Estou quase a fazer anos. Já
não sei o que isso significa. Passei por todas as fases ao longo da vida quando
esta data se aproximava: euforia, ansiedade, curiosidade, desejo, tristeza… e
desta vez nada disto se passa. Não tenho expetativa. Não quero nem deixo de
querer. É uma data. Não espero nada de ninguém. Não construo castelos de areia
na cabeça e isso é bom. Alivia, serena-me. Tenho vontade de rir quando penso
que durante anos e anos desejei que me fizessem uma festa surpresa. Dei dicas.
Sugeri entre linhas. Fora de linhas. Depois das linhas. Só faltou eu fazer uma
festa surpresa para mim mesma. Não sei porquê, mas acho que quando nos damos ao
trabalho de organizar algo para alguém, está nesse ato um amor, uma amizade, um
sentimento… tem tudo a ver com a minha profunda e incurável insegurança. Agora
estou em paz. Não é bem. Não é mal. É em paz. Sei o que vou fazer nos meus
anos. Vou pegar na minha filha e vamos para um hotel a sul, com piscina
interior para brincarmos juntas. Quero marisco e vinho branco ao jantar. E se
ela quiser chocolate, terá chocolate. E queijo de entrada. Muito queijo. E presunto.
Fino, muito fino. Um pequeno-almoço faustoso, com ovos mexidos, café, compota e
uma vista de mar. Adormecer ao lado dela. Acordar ao lado dela e já ter 45
anos. 45 anos e mais um kilo, ou dois. Passar o dia a ouvir ‘e isto é assim
porquê?’ ‘E aquilo? ‘E aqueloutro?’ E responder com paciência. Com calma. Desligar
o telemóvel. Ficarmos só as duas com o sol a bater na pele e a alma a curar-se
dos 44…
terça-feira, 24 de janeiro de 2017
segunda-feira, 23 de janeiro de 2017
Dia 23 de 2017
O envelhecimento traz-me um certo problema: quando era nova e estava sozinha, comia fruta ou iogurte com cornflaks; Agora, que a idade já se entranha, dou por mim a fazer, para mim mesma, feijoada, arroz de pato, perdiz de escabeche ou, como neste preciso momento, um arroz de troncha com moira. Na cozinha tenho os mais belos e impecáveis livros das mais variadas dietas, mas busco sempre o caderno velho onde aponto as receitas que roubo à memória da minha mãe ou tias.
domingo, 22 de janeiro de 2017
22 dias de 2017
O nosso pequeno almoço é simples mas as conversas são sempre revestidas de imaginação. Ela conta-me o seu sonho. Percebo que, muitas das vezes, o inventa. São sempre histórias de aventura. Hoje sonhou que eu, ela e a prima estávamos fechadas numa gaiola e que foi ela que nos tirou de lá. A gaiola era cor de rosa e estava pendurada numa nuvem. Eu mordo o pão com queijo creme e doce e ela vai olhando e gesticulando muito enquanto a história lhe surge. Vou interrompendo com 'Maria, come'. Esta é a minha refeição favorita. Temos tempo. Temos amor. Temos comida. Nada nos falta.
segunda-feira, 16 de janeiro de 2017
Meu amor, perdoa-me a ausência
Estou no Algarve a dar formação. Um frio que não sabia existir a sul. Esgotada ligo para a minha filha. Ela pede-me para ir para cima. Queria explicar-lhe que estou aqui por ela. Para ela. Por nós. Pela nossa estabilidade mas ela pede-me, naquela voz sumida, que me quer, e nenhuma razão me surge válida. Esgoto. Fico muda. Digo-lhe apenas que a amo. E amo. Espero que um dia ela entenda.
domingo, 15 de janeiro de 2017
dia 15 de 2017
Ao lado do meu computador está a
minha chávena com café. Na torradeira uma torrada a fazer-se e o barulho da
máquina da louça diz-me que limpa os restos do jantar de ontem. Aos poucos esta
casa parece uma casa, a minha casa. Quero enchê-la de vivências já que 11 anos
ficaram lá, no outro espaço, que já não me pertence. Nunca pensei que fosse tão
dolorosa esta mudança física dos lugares. Mas os lugares também nos pertencem e
nós pertencemos aos lugares. E quando alguém se impõe, há outro alguém que tem
de largar, ir, despido, para um outro sítio que demora a torná-lo seu. Sinto-me
tão vazia, que por vezes pareço que faço eco por dentro.
Escrevo neste computador na mesa
da sala. O sol ainda não bate aqui e sei que se fosse na outra sala o sol já há
muito que se fazia sentir. Ontem a minha amiga X veio jantar comigo. Comigo e
com a minha filha. Ficamos até tarde a deitar conversa fora. Falar dos amores. Do
que ficou. Do que planeamos e não deu certo. Do futuro. E é aqui que empanco. Não
acredito no futuro. Desejo paz e serenidade mas foi-me roubada a capacidade de
acreditar no futuro, logo eu que o açambarcava com as pernas. Não acredito. E é
neste não acreditar que está a minha maior perda. Pareço que funciono em modo
automático. Faço tudo de certa forma mecanizada. E quando penso no que faria se
pudesse, o que me surge é dormir. Mas nem isso consigo fazer. Acordo sobressaltada
de noite. Olho para o espaço. Procuro as horas refletidas no teto. Lembro-me
que neste quarto não tenho esse relógio. E fico assim, sossegada até adormecer
e a imaginar que horas serão. Às vezes, vejam o ridículo da situação, tento
ouvir as horas que o sino na aldeia dos meus pais dá de quarto em quarto de
hora.
Vou fazer mais um café. fazer a
mala que hoje vou para o Algarve dar formação. Volto sexta, mais cansada do que
estou. Comigo a dar eco por dentro e sei que quando meter a chave na porta
desta casa, que voltarei a não a sentir como minha. Mas um dia…
terça-feira, 10 de janeiro de 2017
dia 10 de 2017
Discutiam carros. Uma disse:
- a minha carrinha Peugeot é
confortável.
A outra disse:
- desculpem mas o meu corsa é
mega económico.
A primeira ainda rematou:...
- se não tivesse a peugeot
queria mesmo um audi igual ao da minha mãe que anda para caraças.
E eu respondi:
- Acabei de fazer uma mudança
de casa num mini...
Ganhei!
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