A hora de acordar é a mesma e
os meus rituais também. Tomo banho, visto-me e arranjo esta cara que já marca o
tempo numa meia hora controlada milimetricamente. De seguida
acordo a minha filha como sempre fiz e temos as conversas que ela dita. Tomamos
o pequeno-almoço na companhia do Jim Jam e o meu derradeiro mimo é vestir-lhe os
vestidos que ela gosta (leia-se os mais pirosos). Entro no mesmo carro e levo-a
à mesma escola na companhia da mesma estação de rádio onde uma Carla Rocha eleva
uma Renascença conservadora para um lugar muito mais apetecível e animado. Pelo
caminho vejo a mesma senhora a passear um cão que me parece já velho. No
cruzamento do Parque dos Poetas já sei que apanho trânsito. Fujo aos semáforos,
manias instaladas na minha pessoa. Estaciono no mesmo sítio de sempre e levo-a de mão dada até à
escola. Beijo-a e digo que a amo. Ela a saltar e a cantar entra na sala
e eu regresso ao carro. Arranco e cinco minutos depois estaciono no meu local
de trabalho. Meto o dedo na máquina que me enoja e lavo-o de seguida. Ligo o
computador e faço o chá. Lúcia-lima. Enjoei do chá verde que afinal não
emagreceu. Deve ser dos enchidos e queijo que ingiro. E do chocolate. Sei lá… Vejo
os emails e respondo aos urgentes. O dia entrou na sua velocidade cruzeiro. Percebo
que faço tudo, mas tudo igual ao antes e, no entanto, tudo está tão dolorosamente diferente.
quarta-feira, 4 de janeiro de 2017
segunda-feira, 2 de janeiro de 2017
Dia 2
Não comi as doze passas, não fiz projetos para este ano, nao usei cuecas azuis, nao saltei da cadeira e quando bateu a meia noite estáva a dormir. Não tenho imagens cheias de amizade e festa, e reu-beu-beu pardais ao ninho, para mostrar. por isso, não me perguntem quantas resoluções de ano novo já deixei para trás ao fim de 48h a viver o 2017. Não tenho resoluções. Não pretendo acabar com o açúcar que ingiro, nem com os enchidos (ainda sonho com presunto espanhol), nem me vai dar para começar a fazer ginástica. Muito menos correr no calçadão português. Algo me diz que os vicios que possuo se acentuarão. Estou em crer que devia ser banida das redes sociais... deixo à vossa consideração.
domingo, 1 de janeiro de 2017
1 dia de 2017
Viver ao pé de um hotel é
espetacular. Mesmo que não se queira festejar a passagem de ano, a música
brasileira ‘pirilampo, pirilampo, porque brilhas tanto assim, vem pirilampo
brilhar perto de mim’ parece que acontece dentro do quarto. Não há nada mais
irritante do que musica brasileira num cérebro em obras, num espirito
atormentado. Mas à meia-noite, o fogo-de-artifício fez tudo valer a pena. Minha
filha abriu a janela e de boca aberta olhou para toda aquela explosão de cor no
céu e os seus ah! e oh! disseram-me que ainda tenho o mais valioso, ainda pode
tudo acontecer, ainda posso ser feliz, basta estar atenta à magia que existe à
minha volta. Foi um mini-fogo da Madeira para nós, que estávamos a ver de
camarote e pijama. O encantamento dela fez-me ir até à Régua e ao fogo-de-artifício
que era lançado no rio numa das noites da festa popular que tem lugar em agosto.
Lembro-me que pedia ao meu pai para me levar e durante o tempo em que o som e
as cores dançavam no céu e refletiam na água do magnífico Douro, eu calava-me e
ficava ali a ver uma certa magia que me elevava. Ontem a minha filha fez-me
recuar à minha infância e quando lá cheguei prometi àquela carla pequenina que
tudo iria fazer para que este 2017 valesse a pena e tivesse inúmeros fogo de
artificio.
| o nosso chocolate quente |
| Grande hotel Real Oeiras! é assim mesmo, continua a animar o bairro. |
sábado, 31 de dezembro de 2016
até sempre, 2016
Se fizer um balanço de 2016
desmancho-me. Não preciso dizer o que correu mal porque sei que nunca vou
esquecer. Foi, de longe, o meu pior ano de sempre. No entanto, hoje, de certa
forma, estou apaziguada. Não sei como. Divido o sofá com a minha filha, já
estamos ambas de pijama, são quase seis da tarde do último dia de 2016, acendi
a lareira pela primeira vez nesta casa, a mini-televisão está ligada mas sem
som, escrevo-vos e nem sei quem são vocês, mas a verdade é que este quadro, que
podia ser um verdadeiro quadro de miséria na véspera de ano novo, é um quadro
cheio de paz e serenidade.
O que me tem custado mais, não é
o fim de algo, é a descrença no amor que esse fim me trouxe. Faço o luto de
alguém que foi romântica quase 45 anos. Acreditei mesmo no amor. Mesmo. E hoje
quando penso nisso dá-me uma certa vontade de rir. Já não acredito. Mas mais do
que nunca, acredito na amizade. O fim do amor trouxe-me a certeza da amizade
verdadeira. Encontrei as pessoas certas. As minhas pessoas. E são enormes. São gigantes,
são elas que não me permitem sentir só. Não me permitem sentir aquela solidão
ensanguentada que o fim de um amor traz. E como tenho essas pessoas, este sofá,
esta lareira, esta mini televisão e ESTA FILHA, sinto que também tenho paz.
Por agora esta paz basta-me. Adeus
2016. Até sempre.
sexta-feira, 30 de dezembro de 2016
da solidão
São os novos barulhos que me
despertam. Ouço o vizinho de cima, ou será o do lado?, a ir à casa de banho. O camião
do lixo, na primeira noite, acordou-me com a sensação de estar numa zona de
guerra tal era o som metálico, e não estando nunca num ambiente de guerra, sei
lá eu o que isso é, mas acordei com essa sensação. As manhãs que me
desorientam. Abro as janelas e não reconheço aquela paisagem. Não sei que prédio
é aquele que cresceu frente à minha sala quando antes tinha ali um jardim. E em
cada manhã faço um esforço para ficar bem. Para olhar para fora e não me ver
por dentro. As novas casas têm mais do que as quatro paredes. Elas têm o peso
dos barulhos da madeira e das portas. Os hábitos dos outros. Mesmo aquele móvel
que na outra casa fazia tanto sentido, aqui perde-se um pouco, neste eco, neste
vazio, neste silêncio. É isto, mais do que os barulhos que não reconheço, é o
silêncio que me acabrunha mais. O silêncio de quem já nada têm. O silêncio de
quem tudo perdeu. O silêncio de quem tudo lhe foi tirado. E em cada segundo
penso e repenso no que poderia ter sido e não foi e anseio que o futuro me
traga apenas e unicamente paz. Uma certa e segura paz. E agora olho para a frente e vejo a parede. odeio as paredes nuas.
Falta o meu modigliani, o meu matisse, o homem da mãça que a minha filha tanto
gosta. É isso, falta-me uma certa arte para que a paz se sinta bem por aqui.
terça-feira, 27 de dezembro de 2016
preciso de um novo ano
Este ano foi péssimo, mau,
feio, bruto, grosseiro, inoportuno, excruciante, disforme, incapaz de mim e
arrasou-me. Simplesmente arrasou-me. Quero que ele se feche. Se encolha. Que mingua
até desaparecer. Preciso de um novo ano. E preciso com a urgência dos aflitos. Daqueles
moribundos que vagueiam à procura de uma paz.
Nunca desejei tanto fechar as
portas, as janelas, o céu dentro de mim e deitar-me à espera que um novo ano me
restabelecesse.
Que venha 2017 e que venha JÁ!
sexta-feira, 23 de dezembro de 2016
Café da aldeia
No café da aldeia a C atende os clientes sem parcimónia ou cuidados. Se o café não sai como ela quer, uma palavra mais brejeira sai da boca com mais velocidade do que as palavras doces. A vida também não lhe é fácil. Entre as dores e um certo abandono dos afetos, os dias sucedem-se tornando-a mais dura. Mas os putos gostam dela. Pedem-lhe chocolates e ela da-os. Se eles não querem ela diz: ah!, cabrão, deves ter a barriga cheia. E ri-se. Não há como o café da aldeia. Não há.
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