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terça-feira, 5 de abril de 2016

os meus cabelos brancos

A malta vai tendo coragem para, aqui e ali, dizer-me para pintar o cabelo. Que não devia deixar estes brancos assim, loucos, à solta. Mas desisti de explicar que gosto deles. Que me alimento de um certo despudor. Já o pintei. Não me revi. Não era eu quem o espelho refletia. Sim, parecia mais nova. Mas eu não sou mais nova. Não sou mais velha. Sou o que sou. Tenho a idade que tenho e o cabelo com que nasci. Ele é assim. Começou a branquear há dois anos. Até lhe acho alguma piada. Viver é, sempre será, a nossa vitória diária sobre o tempo. E se os cabelos brancos não me incomodam, porque há de incomodar a outrem? Sinto-me (ainda) demasiado jovem para ser velha. E não são os cabelos brancos que mudam isso.

quinta-feira, 31 de março de 2016

Annie Leibovitz - photographer's life


Nos meus anos oferecerem-me um livro que ainda me custa falar dele. Annie Leibovitz a photographer's life  é um livro da fotografa Annie Leibovitz onde constam as fotografias que ela tirou ao longo da sua vida. Uma intimidade exposta quando é reconhecida a timidez dos fotógrafos frente à objetiva. Ela nem aparece muito, tirando uma fotografia em que está na casa de banho nua e vê-se o seu olhar, o seu peito descaído e aquela liberdade de quem não se assusta com aquilo que mostra. Mas ela está nos rostos que a olham: seja na Susan Sontag, a sua companheira, ou no rosto dos pais. O livro é mágico e doloroso. Há ali a vida mas também a morte. A morte e a velhice do pai. A doença e morte de Susan. Um despojamento da relação, dos afetos de ambas… E choro sempre que o abro. É tão belo! Depois há as outras fotos, de gente reconhecida, mas essas não me interessam.

E penso sempre na fotografia que vi há muitos anos numa parede de um gabinete de um advogado, que mais não era que uma janela aberta e onde eu jurara sentir a brisa a entrar.


Há fotografias que não são mais do que uma longa e bela história contada num único instante. 






quarta-feira, 30 de março de 2016

Anna Westerlund


Às vezes paro no site da Anna Westerlund e fico a ver as peças como quem olha por uma janela para uma vasta paisagem que morre no mar. Sinto o vento sobre as flores selvagens e o cheiro da urze. E olho, quase com o nariz encostado ao ecrã, tentando sentir a cerâmica e o cheiro da tinta. E quando fecho os olhos, juro sentir. 







terça-feira, 29 de março de 2016

romantismo parvo



Um homem desviou um avião só (?) porque queria falar com a ex-mulher e entregar-lhe uma carta. O MNE do Egipto diz que ele não é um terrorista (de facto não é) mas um idiota (uma característica não invalida a outra). Entre os comentários de amigas minhas veio um ‘ah, é um romântico!’. Efetivamente, aquilo que me ocorreu é, ironicamente, nem perceber porque é que a mulher fugiu dele. Parece ser contido. Normal. Ponderado. Veio-me à memória um ex-namorado que tive há mil anos. A coisa estava pegada. Amor para cima de uma tonelada. Um dia esqueci-me do telemóvel na mala que estava na bagageira do carro e por isso quando ele tocou, não parei o carro para atender. Ia do trabalho a caminho de casa e quando chegasse a casa logo via quem era. O telefone tocou uma e outra e outra vez. Tantas que encostei para ver quem era com a sensação de que só podia ter acontecido algo grave. Era só o meu ex, na altura ainda namorado, a questionar-me porque não tinha atendido à primeira vez. Que tinha saudades minhas. Perguntei-lhe duas vezes o motivo de 11 chamadas num espaço de 15 minutos. Saudades, respondeu. Acabou ali a relação. 

sábado, 26 de março de 2016

Da minha páscoa

Uma Páscoa na companhia de Rubem Fonseca, muita cozinha entre folares e cabritos e confidências, casa quente, miúdos a mudar tudo do sítio, tirar o pijama- tomar banho - voltar a vestir o pijama, sonos a horas impensáveis, filmes revistados mil vezes no passado, aproveitar a família e os cheiros com que cresci. É como regressar ao berço. À infância. Ao início de tudo. 

sexta-feira, 25 de março de 2016

Sedução

O frio impediu-me de sair da casa de banho quente para ir buscar o meu desodorizante, usei o do meu pai. Em letras garrafais li "for men". Talvez isso explique as mulheres que olham para mim no centro comercial de vila real. 

segunda-feira, 21 de março de 2016

sedentarismo


A dada altura do meu domingo, quando meti o nariz no Facebook, quase, quase que me senti mal. Todos correm. São as maratonas. A meia maratona. A mini. A maratona de Barcelona. A de nova Iorque. A de Lisboa. Os trail. As corridas noturnas. Diurnas. No paredão. No Jamor. No guincho. Todos têm a aplicação da Nike que mostra o que fizeram e a que tempo. E os ténis novos. No meu tempo metia-se uma t-shirt oferecida aquando da abertura de conta na Caixa de Credito Agrícola e umas calças quaisquer e lá se ia, estrada fora. Agora nem pensar. Aquilo deve ser desde os tops de último grito, as calças ou calções da adidas, ou Nike ou algo equivalente.

Há um mundo lá fora e eu no sofá a engolir um livro de Rubem Fonseca. Ainda pensei em levantar-me e fazer alguma coisa que me obrigasse a mexer. Mas o Mandrake (a maravilhosa personagem de A Grande Arte) não permite que o largue. É dele a culpa do meu sedentarismo.