Que raio de dificuldade de derivar para outros mundos para além dos meus! O tempo passa e a minha concha fica cada fez mais dura, mais impenetrável. Ouço Nina Simone. Ouço Nina Simone desde os meus 18 anos, mais ou menos. Descobri-a numa banda sonora de um filme. Em trás os montes, lá na minha aldeia, o acesso à cultura era assim, um tanto ou quanto afunilado. Mas chegava-se se assim tivesse de ser. Ouvi-a e foi como se ela me gritasse que tinha de a ouvir. Foi até hoje. Na altura andava embriagada com a Bethânia, a Maria. Dava-me forte para o sentimento, para a tristeza. Ainda tenho desses dias, assim, melancólicos dos quais desperto com uma energia inesgotável.
Vou fazer 43 anos amanhã. Quando descobri a Nina Simone não fazia planos de forma a chegar a esta idade e ter uma outra vida. Tenho a que tenho. Não tenho a que sonhei. Porque não a sonhei. Vivi-a, simplesmente. Ouço ‘ here comes the sun’ e a seguir ela diz que esta tudo bem. Sim, está tudo bem. 43 anos e um mundo semelhante ao que sempre foi.
Não derivo para outros mundos, outros gostos. Isso faz de mim uma terrível casmurra, certo? Mas sou feliz ao meu jeito e, no fim de contas, é isso o que importa.




