Páginas

sexta-feira, 29 de julho de 2016

dos amores paternais


 

Estava no supermercado na zona dos iogurtes e ouvi o senhor, idoso, um pouco surdo (talvez isso justificasse ter o som tão alto) dizer para o telemóvel:

- Mas filho, vens mesmo? É que da outra vez disseste que vinhas e não apareceste.

 E ouvi:

 - Vou pai, vou.

 E o senhor continuou:

- Eu sei que o teu prato não fica tão bem como a tua mãe fazia, mas...

- Pai, já disse que vou. Para de insistir.

- Está bem, filho, vou comprar os ingredientes e esperar que apareças.

 

Não sei o antes. Não conheço o senhor. Não conheço o filho. Apenas me comoveu aquele homem, que tremia e andava com dificuldade a tentar convencer o filho a ir jantar o prato que um dia, a mulher e mãe, fez com preceito. Nem sei por que motivo este diálogo mexeu comigo. Não sei... Relembro o dia longínquo, em que a minha mãe se encontrava internada com gravidade e o meu pai, sem o mínimo saber e jeito para a cozinha, fez uma massa com carne. Quando me sentei à mesa a massa era aletria. Comi até ao fim, comovida com aquele jeito que ele tem, meio frio e distante de ser, em me agradar, em me dar um certo colo, em transformar a ausência da minha mãe em algo mais suportável.

quarta-feira, 27 de julho de 2016

Os filhos dos amigos

Enquanto cantava para o meu querido Vicente, relembrava quando a minha filha era assim, mínima, e as suas mãos cabiam nas minhas, e o meu colo era mais do que suficiente para a suster. Ainda hoje a embalo, lhe dou colo, mas a cada dia que passa, ela já sobra. Nas minhas mãos so cabe uma mão, no colo só cabe encolhida. Cresce assim, enquanto pestanejo. Tinha o meu Vicente ao colo e pensei nos filhos que um dia sonhei ter e que dos sonhos de múltiplos desembocaram apenas num. Mas é um filho (filha)milagre. Desmesurado. Gigante. E enquanto a minha filha me ensina diariamente a amar sem limites, a focar no que realmente é importante; os filhos dos meus amigos ensinam-me que não precisam de sair de mim para os amar assim, tanto!

segunda-feira, 25 de julho de 2016

as redes sociais...

Mantenho parte da minha sanidade mental dando pouca importância ao que pelo facebook se vai passando. Isto dos amores e desamores pelas causas são passageiros e, como tal, não me indigno com absolutamente nada do que por aqui se vai dizendo. Até porque a minha vida é fora do computador. Como tal, quando vi esta imagem, sorri, pensei o quanto ela é profundamente errada e segui. Mas depois algo me fez voltar atrás. é que eu serei mais a senhora da direita do que a da esquerda. Não sei da dimensão cultural de uma ou outra, mas não é saúde que aqui está espelhada, nem sequer níveis intelectuais, sentido de humor, senso de pertença à sociedade ou preocupação ambiental e social... apenas espelhará uma forma de estar. Para rematar, a minha mãe é mais a da direita e ela dá um bailinho sobre a vida a muitas da esquerda.

 Parece-me fundamental não confundirmos abdominais com saúde, seja ela física ou mental.


domingo, 24 de julho de 2016

Acordar lentamente

A cozinha relaxa-me. Às vezes também me irrita. Mas quando combino algo, quando saio do registo de sobrevivência diária, gosto muito de me perder nos tachos.
Hoje tinha um pequeno-almoço reforçado combinado. Dão o nome de brunch mas a verdade é que toda a vida foi para mim um pequeno-almoço de fim de semana, quando se acorda tarde e de forma lenta. Quando quase nos recusamos a sentir o tempo passar. E vai-se coexistindo entre as lides domésticas, os livros e filmes. 
Hoje tinha combinado um pequeno almoço. Soube tão bem! 

sábado, 23 de julho de 2016

Nouvelle vague

Aqui estou a ouvir nouvelle vague e a pensar que o raio da miúda de vermelho em cima do palco é daquelas que o meu tio Alberto apelida de 'mulheres que estilhaçam um gajo só com as pernas'. 


A importância da música triste

Aqui estou no melhor festival dos tempos que correm e acabo de ouvir falar da importância suprema das musicas tristes: é que sem elas as musicas felizes perdiam importância. 

#edpcooljazz 

domingo, 10 de julho de 2016

ele morreu




Ele morreu. Ele tinha a mesma idade do meu pai e eram amigos. E primos. Ele morreu e a sua morte apanhou-me a meter um polvo ao forno, apanhou o meu pai a subir o Marão e o meu irmão numa feira de vinhos. Meu pai ligou-me. Imaginei-o parado com uma vista soberba e a dizer aquilo que é mais concreto: quando foi, a que horas é o funeral, e se eu devia de ir ou não. Perguntei-lhe varias vezes como estava. Disse que estava bem. Sei que com a morte dele o meu pai teve de se deparar com a sua própria morte. E eu com a morte do meu pai. Desligou. Liguei ao meu irmão. Entre nós é mais fácil falarmos de sentimentos… às vezes. No fim fui à varanda e chorei. Chorei sem que a minha filha visse. Meu pai continuou a subida até ao Marão; eu continuei a fazer o jantar e o meu irmão na feira. Não sei se no continuar da vida está a nossa força ou a nossa fraqueza. Não sei…