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terça-feira, 31 de janeiro de 2017

dos meus medos


Deixei, na outra casa, a primeira vez que ela sorriu. O seu primeiro gatinhar. As horas que passávamos de mãos dadas na sala, eu no sofá, ela na sua alcofa, a música muito baixa e o sol a entrar ao de leve. Por lá ficou o seu primeiro quarto, primeiro sem nada, depois com tudo. O seu primeiro sorriso, o seu riso, o seu gargalhar. Ficaram lá, e eu sei exatamente onde, a primeira papa, a primeira sopa. Por lá ficaram os seus desenhos nas paredes. Deixei para trás a sua casa de banho cheia de bonecada. O seu primeiro dente. As noites mal dormidas e as noites dormidas por inteiro. Por lá ficaram os seus primeiros 6 anos, que passamos a dois e a três, a três e a dois. As vezes em que ela rodopiava ao som da música. Os seus pequenos-almoços com a sua amiga Francisca na varanda. Ficou na outra casa a sua cama de crescida, a sua escrivaninha, os seus livros e os seus bonecos. Ficou por lá as nossas histórias contadas em surdina, os risos de horas sem fim, a alegria de a ver chegar cheia de novidades. Ficou por lá o seu primeiro balbuciar, as suas primeiras palavras, as frases pela metade e as frases por inteiro. Os seus aniversários, as horas que passei na cozinha para receber os seus amigos.

Cada um de nós podia ter ficado. E cada um de nós podia ir embora. fui eu. E indo, encontro-me sangue, completamente em sangue. Em carne viva.

Perguntam-me: és ligada aos objetos, às coisas? Sou. Sou ligada às coisas que contam a nossa história.

E como custa ir em Frente despida de objetos, da casa que os encerra, da casa que nos conta e receosa que um dia a memória se apague e que nada em mim reste destes maravilhosos 6 anos.  

domingo, 29 de janeiro de 2017

o meu fim de semana resume-se a... queijo

Sexta feira fui comprar espinafres para uma sopa e comprei um queijo amanteigado de azeitão. Cheguei a casa, peguei num copo de vinho tinto, peguei no queijo e jantei. Sábado fui almoçar a casa de uns amigos. Tinham um belo queijo da serra, amanteigado (novamente esta palavra... o blogue é meu e por isso escrevo-a as vezes que quiser), a tornar-se liquefeito ao pé da lareira, para que fosse devorado como entrada. Foi. Jantei em casa da minha amiga Marta (esta lindona) uns belos scones, uns ovos mexidos e queijo. Hoje, domingo, houve uma reunião de trabalho em minha casa. Fui comprar queijo de azeitão (é realmente muito bom) para receber as minhas amigas. Saí à tarde para um belíssimo espetáculo no CCB (um Mozart divinamente tocado e  cantado) e, agora, cheguei a casa e, imaginem, cheirava-me a queijo. Saí à pressa e não arrumei o sacana. Agora estou a  escrever-vos e estou na companhia do meu queijo. Tenho de acabar com ele. Se assim não for, acredito que acordo a meio da noite e assalto o frigorifico e saído do frio não é tão bom. Está mole, com a  textura de uma mousse, um sabor decadente, e barra-se como se fosse manteiga em dia de verão. As tostas são integrais. Só para alívio da consciência.

Sim, eu sei, o meu colesterol deve estar a bater nas nuvens. Mas o meu corpo é esperto, ele saberá entender este excesso. Preciso do pecado da gula para colmatar os outros que não vivo. ele, o corpo, sabe que é uma fase. uma dolorosa e estranha fase, mas apenas uma fase.

Um daqueles grandes livros

Lúcia Berlin- manual para mulheres de limpeza, com 50% de desconto no continente. Depois não digam que não avisei. Um dos livros que me desassossegou no ano passado. E isto  é um grande elogio e feito. 

sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

comida indiana, quem gosta?


Já não penso noutra coisa: comida indiana. Estou assim - penso e sonho com pratos indianos. Se me surge a possibilidade de comer um qualquer prato indiano, logo arrebito de uma certa letargia que me atacou profundamente há uns meses. Tenho tentado evitar ir à FNAC, pois se lá vou, certamente que dou por mim a vasculhar um livro de receitas indianas que não resistirei a comprar. Prometi à minha filha que a próxima compra será um televisor maior do que o que temos. Mas eu não vejo televisão. E como. E como muito. E adoro o raio da cozinha indiana. Quando era mais nova tinha obsessões por cantores, atores, pessoas, gente mais ou menos inacessível, malas, sapatos, vestidos; agora é por comida. Ainda não gosto da minha casa pelo metro quadrado de cozinha que tem. Precisava dela maior. Podia ter menos quarto, ou casa de banho, ou mesmo varanda mas mais cozinha. Uma cozinha que desse para meter mais uma mesa e onde conseguisse ter vasos com cheirinhos e uma garrafeira. Uma grande garrafeira e mais bancada para os meus devaneios… Durante anos a comida indiana não me dizia nada, se calhar por ser vizinha de uma família de indianos que eram pouco afáveis. Mistura-se tudo dentro de mim. Mas agora deleito-me e fico a sonhar com lentilhas de caril, frango em molho de natas e sou capaz de elevar-me só assim, pela gula, pelo palato.

Ontem ao chegar a casa deparei-me, entre as contas para pagar na caixa do correio, de um panfleto de comida indiana ao domicílio. Bastou isso para sorrir. Não pedi. Fiquei-me pelo empadão de peixe que prometi à minha filha, mas fi-lo a pensar em Tikka Chicken

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

Marta Gautier no dia 25 de 2017


 
Marta Gautier entra em palco e desata a falar, desata os nos - os dela e os nossos. Pontua a sua performance com piada, com um certo humor de quem vê a vida com olhos de ver e, acima de tudo, desconstrói ideias que tínhamos sabemos lá bem o porquê. O tema que fui ver era sobre sexo. Mas não era bem o sexo. Era aquilo que permitimos fazer com o sexo. Com o corpo. De que forma o boicotamos (nos boicotamos). E desconstruiu ideia sobre ideia, convicções pré-estabelecidas e ao desconstruir, em vez de sair de lá vazia, sem nada, saí cheia de certezas. Tenho para mim que cada casal que se aproxima pela primeira vez devia ir a uma sessão destas. Pelo sim pelo não, só lhes fazia bem. E se não se entendessem, em vez de adiarem o prazer, a vontade, colocarem debaixo do tapete os desejos, cada um ia à sua vida. E como ela bem diz, ninguém precisa de ninguém para obter prazer, se tiver um alguém é grourmet, mas não é fundamental. Pois que não é.

terça-feira, 24 de janeiro de 2017

O melhor da vida

O melhor do meu dia é quando chegamos a esta hora dos leves cansaços e tento saber como foi o dia dela. 'mãe, hoje aprendi a dizer cake em inglês'. 'Uma aula inteira para aprenderes a dizer apenas cake?!' E ela responde:' era um cake muitooooo grande'.