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sábado, 7 de fevereiro de 2015

Here comes the sun

   
Que raio de dificuldade de derivar para outros mundos para além dos meus! O tempo passa e a minha concha fica cada fez mais dura, mais impenetrável. Ouço Nina Simone. Ouço Nina Simone desde os meus 18 anos, mais ou menos. Descobri-a numa banda sonora de um filme. Em trás os montes, lá na minha aldeia, o acesso à cultura era assim, um tanto ou quanto afunilado. Mas chegava-se se assim tivesse de ser. Ouvi-a e foi como se ela me gritasse que tinha de a ouvir. Foi até hoje. Na altura andava embriagada com a Bethânia, a Maria. Dava-me forte para o sentimento, para a tristeza. Ainda tenho desses dias, assim, melancólicos dos quais desperto com uma energia inesgotável. 
Vou fazer 43 anos amanhã. Quando descobri a Nina Simone não fazia planos de forma a chegar a esta idade e ter uma outra vida. Tenho a que tenho. Não tenho a que sonhei. Porque não a sonhei. Vivi-a, simplesmente. Ouço ‘ here comes the sun’ e a seguir ela diz que esta tudo bem. Sim, está tudo bem. 43 anos e um mundo semelhante ao que sempre foi. 
Não derivo para outros mundos, outros gostos. Isso faz de mim uma terrível casmurra, certo? Mas sou feliz ao meu jeito e, no fim de contas, é isso o que importa. 

sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Obrigada por este momento


 Há uns anos, ela tomou uns comprimidos para dormir depois de discutir de forma violenta, na vã esperança que tudo aquilo não passasse de um logro e afinal o seu marido voltasse atrás no seu desamor. Todos ouvimos os gritos e, na escadaria do prédio, houve quem dissesse que ela, coitada, vinha de más famílias, descompensada e que nunca fora uma pessoa forte e capaz de enfrentar as agruras. Enfrentar o desamor é para gente fraca, dizia-se. Pensei muito nisso. Será que a classe social define a forma como reagir perante uma traição ou um amor que se vai? O livro de Valérie Trierweiler, a antiga companheira de François Hollande, ‘obrigada por este momento’, fez-me regressar a esse prédio, recordar os gritos tresloucados da minha vizinha. E fez-me chegar à brilhante conclusão que o amor é igual em todo o lado e o desamor também. As palavras podem sair de uma boca cuidada, a louça pode ser partida por umas mãos perfeitas, mas em tudo, a forma de se reagir, é semelhante. Há contidas, serenas, histéricas, tresloucadas em todas as classes. Eu é que achava que do Eliseu a traição custasse menos a suportar. Engano meu.

De resto, o livro nada vale. É apenas usado para que possamos entrar na intimidade de um casal conhecido e poucos resistem em fazê-lo. Ver de perto se são iguais a nós. Eu não resisti. Shame on me. 


A missa da minha filha

    A minha filha foi, com a escola, assistir a uma missa. Perguntei-lhe:

    - Então filha, gostaste da missa?

    Resposta:

    - Sim, mamã, a missa é uma espécie de ginástica, levantei-me e sentei-me muitas vezes.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Naturalmente que as mulheres não são tão capazes quanto os homens



Li, em inúmeros posts, no Facebook, que ainda bem que o governo Grego não tem mulheres na sua constituição. É sinal que não ligam a essa coisa perniciosa das cotas. Eu concordo. Concordo com a ideia absoluta que ninguém deve ascender a um lugar de destaque só porque nasceu com determinado sexo. Parabéns aos Gregos. No entanto, acho estranho que num universo vasto de um país, não haja uma mulher, apenas uma, umazinha, que não se tenha distinguido numa qualquer área. Estou certa que a ser assim, a biologia explica a coisa. Os cromossomas Y gregos são mais capazes, mais inteligentes, que os X. Relembro que há um seculo era um pouco assim em todo o mundo. As mulheres ainda mal pensavam, mal discerniam, mal raciocinavam. Eram uma cabeça com pernas e mamas e… Entretanto evoluíram. Tenho esperança que a teoria da evolução da espécie feminina também ocorra na Grécia. Até lá, afastem as mulheres dos cargos de governação. 


terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Holocausto

Palavras para quê?

(fotografias do campo de concentração de Terezin, na Republica Checa)





sábado, 24 de janeiro de 2015

Stoner de John Williams


Há histórias que lemos e que nos parecem levar nas asas absurdas da imaginação; levam-nos para sítios inexplorados. Eu gosto dessas viagens, inseridas nas vidas únicas de algumas personagens que vivem nas páginas de um livro. Depois há as histórias banais, de gente banal, mas que estão tão bem escritas, tão bem relatadas, tão perfeitas que, não tendo nada de original, são do melhor que se pode ler. Stoner, o livro de John Williams cabe nesta última categoria. Eu até vos podia contar o raio da história, que nada perdiam na leitura. Porque esta sim, é imprescindível. A história de Stoner já foi contada mil vezes e mil vezes vivida. Um homem, simples e humilde, que corta com o passado licenciando-se e descobrindo que há mais nele do que aquilo que havia nos seus antepassados. Que chega a professor universitário. Que sente o apelo da carne e que casa sem nunca ter feito amor, sexo. E não é feliz. Não faz feliz. E um dia apaixona-se por uma mulher que não a sua. A sociedade não aceita. Uma vida demolhada em ciúmes, mal-entendidos, insensibilidades, silêncios, raiva. Digam lá, quantas vezes já ouviram esta história? Muitas, certamente, mas nenhuma contada/escrita desta forma. Nunca, durante a leitura, nunca, mas mesmo nunca, senti empatia pela personagem. Às vezes senti pena, comiseração, mas nada mais. Ela passa por nós como um rio suave e sem sobressaltos. Começamos e acabamos. E no fim vem a sublime tristeza de já não ter mais paginas, mais palavras pela frente. Há livros que valem pela história, outros pela forma como se escreve. Destes últimos, o mundo editorial está escasso. Por isso, este Stoner vale ouro.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

É suposto



É suposto que goste do bairro alto. Da comida vegetariana. Do sushi. Que medite. Que use Báton vermelho. Que me encante o filme pseudointelectual e que a minha filha seja estimulada até ao tutano com aulas de ballet, musica, de hipismo, de canto e hip hop. É suposto que não fume e que beba q.b. sem excessos vergonhosos. Que a idade não se mostre. Que tenha uma casa com peças do siza vieira e quadros com um risco no meio. Que seja minimalista, de preferência. Que passe férias lá fora ou se forem cá dentro, que vá para a comporta. Que deteste pezinhos de coentrada e que não me ria alto. Demasiado alto. Jamais assuma que ouço a M80, mas que me esparramo numa alternativa Radar sem nunca assumir que me embalo com música foleira. É suposto ter seguro de saúde, empregada doméstica, um cão ou gato ou ambos e, de permeio, um coelho anão. Um bom carro cai sempre bem e a roupa da zara seja mascarada com uma mala de marca e uns sapatos Made In. É suposto não mostrar os cabelos brancos que segundo percebi, não mostram o carácter de quem assume a idade, mas denuda a desleixada. É suposto ter os filhos em bons colégios, em ATL’s espetaculares onde se gasta o que não se tem, mesmo que não se saiba quais os programas educativos da escola ou os resultados. É suposto esconder-se que se vai ao cabeleireiro de bairro. À tasca da esquina a não ser que tenha saído na time Out três vezes. É suposto ter um Iphone, um Ipad, um Ipod e de preferência andar com tudo atrás e mostrar, ou esconder se não for de uma marca da moda. É suposto não se mostrar que se tem dificuldades, que por vezes somos infelizes, que a tristeza também mora aqui. É suposto dizermos a todos os que colocam fotos novas, velhas, bonitas ou feias no Facebook que está lindo/a seguido de rasgados elogios. É suposto dizer-se que já se leu os clássicos, mesmo que ler não seja a nossa praia. É suposto correr, fazer jogging mas com estilo, nunca de roupa feia e deslavada. Faz-se com calças nike misturadas com um t-shirt adidas e umas cuecas fio dental, como se a coisa não incomodasse. É suposto não se viver segundo o que se é, o que se gosta porque no meio de tanta coisa, já ninguém sabe quem verdadeiramente é.