Raramente vou para Lisboa à
hora de ponta. Aconteceu ir hoje. Logo no início do meu percurso reparo num
carro que vem atrás de mim com um casal na casa dos cinquenta anos. O que me
prendeu a atenção foi a cara. Iam calados, não sei se a ouvir alguma música ou
não, apenas calados, ela de braços cruzados no lugar do pendura e ele a
conduzir. Durante os cerca de 50 minutos que os tive atrás de mim, nunca
falaram (a não ser que fossem ventríloquos), nunca sorriram, nunca alteraram a
face. Ela manteve-se com os braços cruzados e ele com as duas mãos no volante
como fazemos quando aprendemos a conduzir há meia dúzia de dias. Era como se fossem
estátuas. Não acho mal que se cale. Que o silêncio impere. Que hajam horas
mudas e sós, mas talvez por ser incapaz de me manter calada 50 minutos num
carro com alguém, fitei-os e estranhei-os. Da mesma forma que fito e estranho os
casais que durante um jantar só abrem a boca para a comida entrar. Já não se
fala porque se falou tudo, ou não se fala porque não se quer falar com aquela
pessoa? Conheço mais pessoas assim. Mais casais que há anos se calaram. Que
coabitam num silêncio que, certamente, não estranham. Diz-se por aí que é bom
quando o silêncio não pesa. Eu acho que é melhor quando a conversa não falta.
Mas isso sou eu, que até sozinha falo.
terça-feira, 20 de janeiro de 2015
sexta-feira, 16 de janeiro de 2015
É menino
Sentada na sala de espera da
ginecologia-obstetrícia do hospital da Cuf Descobertas, vejo mais grávidas por
metro quadrado do que não-grávidas. Dos gabinetes dos médicos saem casais com
semblantes distintos. Uns sorriem. Outros mudos. Uns de mão dada e outros
apartados. Mas aquele casal ficou-me. Saíram e ele coloca o seu braço sobre os
ombros da mulher e disse como quem rebenta: ‘É menino’. Ela não diz nada,
apenas sorri comovida.
Quando o mundo nos desilude devíamos
de sentar num sítio como este, onde a humanidade se refaz a cada minuto,
mostrando que ainda é resiliente o suficiente para acreditar na espécie; que
ainda não perdeu a esperança de se regenerar.
quinta-feira, 15 de janeiro de 2015
O Ronaldo é inteligente?
No jornal de domingo, Marcelo Rebelo
de Sousa dizia à Judite de Sousa, com um ar surpreendido, que o Ronaldo era um
rapaz inteligente. Deixando de lado o preconceito que a afirmação denota, vale
a pena debruçarmo-nos um pouco sobre esta ideia generalizada de que um jogador
de futebol (ou de um outro desporto qualquer retirando os jogadores de xadrez,
mas acima de tudo os jogadores de futebol) é excecional fisicamente mas burro
que nem um calhau. Agora dei por mim a sorrir um pouco, porque me parece que na
escola deveria ser obrigatório ler a obra de Manuel Damásio. Vamos lá, o
Cristiano é o melhor do mundo, mas seria o melhor do mundo se não fosse
inteligente? Será que há uma alminha neste mundo que acha que é possível ser-se
um Ronaldo, um Messi, sem ligações neurológicas excecionais? Não, não é
possível. Dissecando um pouco mais. Se colocarem o Messi a correr será que não
há ninguém que corra mais do que ele? Ou que faça mais flexões do que ele? Há,
certamente. Então o que é que ele tem a mais em pleno campo? Quando o Ronaldo
vê a bola e olha para os colegas e toma uma decisão, o que é que ele está a
fazer? Apenas a correr? O que o faz tomar determinadas decisões em campo, o
corpo ou a mente?
Podemos achar que ele não é o
tipo mais culto do hemisfério norte. Que não faz ideia de quem foi o terceiro
Rei de Portugal ou com quantas letras se escreve paralelepípedo. Mas isso,
estou em crer, que posso perguntar a muitas classes ditas superiores que também
não o saberão. Uma coisa é a cultura e outra a inteligência e de cada vez que
nos espantamos com a inteligência de um jogador de futebol que é o melhor do
mundo, estamos a diminuir o seu real valor.
quarta-feira, 14 de janeiro de 2015
Ainda a questão Charlie
Indignam-se uns quantos nas
redes sociais do motivo de nos termos ofendido profundamente com o massacre no
Charlie Habdo, de a comunidade internacional ter saído à rua em Paris e não
termos o mesmo nível de indignação e afrontamento para o que se passa no
Paquistão, na Síria, com o blogger Raif Badawi e tantos outros exemplos que
poderia dar. É pertinente a questão, o pensamento, mas não é difícil a
conclusão. A diferença de atuação é a mesma que difere quando nos indignamos
com algo que acontece na casa dos vizinhos e quando acontece na nossa casa. Paris
é mais nossa casa do que a Síria ou o Paquistão. Os cartoonistas são-nos mais ‘caros’
do que o blogger Raif ou outros que não tiveram a sorte (?) de umas chicotadas
e foram assassinados. A nossa ligação para com o restante mundo tem
intensidades distintas: há a nossa casa e a casa dos outros. Não se assume. Não
se diz, mas sente-se. infelizmente.
terça-feira, 13 de janeiro de 2015
Das relações amorosas
Ele dizia-me que tinha dois assuntos constantes com a mulher: a filha e o dinheiro. “ parece que somos dois contabilistas. Gastei isto. Quando transferes aquilo? A conta precisa de dinheiro. Temos de cortar nas despesas”. É nisto que se transformam grandes partes das relações sentimentais, em pais contabilistas. Deveria ter ficado admirada? Não, não fiquei.
quinta-feira, 8 de janeiro de 2015
Hoje acordei diferente
Não sei se é possível, após o que aconteceu ontem em França,
seguirmos em frente sem que algo se tenha mudado dentro de nós. Para mim é, de
todo, impossível. O que vejo, o que sinto, muda-me. E podia mudar-me criando em
mim um ódio visceral que me fosse carcomendo por dentro; ou mudava-me
aumentando em mim, aquilo que já era grande: a liberdade de falar o que quero e
ouvir o que não quero, respeitando. A Liberdade de viver. Foi isso que
aconteceu: hoje ainda dou mais valor à liberdade de ser quem sou e aceitar
todos os que de mim pensam e são diferentes. E o mundo respondeu desta forma.
Aquilo que os bárbaros assassinos quiseram fazer, funcionou
na precisa medida contrária: acirraram a liberdade de imprensa.
Hoje tenho a perfeita certeza que uma palavra ou um desenho
é mais poderoso do que uma arma. E hoje, a primeira coisa que fiz quando
acordei a minha filha, foi falar-lhe da liberdade. Porque a educação tem uma
palavra a dizer sobre o estado do mundo.
Hoje sou uma pessoa diferente de ontem.
Hoje sou Charlie
terça-feira, 6 de janeiro de 2015
O meu dia de Reis
Neste dia de Reis não comi bolo-rei
pela primeira vez que me lembro ser gente. Quando me lembrei disso deu-me assim
aquela tristeza de quem perde um hábito adquirido em casa dos pais. Não gosto
de perder hábitos adquiridos nos pais, porque parece-me que aumenta a distância
existente entre nós. E estava embalada nesta tristeza quando leio um email que
uma amiga me enviou hoje:
‘Alguém está a descascar uma laranja e cheira muito bem. Não sei porquê,
mas este aroma delicioso e fresco fez-me lembrar a Carla. Assim, do nada, e sem qualquer motivo,
lembrei-me’.
Talvez que este seja dos mais
belos emails que recebi em toda a minha vida. Não voltei a pensar no Bolo-rei.
Obrigada I… vai tendo o condão
de me dizer o certo na hora certa.
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