na escola deveria ser obrigatório ler a obra de Manuel Damásio. Vamos lá, o Cristiano é o melhor do mundo, mas seria o melhor do mundo se não fosse inteligente? Será que há uma alminha neste mundo que acha que é possível ser-se um Ronaldo, um Messi, sem ligações neurológicas excecionais? Não, não é possível. Dissecando um pouco mais. Se colocarem o Messi a correr será que não há ninguém que corra mais do que ele? Ou que faça mais flexões do que ele? Há, certamente. Então o que é que ele tem a mais em pleno campo? Quando o Ronaldo vê a bola e olha para os colegas e toma uma decisão, o que é que ele está a fazer? Apenas a correr? O que o faz tomar determinadas decisões em campo, o corpo ou a mente?

Podemos achar que ele não é o tipo mais culto do hemisfério norte. Que não faz ideia de quem foi o terceiro Rei de Portugal ou com quantas letras se escreve paralelepípedo. Mas isso, estou em crer, que posso perguntar a muitas classes ditas superiores que também não o saberão. Uma coisa é a cultura e outra a inteligência e de cada vez que nos espantamos com a inteligência de um jogador de futebol que é o melhor do mundo, estamos a diminuir o seu real valor. 

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

Ainda a questão Charlie



Indignam-se uns quantos nas redes sociais do motivo de nos termos ofendido profundamente com o massacre no Charlie Habdo, de a comunidade internacional ter saído à rua em Paris e não termos o mesmo nível de indignação e afrontamento para o que se passa no Paquistão, na Síria, com o blogger Raif Badawi e tantos outros exemplos que poderia dar. É pertinente a questão, o pensamento, mas não é difícil a conclusão. A diferença de atuação é a mesma que difere quando nos indignamos com algo que acontece na casa dos vizinhos e quando acontece na nossa casa. Paris é mais nossa casa do que a Síria ou o Paquistão. Os cartoonistas são-nos mais ‘caros’ do que o blogger Raif ou outros que não tiveram a sorte (?) de umas chicotadas e foram assassinados. A nossa ligação para com o restante mundo tem intensidades distintas: há a nossa casa e a casa dos outros. Não se assume. Não se diz, mas sente-se. infelizmente. 

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

Das relações amorosas

Ele dizia-me que tinha dois assuntos constantes com a mulher: a filha e o dinheiro. “ parece que somos dois contabilistas. Gastei isto. Quando transferes aquilo? A conta precisa de dinheiro. Temos de cortar nas despesas”. É nisto que se transformam grandes partes das relações sentimentais, em pais contabilistas. Deveria ter ficado admirada? Não, não fiquei.  


quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Hoje acordei diferente

Não sei se é possível, após o que aconteceu ontem em França, seguirmos em frente sem que algo se tenha mudado dentro de nós. Para mim é, de todo, impossível. O que vejo, o que sinto, muda-me. E podia mudar-me criando em mim um ódio visceral que me fosse carcomendo por dentro; ou mudava-me aumentando em mim, aquilo que já era grande: a liberdade de falar o que quero e ouvir o que não quero, respeitando. A Liberdade de viver. Foi isso que aconteceu: hoje ainda dou mais valor à liberdade de ser quem sou e aceitar todos os que de mim pensam e são diferentes. E o mundo respondeu desta forma.
Aquilo que os bárbaros assassinos quiseram fazer, funcionou na precisa medida contrária: acirraram a liberdade de imprensa.
Hoje tenho a perfeita certeza que uma palavra ou um desenho é mais poderoso do que uma arma. E hoje, a primeira coisa que fiz quando acordei a minha filha, foi falar-lhe da liberdade. Porque a educação tem uma palavra a dizer sobre o estado do mundo.


Hoje sou uma pessoa diferente de ontem. 
Hoje sou Charlie 


terça-feira, 6 de janeiro de 2015

O meu dia de Reis

Neste dia de Reis não comi bolo-rei pela primeira vez que me lembro ser gente. Quando me lembrei disso deu-me assim aquela tristeza de quem perde um hábito adquirido em casa dos pais. Não gosto de perder hábitos adquiridos nos pais, porque parece-me que aumenta a distância existente entre nós. E estava embalada nesta tristeza quando leio um email que uma amiga me enviou hoje:


Alguém está a descascar uma laranja e cheira muito bem. Não sei porquê, mas este aroma delicioso e fresco fez-me lembrar a Carla.  Assim, do nada, e sem qualquer motivo, lembrei-me’.

Talvez que este seja dos mais belos emails que recebi em toda a minha vida. Não voltei a pensar no Bolo-rei.

 

Obrigada I… vai tendo o condão de me dizer o certo na hora certa.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

Preguiça


Uma das minhas resoluções de ano novo é ser menos preguiçosa. Não no sentido de trabalhar mais, porque sou atenta e dedicada ao trabalho, mas desde que fui mãe, saio pouco, dedico pouco tempo a mim, fico-me por casa dias a fio a lamber a cria. Mas a cria já vai a caminho dos cinco. Já cheira a liberdade. Já quer o mundo lá de fora. Já não se esgota na casa, no seu quarto, nos seus bonecos. Gosta de chão de terra e de pedras e de se sujar... A cria tem sede de futuro e eu vejo chegada a hora de também eu fazer mais aquilo que deixei de fazer e que me sabia tão bem. Hoje fui almoçar ao Museu de Arroz, na Comporta. Podia ser noutro sítio qualquer. Calhou ser lá. A comporta é linda. Fiquei ali, na cadeira de verga a fazer mil planos mentais. No alto do poste estava uma cegonha no seu ninho a olhar os arrozais. Por momentos não achei que o mundo fosse perfeito, mas achei que está quase lá.

Sim, este ano vou ser menos preguiçosa comigo. Vou escutar mais o que sinto e o que penso e o que quero. Acima de tudo o que quero. Ligar menos às vozes paralelas, ouvir mais a interior. Pode parecer coisa pouca, mas quantas vezes vivemos mais em conformidade com aquilo que esperam de nós, do que ligadas à nossa vontade? Pois é, este ano vou ouvir-me mais.  



quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

O meu ano para não me esquecer

Este meu ano foi um verdadeiro carrossel. Com altos e baixos estonteantes. Mas se fechar os olhos, sei que foi um bom ano. Lancei um livro. Construí amizades. Perdi cumplicidades. Delineei caminhos. Afinei vontades. Li muito. Ouvi muita música. Transformei a casa da marta e do rui na minha casa. Dei-lhes a minha casa a eles. Adorei cada jantar com o grupo que cada vez está mais coeso. Sei melhor o que quero. O que mereço. Não fui operada. Morri de saudades dos pais. Renasci a cada beijo da minha filha. Fiz um novo livro a ser lançado em 2015. Chorei muito e ri mais ainda. Criei histórias para lhe contar quando ela for maior. Senti-me só inúmeras vezes e na companhia certa outras tantas. Cozinhei muito e emagreci também muito. Passei a dormir mal e a acordar cedo mesmo quando não tenho de o fazer. Apaixonei-me e desapaixonei-me pelo meu trabalho mil vezes. Conheci Amesterdão na companhia de uma amiga que quero na minha vida sempre. Tive dias maus, muito maus e dias de sol maravilhosos. Cresci. Acima de tudo olhei para a minha foto na mesinha de cabeceira do meu pai quando eu tinha 21 anos e ri-me. Gosto mais de mim hoje, mais velha, mais contida mas mais ciente do meu lugar no mundo. Que venha 2015 que estou cá para vivê-lo.
Bom ano para todos vós.