Se há um discurso que me deixa irritada
esse discurso é essa coisa do pensamento positivo. Ai e tal estou com cancro,
vá, pensamento positivo. Ai e tal sinto que vou ser despedida, vá pensamento
positivo; Ai e tal sinto-me triste, infeliz, deprimida, vá, pensamento positivo.
Irrita e irrita-me sobremaneira esta ideia pérfida de tão enganosa de que com
pensamento positivo o cancro amaina, o emprego não desaparece e as depressões curam-se.
Como se de repente, em pleno século XXI, não nos fosse permitido alguma tristeza
e melancolia debaixo da asa ou mesmo revolta por uma doença ou situação que irá
revolucionar a nossa vida. Tinha uma amiga que me dizia ‘aos meus dias
cinzentos não me interessam os raios de sol’, percebo-a. Eu, que sou uma pessoa
positiva e otimista, tenho momentos de acalmia, de cinzentismo, de dor que não
podem nem sinta que exigem, um sorriso na minha boca. Mas hoje, o discurso do
pensamento positivo é vendável, é precioso. Fazem-se formações e workshops
nesta área. O livro ‘o segredo’ que bebia desta terrível ideia de que se tivéssemos
pensamento positivo sobre o que desejamos que tal acontecia, vendeu exemplares
sem fim… a mim apetece-me mandar à merda dar uma volta, quando,
queixando-me das minhas dores, me mandam sorrir e levar a vida de outra forma.
Irrita.
Eu, perante alguém que se
mostra vulnerável seja por uma doença ou uma outra situação, mostro também a
minha vulnerabilidade, mesmo que o máximo que tenha de dizer seja: não sei o
que te diga. Por vezes, não sabemos mesmo. E não temos de saber, apenas sentir
e dar o nosso colo. Apenas.


