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sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

A missa da minha filha

    A minha filha foi, com a escola, assistir a uma missa. Perguntei-lhe:

    - Então filha, gostaste da missa?

    Resposta:

    - Sim, mamã, a missa é uma espécie de ginástica, levantei-me e sentei-me muitas vezes.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Naturalmente que as mulheres não são tão capazes quanto os homens



Li, em inúmeros posts, no Facebook, que ainda bem que o governo Grego não tem mulheres na sua constituição. É sinal que não ligam a essa coisa perniciosa das cotas. Eu concordo. Concordo com a ideia absoluta que ninguém deve ascender a um lugar de destaque só porque nasceu com determinado sexo. Parabéns aos Gregos. No entanto, acho estranho que num universo vasto de um país, não haja uma mulher, apenas uma, umazinha, que não se tenha distinguido numa qualquer área. Estou certa que a ser assim, a biologia explica a coisa. Os cromossomas Y gregos são mais capazes, mais inteligentes, que os X. Relembro que há um seculo era um pouco assim em todo o mundo. As mulheres ainda mal pensavam, mal discerniam, mal raciocinavam. Eram uma cabeça com pernas e mamas e… Entretanto evoluíram. Tenho esperança que a teoria da evolução da espécie feminina também ocorra na Grécia. Até lá, afastem as mulheres dos cargos de governação. 


terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Holocausto

Palavras para quê?

(fotografias do campo de concentração de Terezin, na Republica Checa)





sábado, 24 de janeiro de 2015

Stoner de John Williams


Há histórias que lemos e que nos parecem levar nas asas absurdas da imaginação; levam-nos para sítios inexplorados. Eu gosto dessas viagens, inseridas nas vidas únicas de algumas personagens que vivem nas páginas de um livro. Depois há as histórias banais, de gente banal, mas que estão tão bem escritas, tão bem relatadas, tão perfeitas que, não tendo nada de original, são do melhor que se pode ler. Stoner, o livro de John Williams cabe nesta última categoria. Eu até vos podia contar o raio da história, que nada perdiam na leitura. Porque esta sim, é imprescindível. A história de Stoner já foi contada mil vezes e mil vezes vivida. Um homem, simples e humilde, que corta com o passado licenciando-se e descobrindo que há mais nele do que aquilo que havia nos seus antepassados. Que chega a professor universitário. Que sente o apelo da carne e que casa sem nunca ter feito amor, sexo. E não é feliz. Não faz feliz. E um dia apaixona-se por uma mulher que não a sua. A sociedade não aceita. Uma vida demolhada em ciúmes, mal-entendidos, insensibilidades, silêncios, raiva. Digam lá, quantas vezes já ouviram esta história? Muitas, certamente, mas nenhuma contada/escrita desta forma. Nunca, durante a leitura, nunca, mas mesmo nunca, senti empatia pela personagem. Às vezes senti pena, comiseração, mas nada mais. Ela passa por nós como um rio suave e sem sobressaltos. Começamos e acabamos. E no fim vem a sublime tristeza de já não ter mais paginas, mais palavras pela frente. Há livros que valem pela história, outros pela forma como se escreve. Destes últimos, o mundo editorial está escasso. Por isso, este Stoner vale ouro.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

É suposto



É suposto que goste do bairro alto. Da comida vegetariana. Do sushi. Que medite. Que use Báton vermelho. Que me encante o filme pseudointelectual e que a minha filha seja estimulada até ao tutano com aulas de ballet, musica, de hipismo, de canto e hip hop. É suposto que não fume e que beba q.b. sem excessos vergonhosos. Que a idade não se mostre. Que tenha uma casa com peças do siza vieira e quadros com um risco no meio. Que seja minimalista, de preferência. Que passe férias lá fora ou se forem cá dentro, que vá para a comporta. Que deteste pezinhos de coentrada e que não me ria alto. Demasiado alto. Jamais assuma que ouço a M80, mas que me esparramo numa alternativa Radar sem nunca assumir que me embalo com música foleira. É suposto ter seguro de saúde, empregada doméstica, um cão ou gato ou ambos e, de permeio, um coelho anão. Um bom carro cai sempre bem e a roupa da zara seja mascarada com uma mala de marca e uns sapatos Made In. É suposto não mostrar os cabelos brancos que segundo percebi, não mostram o carácter de quem assume a idade, mas denuda a desleixada. É suposto ter os filhos em bons colégios, em ATL’s espetaculares onde se gasta o que não se tem, mesmo que não se saiba quais os programas educativos da escola ou os resultados. É suposto esconder-se que se vai ao cabeleireiro de bairro. À tasca da esquina a não ser que tenha saído na time Out três vezes. É suposto ter um Iphone, um Ipad, um Ipod e de preferência andar com tudo atrás e mostrar, ou esconder se não for de uma marca da moda. É suposto não se mostrar que se tem dificuldades, que por vezes somos infelizes, que a tristeza também mora aqui. É suposto dizermos a todos os que colocam fotos novas, velhas, bonitas ou feias no Facebook que está lindo/a seguido de rasgados elogios. É suposto dizer-se que já se leu os clássicos, mesmo que ler não seja a nossa praia. É suposto correr, fazer jogging mas com estilo, nunca de roupa feia e deslavada. Faz-se com calças nike misturadas com um t-shirt adidas e umas cuecas fio dental, como se a coisa não incomodasse. É suposto não se viver segundo o que se é, o que se gosta porque no meio de tanta coisa, já ninguém sabe quem verdadeiramente é. 

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

A vida dos outros é sempre tão...


Uma das características de uma aldeia é que as pessoas vivem mais a vida das outras pessoas que as suas. Catalisam o que os seus olhos vêem ou aquilo que a sua imaginação acrescenta, mais, muito mais do que aquilo que a si mesmas diz respeito. Aprende-se a viver assim. Não se liga. Por vezes rimo-nos. Olha-se para o que ouvimos como se tudo não passasse de um livro onde o enredo tem coisas similares à nossa vida. Mas é apenas isso: coisas similares.
Trabalhar num sítio onde, não obstante de sermos muitos, tem a mesma característica, obriga-nos a mecanismos de defesa como se numa aldeia vivêssemos. Catalisamos a vida dos outros, não vivendo a nossa. Imaginamos o que aquele rapaz pensa; imaginamos a vida daquela rapariga; descortinamos dores onde nem sabemos que existe; comentamos leviandades onde nem acreditamos que haja sofrimento. Rimos daquilo que nem sabemos e choramos dores inexistentes. Era bem mais interessante se enfiássemos o nariz naquilo que é estritamente nosso. Era pois, mas não o fazemos. Por isso, é como na aldeia, olhamos para o que nos dizem e o que nos contam como se fosse uma peça de teatro, um filme ou um livro. Algures pelo meio estamos nós e outras pessoas que conhecemos. Tudo o mais é distinto. Não roça sequer a realidade. Fica a quilómetros. Mas isso já não importa. A história que corre é outra. Nestes casos não há desmentidos em jornais, nem nas redes socais. Apenas uma inverdade que tomamos como verdade de tantas vezes a ouvirmos.

A vida é curiosa. 

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

dos silêncios

Raramente vou para Lisboa à hora de ponta. Aconteceu ir hoje. Logo no início do meu percurso reparo num carro que vem atrás de mim com um casal na casa dos cinquenta anos. O que me prendeu a atenção foi a cara. Iam calados, não sei se a ouvir alguma música ou não, apenas calados, ela de braços cruzados no lugar do pendura e ele a conduzir. Durante os cerca de 50 minutos que os tive atrás de mim, nunca falaram (a não ser que fossem ventríloquos), nunca sorriram, nunca alteraram a face. Ela manteve-se com os braços cruzados e ele com as duas mãos no volante como fazemos quando aprendemos a conduzir há meia dúzia de dias. Era como se fossem estátuas. Não acho mal que se cale. Que o silêncio impere. Que hajam horas mudas e sós, mas talvez por ser incapaz de me manter calada 50 minutos num carro com alguém, fitei-os e estranhei-os. Da mesma forma que fito e estranho os casais que durante um jantar só abrem a boca para a comida entrar. Já não se fala porque se falou tudo, ou não se fala porque não se quer falar com aquela pessoa? Conheço mais pessoas assim. Mais casais que há anos se calaram. Que coabitam num silêncio que, certamente, não estranham. Diz-se por aí que é bom quando o silêncio não pesa. Eu acho que é melhor quando a conversa não falta. Mas isso sou eu, que até sozinha falo.