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sexta-feira, 4 de novembro de 2016

Jantares

Quando vivia com os meus pais, ha uns trinta anos, o jantar era, invariavelmente peixe cozido. Coisa que me irritava e irritava ainda mais o meu Irmao. Mas ficou daí o gosto por jantares ligeiros quando o pijama já se encontra no lombo, o corpo pede o sofá e a cabeça uma série de preferência Homeland. Se envelhecer for isto, confesso que até gosto.



quarta-feira, 2 de novembro de 2016

seis anos, meu amor


Algures durante o tratamento para te ter, filha, o Prof. Pereira Coelho disse que tinha 12% de hipóteses de engravidar. Doze por cento em cem. Olhei-o nos olhos e disse: Bem, se assim é, então esses 12% tem de chegar.

Soube no dia da mulher de 2010 que estava grávida e senti que seria de uma menina. Depois foram 8 meses a fazer a história da Cinderela ao contrário: fui-me transformando, lentamente, em abóbora. Mas era uma abóbora feliz e, curiosamente, contra a minha forma de ser, uma abóbora serena. Esperava-te. Intuía-te. Desejava-te. Quando te tive, a anestesia geral não me permitiu ver-te, sentir-te, ser a primeira a pegar em ti e fazer aquilo que vejo nos filmes, tu em cima de mim, ainda suja e eu chorosa, cansada do parto… nada disso. Dormia e quando acordei, já não estavas ao pé de mim. Quando meia chorosa disse ao Fernando que queria ver-te, ele foi buscar-te e, filha, como te posso explicar?, tu eras assim minúscula, um ser mínimo que senti ser maior que o universo. Encostei-me em ti e prometi que em breve, muito em breve, ninguém nos separaria. Prometi que ia tentar ser melhor pessoa. E que ia tentar ser a melhor mãe possível. E tento. Tento diariamente descortinar esta coisa da maternidade que nem sempre é linear. E sei que nem sempre estou à altura. Ou porque estou cansada e tu me queres fresca e livre; ou porque não sei o que te dizer perante aquela tua dúvida, ou porque não estou disponível quando choras na escola; ou porque te apresso quando me queres contar duas mil vezes a mesma coisa e eu tenho algo a fazer… eu sei, filha, eu sei que nem sempre sou a melhor, mas tento, filha, eu tento… Ninguém me suplanta naquilo que estou disposta a fazer por ti. Ninguém. Ninguém me suplanta naquilo que sinto por ti e isso, amor, isso é a nossa maior força. O meu amor por ti é o combustível que me impede de sucumbir a um certo dia-a-dia que às vezes atormenta. Mudaste a minha maneira de estar aqui, neste mundo. Estas sempre a ganhar-me, filha, tu ensinas-me mais, muito mais do que aquilo que eu te consigo ensinar. Olhas o mundo de uma forma que eu já não consigo olhar, mas contigo, vislumbro qualquer coisa. Eu sei que aquilo que te posso dar são asas para voares. Construo o teu caminho e sei que ele te pode levar para longe de mim. É assim. Amar-te não é fechar-te em mim. Não é. É dar-te ferramentas para que cresças forte e capaz de um dia, se assim o desejares, ires mundo fora e viver na plenitude tudo aquilo a que te propuseres. Pressinto que o vais querer fazer. Que te move uma curiosidade e sede de infinito. E quando assim for, eu vou morrer um bocadinho, apenas um bocadinho, apenas um bocadinho, Filha, mas não te preocupes são as saudades, filhas, as saudades de te cheirar quando dormes, de te dizer ‘amo-te’ e de te ouvir dizer ‘ai, mãe, estás sempre a dizer isso!’. Sim, é verdade, amo-te e o raio da palavra não me parece suficiente. Fica aquém. Sabes o que mais gosto, Maria? De quando te enroscas a mim, no sofá, eu com um livro, tu com outro, o nosso David Bowie ou Nina Simone na sala a fazer-nos companhia, e ali estamos as duas, sem falarmos, tu a cresceres e eu a envelhecer… é tão bom! Obrigada por estes seis anos, amor. Obrigada. És uns 12% e tanto!

 A tua mãe.


sábado, 29 de outubro de 2016

Bolo mousse de chocolate com morangos ( cuidado)

Bolo mousse de chocolate com morangos " morangos em outubro?" Perguntou a minha mãe. Afirmei e ela, do outro lado do telefone, metida entre os vales do Douro, afirmou " depois queixam-se que cada vez há mais cancros e doenças e assim...". Quem não deu o Nobel da medicina à minha mãe não sabe o erro que cometeu!


Aniversário . Dia de se comemorar o estar-se vivo e estar-se bem



A feijoada está por sua conta e risco. A mesa está posta. Deixei na cozinha o meu silêncio e angústia e desato a língua, a alegria e a graca de se estar vivo a partilhar este tempo e este espaço com quem mais gostamos. 


sexta-feira, 28 de outubro de 2016

Das nossas noites de sexta

Aos sábados a minha mãe chamava-me para a ajudar a fazer um bolo. Era o bolo da semana, invariavelmente um de laranja, com as laranjas do quintal. Não falávamos muito, mas partilhávamos uma cumplicidade que tem na cozinha o ambiente certo para florir. A minha filha adora a cozinha. Ainda agora me dizia: mãe, posso bater as "algemas" em castelo? Pode, claro. 


terça-feira, 4 de outubro de 2016

Memórias de uma vida consentida . Helena Sacadura Cabral

Hoje é dia 4. Esperei por este dia com uma certa ansiedade. Saía o livro de Helena Sacadura Cabral. Já o tenho e agora desejava que o mundo ficasse em suspenso só para o ler. O jantar. Os banhos. Os telefonemas. As conversas. Os amuos. Tudo ficasse para amanhã, depois do ponto final. 

segunda-feira, 26 de setembro de 2016

a criar memórias


Não há vez alguma que não faça um bolo sem pensar na minha mãe. Não que ela fizesse muitos, mas quando os fazia, havia um toque, uma magia que busco em todos os que faço sem, no entanto, conseguir encontrar. Na verdade, ando sempre em busca de algo que ficou lá atrás. E isso não é bom. Não faz bem. Talvez isso diga mais de mim do que todas as restantes características. A vida é como conduzir, se olharmos sempre pelo retrovisor podemos bater. Tento apenas ‘deitar um olho’, mas ainda não consigo. Se ao menos a psicoterapia fosse mais barata!

A minha filha convidou a sua amiga do peito a passar o fim-de-semana aqui em casa. Fiz o simples bolo de natas que elas, entre o chá das bonecas e o leite da noite, deitaram abaixo. Sei que estou a construir memórias. Sei que estou a deixar na sua mente sementes de sabor.  Só espero que sejam libertadoras.