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terça-feira, 20 de janeiro de 2015

dos silêncios

Raramente vou para Lisboa à hora de ponta. Aconteceu ir hoje. Logo no início do meu percurso reparo num carro que vem atrás de mim com um casal na casa dos cinquenta anos. O que me prendeu a atenção foi a cara. Iam calados, não sei se a ouvir alguma música ou não, apenas calados, ela de braços cruzados no lugar do pendura e ele a conduzir. Durante os cerca de 50 minutos que os tive atrás de mim, nunca falaram (a não ser que fossem ventríloquos), nunca sorriram, nunca alteraram a face. Ela manteve-se com os braços cruzados e ele com as duas mãos no volante como fazemos quando aprendemos a conduzir há meia dúzia de dias. Era como se fossem estátuas. Não acho mal que se cale. Que o silêncio impere. Que hajam horas mudas e sós, mas talvez por ser incapaz de me manter calada 50 minutos num carro com alguém, fitei-os e estranhei-os. Da mesma forma que fito e estranho os casais que durante um jantar só abrem a boca para a comida entrar. Já não se fala porque se falou tudo, ou não se fala porque não se quer falar com aquela pessoa? Conheço mais pessoas assim. Mais casais que há anos se calaram. Que coabitam num silêncio que, certamente, não estranham. Diz-se por aí que é bom quando o silêncio não pesa. Eu acho que é melhor quando a conversa não falta. Mas isso sou eu, que até sozinha falo. 

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

É menino


Sentada na sala de espera da ginecologia-obstetrícia do hospital da Cuf Descobertas, vejo mais grávidas por metro quadrado do que não-grávidas. Dos gabinetes dos médicos saem casais com semblantes distintos. Uns sorriem. Outros mudos. Uns de mão dada e outros apartados. Mas aquele casal ficou-me. Saíram e ele coloca o seu braço sobre os ombros da mulher e disse como quem rebenta: ‘É menino’. Ela não diz nada, apenas sorri comovida.

Quando o mundo nos desilude devíamos de sentar num sítio como este, onde a humanidade se refaz a cada minuto, mostrando que ainda é resiliente o suficiente para acreditar na espécie; que ainda não perdeu a esperança de se regenerar.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

O Ronaldo é inteligente?

No jornal de domingo, Marcelo Rebelo de Sousa dizia à Judite de Sousa, com um ar surpreendido, que o Ronaldo era um rapaz inteligente. Deixando de lado o preconceito que a afirmação denota, vale a pena debruçarmo-nos um pouco sobre esta ideia generalizada de que um jogador de futebol (ou de um outro desporto qualquer retirando os jogadores de xadrez, mas acima de tudo os jogadores de futebol) é excecional fisicamente mas burro que nem um calhau. Agora dei por mim a sorrir um pouco, porque me parece que na escola deveria ser obrigatório ler a obra de Manuel Damásio. Vamos lá, o Cristiano é o melhor do mundo, mas seria o melhor do mundo se não fosse inteligente? Será que há uma alminha neste mundo que acha que é possível ser-se um Ronaldo, um Messi, sem ligações neurológicas excecionais? Não, não é possível. Dissecando um pouco mais. Se colocarem o Messi a correr será que não há ninguém que corra mais do que ele? Ou que faça mais flexões do que ele? Há, certamente. Então o que é que ele tem a mais em pleno campo? Quando o Ronaldo vê a bola e olha para os colegas e toma uma decisão, o que é que ele está a fazer? Apenas a correr? O que o faz tomar determinadas decisões em campo, o corpo ou a mente?

Podemos achar que ele não é o tipo mais culto do hemisfério norte. Que não faz ideia de quem foi o terceiro Rei de Portugal ou com quantas letras se escreve paralelepípedo. Mas isso, estou em crer, que posso perguntar a muitas classes ditas superiores que também não o saberão. Uma coisa é a cultura e outra a inteligência e de cada vez que nos espantamos com a inteligência de um jogador de futebol que é o melhor do mundo, estamos a diminuir o seu real valor. 

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

Ainda a questão Charlie



Indignam-se uns quantos nas redes sociais do motivo de nos termos ofendido profundamente com o massacre no Charlie Habdo, de a comunidade internacional ter saído à rua em Paris e não termos o mesmo nível de indignação e afrontamento para o que se passa no Paquistão, na Síria, com o blogger Raif Badawi e tantos outros exemplos que poderia dar. É pertinente a questão, o pensamento, mas não é difícil a conclusão. A diferença de atuação é a mesma que difere quando nos indignamos com algo que acontece na casa dos vizinhos e quando acontece na nossa casa. Paris é mais nossa casa do que a Síria ou o Paquistão. Os cartoonistas são-nos mais ‘caros’ do que o blogger Raif ou outros que não tiveram a sorte (?) de umas chicotadas e foram assassinados. A nossa ligação para com o restante mundo tem intensidades distintas: há a nossa casa e a casa dos outros. Não se assume. Não se diz, mas sente-se. infelizmente. 

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

Das relações amorosas

Ele dizia-me que tinha dois assuntos constantes com a mulher: a filha e o dinheiro. “ parece que somos dois contabilistas. Gastei isto. Quando transferes aquilo? A conta precisa de dinheiro. Temos de cortar nas despesas”. É nisto que se transformam grandes partes das relações sentimentais, em pais contabilistas. Deveria ter ficado admirada? Não, não fiquei.  


quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Hoje acordei diferente

Não sei se é possível, após o que aconteceu ontem em França, seguirmos em frente sem que algo se tenha mudado dentro de nós. Para mim é, de todo, impossível. O que vejo, o que sinto, muda-me. E podia mudar-me criando em mim um ódio visceral que me fosse carcomendo por dentro; ou mudava-me aumentando em mim, aquilo que já era grande: a liberdade de falar o que quero e ouvir o que não quero, respeitando. A Liberdade de viver. Foi isso que aconteceu: hoje ainda dou mais valor à liberdade de ser quem sou e aceitar todos os que de mim pensam e são diferentes. E o mundo respondeu desta forma.
Aquilo que os bárbaros assassinos quiseram fazer, funcionou na precisa medida contrária: acirraram a liberdade de imprensa.
Hoje tenho a perfeita certeza que uma palavra ou um desenho é mais poderoso do que uma arma. E hoje, a primeira coisa que fiz quando acordei a minha filha, foi falar-lhe da liberdade. Porque a educação tem uma palavra a dizer sobre o estado do mundo.


Hoje sou uma pessoa diferente de ontem. 
Hoje sou Charlie 


terça-feira, 6 de janeiro de 2015

O meu dia de Reis

Neste dia de Reis não comi bolo-rei pela primeira vez que me lembro ser gente. Quando me lembrei disso deu-me assim aquela tristeza de quem perde um hábito adquirido em casa dos pais. Não gosto de perder hábitos adquiridos nos pais, porque parece-me que aumenta a distância existente entre nós. E estava embalada nesta tristeza quando leio um email que uma amiga me enviou hoje:


Alguém está a descascar uma laranja e cheira muito bem. Não sei porquê, mas este aroma delicioso e fresco fez-me lembrar a Carla.  Assim, do nada, e sem qualquer motivo, lembrei-me’.

Talvez que este seja dos mais belos emails que recebi em toda a minha vida. Não voltei a pensar no Bolo-rei.

 

Obrigada I… vai tendo o condão de me dizer o certo na hora certa.