Às vezes a minha mente, sem que
nada faça prever, desperta para uma imagem que me obceca. Agora, por exemplo, o
sol entra no gabinete e eu imagino que o mesmo sol esteja a bater na minha
varanda e surge-me a ideia de ir a correr para lá, para um copo de vinho branco
fresco e presunto espanhol. E desligar do mundo. Era isso o que agora queria.
Mais do que tudo. Às vezes a minha vida resume-se a um copo de vinho e
presunto. Não é triste nem redutor. É, de certa forma, a maneira que arranjo de
não desistir, ainda, de um dia sonhar com algo mais.
quinta-feira, 7 de abril de 2016
terça-feira, 5 de abril de 2016
os meus cabelos brancos
A malta vai tendo coragem para,
aqui e ali, dizer-me para pintar o cabelo. Que não devia deixar estes brancos
assim, loucos, à solta. Mas desisti de explicar que gosto deles. Que me
alimento de um certo despudor. Já o pintei. Não me revi. Não era eu quem o espelho
refletia. Sim, parecia mais nova. Mas eu não sou mais nova. Não sou mais velha.
Sou o que sou. Tenho a idade que tenho e o cabelo com que nasci. Ele é assim.
Começou a branquear há dois anos. Até lhe acho alguma piada. Viver é, sempre
será, a nossa vitória diária sobre o tempo. E se os cabelos brancos não me
incomodam, porque há de incomodar a outrem? Sinto-me (ainda) demasiado jovem
para ser velha. E não são os cabelos brancos que mudam isso.
quinta-feira, 31 de março de 2016
Annie Leibovitz - photographer's life
Nos meus anos oferecerem-me um
livro que ainda me custa falar dele. Annie Leibovitz a photographer's life é um livro da fotografa Annie Leibovitz onde constam
as fotografias que ela tirou ao longo da sua vida. Uma intimidade exposta
quando é reconhecida a timidez dos fotógrafos frente à objetiva. Ela nem
aparece muito, tirando uma fotografia em que está na casa de banho nua e vê-se
o seu olhar, o seu peito descaído e aquela liberdade de quem não se assusta com
aquilo que mostra. Mas ela está nos rostos que a olham: seja na Susan Sontag, a
sua companheira, ou no rosto dos pais. O livro é mágico e doloroso. Há ali a
vida mas também a morte. A morte e a velhice do pai. A doença e morte de Susan.
Um despojamento da relação, dos afetos de ambas… E choro sempre que o abro. É
tão belo! Depois há as outras fotos, de gente reconhecida, mas essas não me
interessam.
E penso sempre na fotografia
que vi há muitos anos numa parede de um gabinete de um advogado, que mais não
era que uma janela aberta e onde eu jurara sentir a brisa a entrar.
Há fotografias que não são mais
do que uma longa e bela história contada num único instante.
quarta-feira, 30 de março de 2016
Anna Westerlund
Às vezes paro no site da Anna Westerlund
e fico a ver as peças como quem olha por uma janela para uma vasta paisagem que
morre no mar. Sinto o vento sobre as flores selvagens e o cheiro da urze. E
olho, quase com o nariz encostado ao ecrã, tentando sentir a cerâmica e o cheiro
da tinta. E quando fecho os olhos, juro sentir.
terça-feira, 29 de março de 2016
romantismo parvo
Um homem desviou um avião só
(?) porque queria falar com a ex-mulher e entregar-lhe uma carta. O MNE do
Egipto diz que ele não é um terrorista (de facto não é) mas um idiota (uma característica
não invalida a outra). Entre os comentários de amigas minhas veio um ‘ah, é um
romântico!’. Efetivamente, aquilo que me ocorreu é, ironicamente, nem perceber
porque é que a mulher fugiu dele. Parece ser contido. Normal. Ponderado. Veio-me
à memória um ex-namorado que tive há mil anos. A coisa estava pegada. Amor para
cima de uma tonelada. Um dia esqueci-me do telemóvel na mala que estava na
bagageira do carro e por isso quando ele tocou, não parei o carro para atender.
Ia do trabalho a caminho de casa e quando chegasse a casa logo via quem era. O
telefone tocou uma e outra e outra vez. Tantas que encostei para ver quem era
com a sensação de que só podia ter acontecido algo grave. Era só o meu ex, na
altura ainda namorado, a questionar-me porque não tinha atendido à primeira vez.
Que tinha saudades minhas. Perguntei-lhe duas vezes o motivo de 11 chamadas num
espaço de 15 minutos. Saudades, respondeu. Acabou ali a relação.
sábado, 26 de março de 2016
Da minha páscoa
Uma Páscoa na companhia de Rubem Fonseca, muita cozinha entre folares e cabritos e confidências, casa quente, miúdos a mudar tudo do sítio, tirar o pijama- tomar banho - voltar a vestir o pijama, sonos a horas impensáveis, filmes revistados mil vezes no passado, aproveitar a família e os cheiros com que cresci. É como regressar ao berço. À infância. Ao início de tudo.
sexta-feira, 25 de março de 2016
Sedução
O frio impediu-me de sair da casa de banho quente para ir buscar o meu desodorizante, usei o do meu pai. Em letras garrafais li "for men". Talvez isso explique as mulheres que olham para mim no centro comercial de vila real.
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