Marta Gautier entra em palco e
desata a falar, desata os nos - os dela e os nossos. Pontua a sua performance
com piada, com um certo humor de quem vê a vida com olhos de ver e, acima de
tudo, desconstrói ideias que tínhamos sabemos lá bem o porquê. O tema que fui
ver era sobre sexo. Mas não era bem o sexo. Era aquilo que permitimos fazer com
o sexo. Com o corpo. De que forma o boicotamos (nos boicotamos). E desconstruiu
ideia sobre ideia, convicções pré-estabelecidas e ao desconstruir, em vez de
sair de lá vazia, sem nada, saí cheia de certezas. Tenho para mim que cada
casal que se aproxima pela primeira vez devia ir a uma sessão destas. Pelo sim
pelo não, só lhes fazia bem. E se não se entendessem, em vez de adiarem o
prazer, a vontade, colocarem debaixo do tapete os desejos, cada um ia à sua
vida. E como ela bem diz, ninguém precisa de ninguém para obter prazer, se
tiver um alguém é grourmet, mas não é
fundamental. Pois que não é.
quinta-feira, 26 de janeiro de 2017
terça-feira, 24 de janeiro de 2017
O melhor da vida
O melhor do meu dia é quando chegamos a esta hora dos leves cansaços e tento saber como foi o dia dela. 'mãe, hoje aprendi a dizer cake em inglês'. 'Uma aula inteira para aprenderes a dizer apenas cake?!' E ela responde:' era um cake muitooooo grande'.
24 dias de 2017
Estou quase a fazer anos. Já
não sei o que isso significa. Passei por todas as fases ao longo da vida quando
esta data se aproximava: euforia, ansiedade, curiosidade, desejo, tristeza… e
desta vez nada disto se passa. Não tenho expetativa. Não quero nem deixo de
querer. É uma data. Não espero nada de ninguém. Não construo castelos de areia
na cabeça e isso é bom. Alivia, serena-me. Tenho vontade de rir quando penso
que durante anos e anos desejei que me fizessem uma festa surpresa. Dei dicas.
Sugeri entre linhas. Fora de linhas. Depois das linhas. Só faltou eu fazer uma
festa surpresa para mim mesma. Não sei porquê, mas acho que quando nos damos ao
trabalho de organizar algo para alguém, está nesse ato um amor, uma amizade, um
sentimento… tem tudo a ver com a minha profunda e incurável insegurança. Agora
estou em paz. Não é bem. Não é mal. É em paz. Sei o que vou fazer nos meus
anos. Vou pegar na minha filha e vamos para um hotel a sul, com piscina
interior para brincarmos juntas. Quero marisco e vinho branco ao jantar. E se
ela quiser chocolate, terá chocolate. E queijo de entrada. Muito queijo. E presunto.
Fino, muito fino. Um pequeno-almoço faustoso, com ovos mexidos, café, compota e
uma vista de mar. Adormecer ao lado dela. Acordar ao lado dela e já ter 45
anos. 45 anos e mais um kilo, ou dois. Passar o dia a ouvir ‘e isto é assim
porquê?’ ‘E aquilo? ‘E aqueloutro?’ E responder com paciência. Com calma. Desligar
o telemóvel. Ficarmos só as duas com o sol a bater na pele e a alma a curar-se
dos 44…
segunda-feira, 23 de janeiro de 2017
Dia 23 de 2017
O envelhecimento traz-me um certo problema: quando era nova e estava sozinha, comia fruta ou iogurte com cornflaks; Agora, que a idade já se entranha, dou por mim a fazer, para mim mesma, feijoada, arroz de pato, perdiz de escabeche ou, como neste preciso momento, um arroz de troncha com moira. Na cozinha tenho os mais belos e impecáveis livros das mais variadas dietas, mas busco sempre o caderno velho onde aponto as receitas que roubo à memória da minha mãe ou tias.
domingo, 22 de janeiro de 2017
22 dias de 2017
O nosso pequeno almoço é simples mas as conversas são sempre revestidas de imaginação. Ela conta-me o seu sonho. Percebo que, muitas das vezes, o inventa. São sempre histórias de aventura. Hoje sonhou que eu, ela e a prima estávamos fechadas numa gaiola e que foi ela que nos tirou de lá. A gaiola era cor de rosa e estava pendurada numa nuvem. Eu mordo o pão com queijo creme e doce e ela vai olhando e gesticulando muito enquanto a história lhe surge. Vou interrompendo com 'Maria, come'. Esta é a minha refeição favorita. Temos tempo. Temos amor. Temos comida. Nada nos falta.
segunda-feira, 16 de janeiro de 2017
Meu amor, perdoa-me a ausência
Estou no Algarve a dar formação. Um frio que não sabia existir a sul. Esgotada ligo para a minha filha. Ela pede-me para ir para cima. Queria explicar-lhe que estou aqui por ela. Para ela. Por nós. Pela nossa estabilidade mas ela pede-me, naquela voz sumida, que me quer, e nenhuma razão me surge válida. Esgoto. Fico muda. Digo-lhe apenas que a amo. E amo. Espero que um dia ela entenda.
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