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domingo, 22 de março de 2015

Monsanto




Monsanto nasceu assim, colada a uma encosta íngreme, onde por cima do casario umas pedras parecem num equilíbrio preclitante. O tempo está bem conservado, num cuidado que outras aldeias mereciam ter tido antes de se desrespeitarem urbanisticamente com a ajuda dos municípios cegos. Monsanto ali, para os lados de Idanha-a-Nova é simultaneamente pequena e grande. Apetece lá ir, subir, parar e descer. Descortinar o espelho de água que se vê do cimo. Ficar, ficar onde o relógio partiu e sentir todas as horas a passarem, sentir o vento que se faz a partir de meio da subida e desejar que seja só nossa, uma terra só nossa. Pequenina de se meter no coração como quem mete no bolso.

Voltarei.







sexta-feira, 20 de março de 2015

Em Idanha-a-Nova

Estou em Idanha-a-Nova, uma terra maneirinha que me leva até a minha Santa Marta de Penaguião, pequena, quase uma terra que cabe no bolso. Sinto-me sempre em casa em sítios assim, embora seja muito urbana. Sei que serei sempre uma ponte: a mulher que ama a aldeia mas que não consegue viver sem ser numa grande cidade.

Aqui o tempo é lento. Calmo.  Dinâmica quase nem se sente e eu pareço imbuída de um espírito meio lastro.

Acordei mal disposta com a água fria com que fui abençoada no banho, mas depois, a rua abraçou-me tão calmamente que serenei.

quarta-feira, 18 de março de 2015

Maria Capaz

A plataforma Maria Capaz é uma das plataformas que eu mais gosto. Fala de mulheres e eu gosto da temática. Eu gosto do universo feminino. Gosto mesmo quando são eles a falar delas. Gosto.

Escrever nesta plataforma era um desejo que se tornou realidade.

E estou inchada de orgulho. E comecei com um texto sobre a minha filha. Não há maneira melhor de começar, pois não?

Aqui

sexta-feira, 13 de março de 2015

Não se encontra o que se procura

“ Eu quero escrever, escrever, escrever. Quero sentar-me no meu terraço durante o dia e ficar a ver as aves que passam, o vento que corre, o tempo que desliza. (…) eu quero a página em branco para escrever com a minha vida"

 quem escreve assim é Miguel Sousa Tavares, no seu livro ‘Não se encontra o que se procura’.


Eu não gosto do MST comentador. Acho-o demasiado ‘dono da razão’, pouco humilde e há nele qualquer coisa de presunçoso que me afasta automaticamente. Digo-o sempre em voz alta de tal forma que tenho, por teimosia, dificuldade em dizer que gosto do que dele leio. Mas gosto. Por norma gosto. Apenas não o admito muito alto não vá ele ouvir. No entanto, este livro, que não é uma obra-prima, devolve-me o homem. Apaziguei-me com ele. Feito de pequenos textos sobre a sua vida, este livro podia ser um blog ou feito de vários post de Facebook (não, isto não porque o MST não percebe a vida que se vive nas redes sociais e di-lo nunca tendo tido uma pagina. É aqui que reside, muitas vezes, o seu erro: contesta o que não conhece), voltemos, este livro é recheado de momentos, pensamentos de dias que são apenas dele. Fala dos filhos, da mãe, dos seus amores, das suas paixões e gosta-se da personagem. Há textos verdadeiramente deliciosos, outros menos e outros, ainda, que nunca deveriam ter saido seu computador (como o texto inútil sobre a Jéssica Atayde), mas no computo geral, bastante interessante. E depois, bem, depois tem um início belíssimo de onde retirei o trecho com que iniciei este post. Chama-se ‘Escrever’ e explica porque é que ele escreve. 
De certa forma, ele prostra-se e dá-se a quem o lê.   

quinta-feira, 12 de março de 2015

(ainda) o Dia Internacional da Mulher



Foi no Dia da Mulher de 2010 que soube que estava de bebé. Tinha ido fazer análises de manhã, almocei com uma amiga no nepalês e esperava que a clínica onde fizera o tratamento me ligasse a dizer o resultado. Estava no carro, parada, a olhar para o telefone quando ele tocou. Deixei que tocasse quatro vezes e atendi a medo. Do lado de lá o Prof. Pereira Coelho com a boa nova. Desligou com brevidade e numa simpatia que denunciava um percurso longo nestas andanças das boas e más novas. E eu fiquei ali, quieta, sem ligar a ninguém, cerca de vinte minutos. Fechei os olhos e senti a arrepanhar-me por dentro. Aquela sensação gigantesca, brutal, avassaladora a ganhar forma. Aquela certeza que ali já não estava só. 
Estava numa rua movimentada de Lisboa e tudo parou.
 Nada andava nem mexia à minha volta. Apenas eu e o universo a fazermos as pazes e a voltarmos a ser bons amigos, como antes. 
Naquele dia internacional da mulher soube, não sei como, nem sei porquê, que vinha aí uma Maria. 

sexta-feira, 6 de março de 2015

A mudança ( não ) está em nós

A mudança está em nos. A mudança está em nos. Já repeti esta frase como se fosse um mantra: de olhos fechados e com música digna de elevador. A mudança está em nos. E durante uns dias a coisa corre na alma como sangue nas veias. Acho mesmo que é assim. Esta semana fui assistir a uma conferência com uma mulher inspiradora  ( mesmo) que a dada altura disse a frase e eu, que até aí estava num entusiasmo só, tremi. O raio da frase. O raio do significado que nós somos os motores da mudança. Que não mudamos apenas se não quisermos, que está nas nossas mãos. Ir para o el dourado daquilo que potenciamos na cabeça e desenhamos no sonho. Simples. Não tem como enganar. E talvez que eu goste tanto desta frase como aquela do pensamento positivo que há dias postei aqui. Ou seja, não gosto nada. Podemos tentar, lutar, bater às portas, dar um murros na mesa e o caminho, este caminho, até pode ser agradável, mas no fim, minha gente, no fim, podemos depararmo- nos com zero de mudanças. Podem existir, mas também podem não existir e eu sei do que falo. E se fizerem esse caminho, se um dia acordarem cheios de gana de irem lutar pelo que querem, deixem no frigorífico uma garrafa para caso precisarem de afogar as mágoas. A vida também tem interesse assim: com as mágoas afogadas em álcool

terça-feira, 3 de março de 2015

Quando as mulheres são sexistas para com outras mulheres

Siri Hustvedt (que eu adoro a clarividência de pensamento) contou no programa O Valor da Liberdade, que passa na SIC Noticias (palmas para este programa), sobre uma experiencia que ela leu recentemente no New York Times. Contava ela que essa experiência consistiu no seguinte: dois académicos mandaram a mesma carta a 6500 professores universitários dos EUA, homens e mulheres, de universidades prestigiadas de todo o país. Era uma carta de um aluno hipotético a pedir informações acerca de um doutoramento. A única diferença estava nos nomes associados. Uns eram masculinos ou femininos, em diferentes etnias, nomes que soavam hispânicos, a afro-americanos, a asiáticos. Descobriram, pelas respostas, que essas pessoas altamente instruídas, preferiam largamente o nome que soava como branco e masculino. Tratava-se de homens e (pasmem-se) mulheres. Siri conclui que ‘as mulheres também são sexistas, as mulheres também são joguetes do sexismo e racismo mais subtis. É muito desencorajador, claro. A única maneira de mudar isto é torna-lo consciente. E a única maneira de o tornar consciente é mantendo um diálogo cultural constante sobre como vemos os outros’.

Esta é a minha maneira de ajudar a tornar consciente o que ainda se passa em pleno século XXI. 


(quem quiser rever este maravilhoso programa: https://www.youtube.com/watch?v=lPxTWf94boY )