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quarta-feira, 27 de abril de 2016

Da nossa medicina

Fui às urgências. Dei com um médico que precisava de um workshop intenso sobre empatia. Pensei que em Portugal deviam fazer como em Israel onde os alunos de medicina são obrigados a passar hora e meia por semana com idosos a ouvirem as suas queixas, as suas dúvidas, de forma a terem uma medicina mais humanizada. Nunca entendi porque se há de ser antipático se se pode fazer o mesmo com um certo grau de simpatia. Não entendo mesmo.

segunda-feira, 18 de abril de 2016

Jarros



Saltei o portão. Deslizei encostada ao muro. Apalpei os degraus e roubei estes jarros. Isto não se faz. Não há desculpas. Foi um ato feio. Mas são tão belos! Havia tantos em casa dos meus pais. De repente, senti que a minha mãe tinha entrado na minha casa e tinha desembrulhado um pouco da minha infância.



terça-feira, 12 de abril de 2016

E se a tua avó quisesse vestir umas cuecas fio dental?


O homem na casa dos 60 anos estava ao lado da sua mulher que teria igual idade. Ele via uma revista com mulheres em lingerie. Não conseguia esconder um certo sorriso que denunciava um ânimo interior. Olhei de soslaio para a revista. Vi miúdas giras em poses ousadas. Pensei no mercado da roupa interior e de como ele está virado para as mulheres jovens, como se a partir de certa idade só usássemos cuecas de gola alta e soutiens sem qualquer tipo de sensualidade. Ocorreu-me a coragem da marca brasileira, Valisère que convidou a cinquentona Consuelo Blocker para ser o corpo e rosta das suas peças. E que bem que ficou. Parece que é tempo de as marcas perceberem que, se calhar, a capacidade financeira é maior numa mulher de 50 que numa de 20 e que as mulheres de cinquenta também gostam de roupa sensual. ‘Ah!, mas alguma vez viste uma avozinha de fio dental’, estarão a perguntar. Pois, informo que sim, mas teve de o roubar à neta para não parecer mal quando pensou em adquiri-lo.

Vamos lá abrir as cabeças, ok?!




domingo, 10 de abril de 2016

O mundo de outrora

Tenho um certo fascínio por louças de outrora. Isso justifica ter copos desirmanados, pratos sem par, jarras sem copos... Também tenho fascínio por livros de alfarrabista. Quando era uma estudante a contar os trocos no bolso ( agora só mudou a parte da função, o estado dos bolsos mantém-se) adquiri o gosto de comprar livros que tinham duas histórias: a que contavam e a que já viveram. Um dia comprei um livro de stefan zweig que tinha uma dedicatória. Numa letra antiga e cuidada, ela não lhe falava do seu amor mas desamor. E eu voei tanto com a dedicatória como com o livro. Voltando aos copos, hoje comprei jarras e copos da Secla. A senhora a quem comprei contou-me do pai, taberneiro e da mãe cozinheira de petiscos. Estas peças só podiam vir parar a minha casa. 



sexta-feira, 8 de abril de 2016

quando a boa escrita é de graça.


Não há dia que não visite este blogue Ana de Amsterdam, e hoje deixo-vos um texto maravilhosa da sua autora:


Enfado
Já o expliquei: escrevo aqui muita mentira, criei uma personagem que, a muitos, causa nojo, a outros bacoca admiração; minto, exagero, invento. Vem a conversa a propósito dos homens que me escrevem a propor casório, a confessar paixões, a pedir encontros e das mulheres que, supondo-me com um pé lá e outro cá, me propõem o maravilhoso mundo do lesbianismo. Às queridas leitoras agradeço a sugestão, mas atrai-me o género fraco, é uma vergonha, bem sei, mas faz-me falta o penduricalho que os homens têm entre as pernas, é um pedaço extraordinário de carne, um músculo magnífico, não há vibrador ou dildo que se lhe compare.

Aos homens agradeço a disponibilidade. Não quero, porém, enganar ninguém e por isso esclareço: não tenho a graça da mestiçagem, nem o oriental encanto das fêmeas submissas, não cheiro a canela, nem a cravinho, depois de quatro gravidezes, o meu corpo ficou de monco caído, ancas largas, celulite, estrias, peitos moles, a última depressão deixou-me praticamente careca; ou seja, não sendo uma estampa, faço o que toda a gente faz no mundo virtual, pinto-me de outra mulher a ver se pinga alguma coisa. Mas, o corpo é o menos, pior o resto: sou fraca de espírito, de uma banalidade miserável, não tenho opiniões, nem rasgos, sentido de humor ou vontade. Tenho o dom do silêncio e da fuga e já não é nada mau. A minha banalidade, tamanha, levou aliás a algumas rejeições traumáticas que partilho para que não duvidem do que conto.

Já fui rejeitada por um septuagenário acamado e algaliado, velho brilhante, meio poeta, dândi, lia-me com devoção, andou durante meses a cortejar-me, falava do Luiz Pacheco, do Alberto Pimenta, do Manuel da Silva Ramos, não lhe resisti. Pois o estafermo do velho, no dia em que o visitei num apartamento na Passos Manuel, com um açafate de frutas exóticas para lhe oferecer, depois de meia hora de conversa, não escondeu a desilusão, sentia-se ofendido, enganado, rejeitou-me, truculento, explicou que dispensava futuras visitas, de resto, a brasileira, de rosto carunchoso, que lhe vinha dar banho uma vez por semana parecia-lhe companhia mais interessante, chegava-lhe bem, sabia várias modinhas nordestinas e tinha, além do mais, mãos maravilhosas para ensaboar e esfregar. Fiquei mortificada, branquinha como a cal, imaginava que para um quase morto a quase juventude de uma balzaquiana era irrecusável. Pedi desculpa, deixei o açafate de fruta em cima de uma cómoda de pau-preto e sai dali, lacrimante. Curada da humilhação do velho, procurei consolo num anão que começou a escrever-me no outono. Homenzinho vivaz, escrevia com desassombro. Disse-me logo que era anão, brincava com a sua pequenez e não se cansava de gabar o tamanho do seu instrumento erecto. Aquilo despertou-me a curiosidade. Marcámos um encontro. Após alguns almoços num restaurante perto do Poço do Borratém, o pobre não aguentou mais as minhas conversas. Tentando esconder o enfado, era um anão educadíssimo, explicou que se despedia de vez, tivera uma proposta de emprego no estrangeiro, embarcava no dia seguinte para a Argentina onde os anões eram muito apreciados na indústria pornográfica. À despedida, não subiu, como era costume, a uma cadeira para que o beijasse, tive de me agachar para lhe dar um casto beijinho na testa. Fiquei a vê-lo, tortinho como um caranguejo, mancando, o peso do magnífico pénis puxando-lhe o corpo para o lado direito.

quinta-feira, 7 de abril de 2016

Cada país tem o Trump (trampa) que merece


aquilo de que gosto

Às vezes a minha mente, sem que nada faça prever, desperta para uma imagem que me obceca. Agora, por exemplo, o sol entra no gabinete e eu imagino que o mesmo sol esteja a bater na minha varanda e surge-me a ideia de ir a correr para lá, para um copo de vinho branco fresco e presunto espanhol. E desligar do mundo. Era isso o que agora queria. Mais do que tudo. Às vezes a minha vida resume-se a um copo de vinho e presunto. Não é triste nem redutor. É, de certa forma, a maneira que arranjo de não desistir, ainda, de um dia sonhar com algo mais.