Em frente a casa dos meus pais há uma rua e durante a minha infância vi miúdos e graúdos a chutarem na bola, entre risos e desaforos. No fim, tudo ficava bem e não havia derrota que não passasse com uma fatia de bolo caseiro. Nunca me me atingiu a vontade de entrar no jogo, ficava de lado a gritar por quem me levava o coração. Acredito que, como eu, muitos de vós cresceram com a proximidade ao futebol. A bola não nos é estranha. Os objetos. As balizas. a linguagem. A terminologia. As fintas e os penaltis. Lembrei-me disto a propósito de hoje. Que ganhe Portugal mas acima de tudo que cá dentro sinta a leveza de, independentemente do resultado, continuar a sorrir e a encantar-me com tudo o que me rodeia. Como acontecia na rua dos meus pais, no futebol a feijões.
Entrei na Padaria Portuguesa e
sou atendida com um sorriso constante. A música popular portuguesa buzina aos
ouvidos. Há boa disposição no ar. Parece-me que tem tudo para correr bem até
que entra uma alminha mal disposta que critica a música, o café, a disposição
dos bolos. Eu sorrio. Ele olha para mim e pergunta-me se me estou a rir dele.
Respondo que não, que me rio da minha vida porque a dele, pelos vistos, só da
para chorar. E sigo para a minha mesa a pensar que a malta anda tipo panela de
pressão. Numa tristeza sem fim e que se instalou na pele. Sigo a ouvir as
varinas do Tejo (música) e ainda o ouço: se as varinas fossem para um sítio que
eu cá sei!

