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quinta-feira, 10 de setembro de 2015

O Véu Pintado



Às vezes, questiono-me como demorei tanto tempo a descobri determinado autor. É uma desatenção total. É um desatino que fere, mas quando o descubro sinto, por outro lado, a alegria de ter uma miríade de obras para me inflamar. De certa forma, e por motivos que não descortino, nunca tinha lido anda de Somerset Maugham, estas férias li O Véu Pintado e foi como se estivesse a ver um filme. Ele é de tal forma cinematográfico, que faz acontecer a história a cores na nossa cabeça. É aquela capacidade que uns poucos têm de escrever de forma simples mas escorreita, certeira, capaz, envolvente. E um homem a falar através de uma personagem feminina como só as mulheres sabem ser e pensar, encanta-me.

A história é um murro no estômago. Os amores não correspondidos; os amores desencontrados. As cobardias no amor… a traição e a culpa. Tudo está tão bem misturado que no fim queremos que continue. Queremos saber mais e mais daquelas personagens. E quando um livro acaba, desejamos que continuasse e pode custar metê-lo na prateleira mas é a certeza que valeu cada palavra que se leu (que se engoliu, porque na verdade este livro engole-se).

Ela casou com quem não amava. Ele casou com a mulher que amava. Ela traiu-o com quem não a amava. Ela deixou de se amar…

Sublime.

domingo, 6 de setembro de 2015

dos nossos domingos

Em casa dos meus pais, quando era miúda, sabia que era domingo pelo cheiro que o limão ou a canela ou os bolos no forno impregnavam o ar. Não havia domingos sem doçaria lá por casa. Tenho essa tendência.
Hoje é domingo. tem de haver um doce.
A minha filha gosta de me ajudar. Adora partir os ovos e já o faz com mestria.
Vamos lá então!


terça-feira, 1 de setembro de 2015

A Chuva antes de Cair de Jonathan Coe


Às vezes não é o livro que não é bom, somos nós que, naquele momento da vida não estamos preparados para o absorver como ele merece.

Quando li que Grande Banquete e o Rotters’ Club de Jonathan Coe, embora tenha gostado e me tenha vergado perante um escritor exímio, não fiquei totalmente rendida como com o A Chuva Antes de Cair. Este último sugou-me o tempo, devorou-me a restante vontade de fazer outra coisa que não fosse traga-lo.

Uma história de afeição, de amor, de maternidade, de laços que se deslaçam e de como, de perto, ninguém é normal, como já dizia Caetano Veloso. Mas este livro é mais do que a história em si, é a forma como é contada.

E no fundo, é tolhido por uma normalidade gritante. Podemos estar ali, de uma forma ou outra, num daqueles sentimentos, por vezes contraditórios que as famílias possuem.

É tão bom!

Agora vou reler os dois que tenho em casa em busca da sensação que este escritor me causou. Na altura em que os li, estava a esmo, não era a altura certa.
 
 

domingo, 23 de agosto de 2015

Fiat 600

Há anos que ando atrás de um Fiat 600 para recuperar. Eu, que não ligo a carros, tenho por este uma ternura imensa. É fácil perceber de onde vem esta mania: a minha professora primária, a professora Cândida, tinha um, vermelho, o mesmo tom do batom que usava. Ela chegava naquele carro de meter no bolso e tudo parava.
Ela foi e continua a ser uma grande referência para mim. Referência de uma mulher que viveu para lá do seu tempo, rompendo com dogmas instituídos. No recreio ela ensinava-nos a pintar os olhos e os lábios e, num tempo em que tínhamos de arranjar homem relativamente cedo senão 'ninguém nos pegava' ela  dizia-nos que devíamos ir estudar  para a grande alface, conhecer o mundo para lá da aldeia e namorar muito. E só devíamos casar com homens que nos tratassem bem, muito bem e que ajudassem em casa. Ah, e lá ia dizendo que não havia aquela coisa de 'trabalhos domésticos são coisas de mulheres'. Ela foi a primeira feminista que apanhei pela frente. Fumava e conduzia com um enlevo que eu sonhava um dia imitar. E lá estava, nesse já longínquo passado, aquele carro lindo, que abria as portas de maneira distinta, pequeno, algo cómico e maneirinho.

Por causa dessa imagem, sonho com um Fiat 600 vermelho. E de quando em vez atrevo-me a ir aos sites onde se vende tudo e vejo-os lá, lindos, à minha espera, mas tão caros que fecho logo o site.
Não faz mal, há sonhos que não surgiram para se tornarem realidades Há sonhos que apenas pertencem à terra dos sonhos.
É mesmo assim.

Hospital de Tomar


Se há coisa que desejo antes de ir de férias para longe de casa, é que a minha cria não fique doente. Vivo a uma distância curta do médico dela, do hospital onde me sinto em casa, e longe disto, sinto-me sem chão. Ontem aconteceu o que temia: a minha filha acordou a meio da noite aos gritos com dores. Hospital mais perto - o de Tomar. Sabia que não tinha urgência pediátrica mas o de Torres Novas é bem mais longe e resolvi ver o que me diziam em Tomar e… bem, depois logo se via. Deparei-me com uma equipa, desde a parte administrativa até ao médico, do mais simpático, atencioso, disponível, profissional que encontrei. Céleres, senti-me ser levada ao colo. O médico, um brasileiro com muita piada, foi do mais competente que vi. E eu que sou especialista em hospitais, por onde passei grande parte da minha vida, gosto de dizer a verdade, porque é nestes espaços que a vida e a morte acontecem. São lugares de angústias e alegrias. Lugares que deviam estar acima das crises económicas e de cortes cegos e onde a negligência governamental muitas vezes se faz sentir.

São as pessoas, são sempre as pessoas que fazem a diferença.

sábado, 22 de agosto de 2015

A Titi dela

Não sou nada egoísta do afeto e amor da minha filha. Não tenho aquela característica de algumas mães que têm dificuldade em gerir o amor das crias por outras pessoas. Eu, se a miúda tiver mais e mais terra firme debaixo dos pés, mais gosto.
Gosto de saber que ela tem muitos colos, muitos tipos de gentes e de idades e de personalidades a gostarem verdadeiramente dela. Gosto de saber que não lhe falta apoio nem braços para a acolher.
Um desses braços e colo que mais gosto e que sei como certo, é o da Titi dela. E quando a Titi está por perto quere-a para tudo. E de certa forma a relação delas remete-me para a minha relação com a  minha sobrinha. E eu sei que o meu lugar é apenas meu.
Na vida dela, a titi tem um lugar único e que é apenas dela.
E eu gosto.
E eu aplaudo.
E eu alimento.





Just Kids de Patti Smith


Just Kids (em português Apenas miúdos) de Patti Smith é um daqueles livros que devemos de levar para uma ilha deserta se apenas pudermos levar um livro.

Esta é uma história contada na primeira pessoa pela Patti Smith e relata a sua relação, primeiro de amor e depois de amizade (vamos parar um pouco aqui. Talvez que tenha sido sempre uma história de amor um amor sincero, único que amornou e se transformou numa amizade serena e certa, mas ainda assim, é de amor) pelo fotógrafo Robert Mapplethorpe. Eram uns miúdos quando se conheceram e se apaixonaram, naqueles anos 70’s rebuliços e inquietantes e de onde apenas os sortudos artistas saíram com vida. A minha vontade é a de descrever aqui tudo o que li, mas não quero arredar a cortina desta história que merece ser lida individualmente. Está tão bem escrito. Tão poderoso. Tão cru que é impossível não acabarmos com pena por não haver mais para ler. Muita pena. Talvez esteja interdito aos puritanos, mas duvido que esses venham a este blog.