Fui à sportzone comprar uns ténis
para correr. Olhei para uns cinza e rosa da asics que gostei. Experimentei o número
41,5. Apertado. Perguntei se tinham o 42. Não, não tinham. 42 só em modelos de
homem. Como assim, só modelos de homem? Ah, a partir de 41,5 é difícil modelos
de senhora. Olhei à minha volta em busca da Fernanda Câncio. Olhei e nada. Queria
tê-la ali para me ajudar. Com ela como cabecilha da revolução, sei que não
haveria mais ténis de menina e de menino. Haveria sapatinhas rosa até aos 52. Por
momentos vi a asics a pedir desculpas seguida pela sportzone e todas as marcas
que insistem em achar que há coisas de meninas e meninos. Optei por comprar um
modelo masculino. Estou arrasada. Não sei bem o que isso poderá fazer à minha
condição de heterossexual. Vou estar atenta a todas as mudanças comportamentais
que irei sofrer sempre que enfiar os ténis nos pés. Talvez venha a sofrer um
género de metamorfose digna de Kafka. Não sei… irei dar notícias. Só não sei se
será como Carla ou uma Carla reprimida.
Se pudesse, se tivesse o mínimo poder sobre o tempo, tinha-o parado e ainda agora estaria lá, a falar de livros e de personagens. Mas não tenho, resta-me descalçar e entrar na memória de quando em vez e reviver o que já lá vai.






