Há uns
anos, ela tomou uns comprimidos para dormir depois de discutir de forma
violenta, na vã esperança que tudo aquilo não passasse de um logro e afinal o
seu marido voltasse atrás no seu desamor. Todos ouvimos os gritos e, na
escadaria do prédio, houve quem dissesse que ela, coitada, vinha de más famílias,
descompensada e que nunca fora uma pessoa forte e capaz de enfrentar as
agruras. Enfrentar o desamor é para gente fraca, dizia-se. Pensei muito nisso. Será
que a classe social define a forma como reagir perante uma traição ou um amor
que se vai? O livro de Valérie Trierweiler, a antiga companheira de François
Hollande, ‘obrigada por este momento’, fez-me regressar a esse prédio, recordar
os gritos tresloucados da minha vizinha. E fez-me chegar à brilhante conclusão
que o amor é igual em todo o lado e o desamor também. As palavras podem sair de
uma boca cuidada, a louça pode ser partida por umas mãos perfeitas, mas em
tudo, a forma de se reagir, é semelhante. Há contidas, serenas, histéricas,
tresloucadas em todas as classes. Eu é que achava que do Eliseu a traição
custasse menos a suportar. Engano meu.
De
resto, o livro nada vale. É apenas usado para que possamos entrar na intimidade
de um casal conhecido e poucos resistem em fazê-lo. Ver de perto se são iguais
a nós. Eu não resisti. Shame on me.




