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domingo, 10 de abril de 2016

O mundo de outrora

Tenho um certo fascínio por louças de outrora. Isso justifica ter copos desirmanados, pratos sem par, jarras sem copos... Também tenho fascínio por livros de alfarrabista. Quando era uma estudante a contar os trocos no bolso ( agora só mudou a parte da função, o estado dos bolsos mantém-se) adquiri o gosto de comprar livros que tinham duas histórias: a que contavam e a que já viveram. Um dia comprei um livro de stefan zweig que tinha uma dedicatória. Numa letra antiga e cuidada, ela não lhe falava do seu amor mas desamor. E eu voei tanto com a dedicatória como com o livro. Voltando aos copos, hoje comprei jarras e copos da Secla. A senhora a quem comprei contou-me do pai, taberneiro e da mãe cozinheira de petiscos. Estas peças só podiam vir parar a minha casa. 



sexta-feira, 8 de abril de 2016

quando a boa escrita é de graça.


Não há dia que não visite este blogue Ana de Amsterdam, e hoje deixo-vos um texto maravilhosa da sua autora:


Enfado
Já o expliquei: escrevo aqui muita mentira, criei uma personagem que, a muitos, causa nojo, a outros bacoca admiração; minto, exagero, invento. Vem a conversa a propósito dos homens que me escrevem a propor casório, a confessar paixões, a pedir encontros e das mulheres que, supondo-me com um pé lá e outro cá, me propõem o maravilhoso mundo do lesbianismo. Às queridas leitoras agradeço a sugestão, mas atrai-me o género fraco, é uma vergonha, bem sei, mas faz-me falta o penduricalho que os homens têm entre as pernas, é um pedaço extraordinário de carne, um músculo magnífico, não há vibrador ou dildo que se lhe compare.

Aos homens agradeço a disponibilidade. Não quero, porém, enganar ninguém e por isso esclareço: não tenho a graça da mestiçagem, nem o oriental encanto das fêmeas submissas, não cheiro a canela, nem a cravinho, depois de quatro gravidezes, o meu corpo ficou de monco caído, ancas largas, celulite, estrias, peitos moles, a última depressão deixou-me praticamente careca; ou seja, não sendo uma estampa, faço o que toda a gente faz no mundo virtual, pinto-me de outra mulher a ver se pinga alguma coisa. Mas, o corpo é o menos, pior o resto: sou fraca de espírito, de uma banalidade miserável, não tenho opiniões, nem rasgos, sentido de humor ou vontade. Tenho o dom do silêncio e da fuga e já não é nada mau. A minha banalidade, tamanha, levou aliás a algumas rejeições traumáticas que partilho para que não duvidem do que conto.

Já fui rejeitada por um septuagenário acamado e algaliado, velho brilhante, meio poeta, dândi, lia-me com devoção, andou durante meses a cortejar-me, falava do Luiz Pacheco, do Alberto Pimenta, do Manuel da Silva Ramos, não lhe resisti. Pois o estafermo do velho, no dia em que o visitei num apartamento na Passos Manuel, com um açafate de frutas exóticas para lhe oferecer, depois de meia hora de conversa, não escondeu a desilusão, sentia-se ofendido, enganado, rejeitou-me, truculento, explicou que dispensava futuras visitas, de resto, a brasileira, de rosto carunchoso, que lhe vinha dar banho uma vez por semana parecia-lhe companhia mais interessante, chegava-lhe bem, sabia várias modinhas nordestinas e tinha, além do mais, mãos maravilhosas para ensaboar e esfregar. Fiquei mortificada, branquinha como a cal, imaginava que para um quase morto a quase juventude de uma balzaquiana era irrecusável. Pedi desculpa, deixei o açafate de fruta em cima de uma cómoda de pau-preto e sai dali, lacrimante. Curada da humilhação do velho, procurei consolo num anão que começou a escrever-me no outono. Homenzinho vivaz, escrevia com desassombro. Disse-me logo que era anão, brincava com a sua pequenez e não se cansava de gabar o tamanho do seu instrumento erecto. Aquilo despertou-me a curiosidade. Marcámos um encontro. Após alguns almoços num restaurante perto do Poço do Borratém, o pobre não aguentou mais as minhas conversas. Tentando esconder o enfado, era um anão educadíssimo, explicou que se despedia de vez, tivera uma proposta de emprego no estrangeiro, embarcava no dia seguinte para a Argentina onde os anões eram muito apreciados na indústria pornográfica. À despedida, não subiu, como era costume, a uma cadeira para que o beijasse, tive de me agachar para lhe dar um casto beijinho na testa. Fiquei a vê-lo, tortinho como um caranguejo, mancando, o peso do magnífico pénis puxando-lhe o corpo para o lado direito.

quinta-feira, 7 de abril de 2016

Cada país tem o Trump (trampa) que merece


aquilo de que gosto

Às vezes a minha mente, sem que nada faça prever, desperta para uma imagem que me obceca. Agora, por exemplo, o sol entra no gabinete e eu imagino que o mesmo sol esteja a bater na minha varanda e surge-me a ideia de ir a correr para lá, para um copo de vinho branco fresco e presunto espanhol. E desligar do mundo. Era isso o que agora queria. Mais do que tudo. Às vezes a minha vida resume-se a um copo de vinho e presunto. Não é triste nem redutor. É, de certa forma, a maneira que arranjo de não desistir, ainda, de um dia sonhar com algo mais. 

terça-feira, 5 de abril de 2016

os meus cabelos brancos

A malta vai tendo coragem para, aqui e ali, dizer-me para pintar o cabelo. Que não devia deixar estes brancos assim, loucos, à solta. Mas desisti de explicar que gosto deles. Que me alimento de um certo despudor. Já o pintei. Não me revi. Não era eu quem o espelho refletia. Sim, parecia mais nova. Mas eu não sou mais nova. Não sou mais velha. Sou o que sou. Tenho a idade que tenho e o cabelo com que nasci. Ele é assim. Começou a branquear há dois anos. Até lhe acho alguma piada. Viver é, sempre será, a nossa vitória diária sobre o tempo. E se os cabelos brancos não me incomodam, porque há de incomodar a outrem? Sinto-me (ainda) demasiado jovem para ser velha. E não são os cabelos brancos que mudam isso.

quinta-feira, 31 de março de 2016

Annie Leibovitz - photographer's life


Nos meus anos oferecerem-me um livro que ainda me custa falar dele. Annie Leibovitz a photographer's life  é um livro da fotografa Annie Leibovitz onde constam as fotografias que ela tirou ao longo da sua vida. Uma intimidade exposta quando é reconhecida a timidez dos fotógrafos frente à objetiva. Ela nem aparece muito, tirando uma fotografia em que está na casa de banho nua e vê-se o seu olhar, o seu peito descaído e aquela liberdade de quem não se assusta com aquilo que mostra. Mas ela está nos rostos que a olham: seja na Susan Sontag, a sua companheira, ou no rosto dos pais. O livro é mágico e doloroso. Há ali a vida mas também a morte. A morte e a velhice do pai. A doença e morte de Susan. Um despojamento da relação, dos afetos de ambas… E choro sempre que o abro. É tão belo! Depois há as outras fotos, de gente reconhecida, mas essas não me interessam.

E penso sempre na fotografia que vi há muitos anos numa parede de um gabinete de um advogado, que mais não era que uma janela aberta e onde eu jurara sentir a brisa a entrar.


Há fotografias que não são mais do que uma longa e bela história contada num único instante. 






quarta-feira, 30 de março de 2016

Anna Westerlund


Às vezes paro no site da Anna Westerlund e fico a ver as peças como quem olha por uma janela para uma vasta paisagem que morre no mar. Sinto o vento sobre as flores selvagens e o cheiro da urze. E olho, quase com o nariz encostado ao ecrã, tentando sentir a cerâmica e o cheiro da tinta. E quando fecho os olhos, juro sentir.