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quarta-feira, 15 de março de 2017

O pai da minha Maria


O dia do pai está à porta e este ano ele cutuca-me de forma distinta. Não penso tanto no meu querido pai, mas no pai da minha Maria. A Maria tem um pai que é muito diferente de mim e ao ser diferente de mim e ao sermos ambos os pais da Maria, ela tem uma realidade e uma vivência muito rica. Ambos a queremos acima de tudo e para ambos ela é a nossa prioridade. Por ela, deixamos de lado o que nos diferencia e tentamos acordos. Temos conversas diárias. Gastamos o telemóvel com imagem e vídeos para mandar ao outro na tentativa que o outro sofra menos na ausência. Porque doi. Doi muito quando a sabemos com o outro sem que possamos estar a ver o que está a fazer. E tentamos diminuir essa dor, esse enjeito, essa amargura. Mais belo ainda - é por causa dela que ainda rimos em conjunto.

A Maria tem um pai e o pai da Maria é o melhor pai que ela podia ter. Aqui há tempos perguntavam-me se eu algum dia me arrependi deste pai para esta Maria. Nem respondi por achar a pergunta tão descabida. Foi como se me perguntassem se eu acho que há limoeiros em Marte. A Maria só existe porque há este pai e se voltasse atrás era com ele que teria esta Maria. Não se muda a mãe e não se muda o pai. Ela tem tiques dele. É tão clara quanto ele. Cabelo liso como o dele. Com um gosto musical especial como ele tem. Até sardas a miúda já tem. A minha Maria não seria esta minha Maria se não tivesse este pai. E este pai foi, talvez, a única coisa que escolhi bem na vida. Porque escolhemos. Na maioria das vezes escolhemos ter filhos com este ou aquele homem. E  depois, muitas vezes, desdizemos de tal façanha. Como se ter um filho fosse coisa pouca. Fosse uma loucura no meio de uma paixão. Ter um filho deve ser pensado, ponderado para depois, mesmo depois da conjugalidade, que se pode desfazer na espuma dos dias, haja a paternidade que nos une.

Quando ouço mães a falarem mal dos pais às próprias crianças, penso que as estão a martirizar por uma escolha que apenas às mães diz (disse) respeito. Há maus pais? Sim, há. Há pais que depois de uma separação se esquecem dos filhos, sim há. Mas julga uma mãe que a criança não sabe disso sem que lhe seja preciso dizer? Sabe, pois. A criança sabe exatamente que tipo de pai é o seu pai. Não precisa do rancor da mãe em cima das palavras para lhe fazer ver que aquela pessoa está aquém do que gostaria. Não podemos amar os filhos, dizer que queremos o seu melhor e depois desdizer do pai. Eu sei bem os defeitos do meu pai. Não foi a minha mãe que os disse. Fui eu que fui descobrindo. Detestaria ouvir minha mãe falar mal do meu pai. Sei bem os desfeitos do pai da Maria (e este saberá dos meus). E sei que o pai da Maria nunca falará mal de mim. Se discordamos pegamos no telefone e falamos. Às vezes gritamos. Discutimos. Desligamos com vontade de matar o outro. Dá vontade de dizer: o teu pai isto ou o teu pai aquilo. E depois? Que tipo de mãe seria se o fizesse? O que ganharia a Maria com isso? Mesmo quando ele faz diferente do que eu gostaria, não está ele a fazer o seu melhor? Não estou eu a fazer o meu melhor quando faço diferente dele?

Há maus pais, que há, mas há mães que podiam refletir mais e melhor quando falam com os filhos.

Que sirva para isso este Dia do Pai que se aproxima.

domingo, 26 de fevereiro de 2017

dia 26 de fevereiro de 2017


Um dia li um livro de uma mãe que perante a morte da sua filha pensava que ela poderia ter frio no cemitério. Hoje penso na minha tia lá, sozinha, naquele alto tão gélido e não consigo deixar de chorar, de sentir uma dor que parece que se afunda na garganta… estou só. Sinto-me só. Penso no frio que a minha tia estará a sentir.
 A minha filha ficou com pai e deixei o meu irmão na sua casa e cheguei aqui, pousei a mala no corredor e deitei-me no sofá. Sinto os ossos a romperem a carne. A cabeça parece que vai rebentar. Penso na minha mãe que perdeu a sua irmã querida. Durante 14 anos, desde que a minha tia tivera um AVC, que a minha mãe a levou para casa e cuidou dela, ano após ano, mês após mês, dia após dia e hora após hora. E teria cuidado mais 14. Ainda ouço o meu pai a dizer que a minha tia nunca esteve a mais lá em casa. Não esteve mesmo. Ocupou o quarto de solteiro do meu irmão e a minha mãe revestiu as paredes azuis com santos e mais santos encimados por Cristo na cruz. Houve um cuidado que nunca abandonou. Ainda vejo a minha mãe a fazer-lhe festinhas na face e a dizer ‘ então, mana querida, não comes?’. Era isto num tom doce. O tom doce que a minha mãe tem quando ama. Agora minha mãe ficou lá a disfarçar que é forte, que tudo aguenta, que consegue ir em frente. E consegue. Conseguimos, mas já não se vai de igual forma. De igual modo. Tropeçamos no caminho. Já doi a alma. Ouço Todd Terje e acho que me vai dar para fazer um chá e ir para a varanda olhar para o céu e ver a estrela mais brilhante e dar-lhe o nome de Ilda como disse à minha filha que a morte funcionava: Saímos daqui e flutuamos até ao céu, como aqueles balões que tu tanto gostas, onde nos transformamos na estrela mais brilhante. Dá vontade de rir, não dá? Mas as crianças tudo aceitam…
Ainda ouço a minha tia a perguntar-me ‘a miúda?’. Eu já não importava, apenas a miúda importava. Só a miúda. E a minha filha pendurava-se na cama ortopédica, de onde a minha tia não saia, e perguntava ‘tia, não sais daí?’, e a minha tia, com o ar mais convincente deste mundo, metida num esqueleto atrofiado por 14 anos sem se mexer e dizia: ‘saio, claro que saio, vais ver que já te apanho’.

A minha aldeia

Do alto do cemitério a vista é ainda mais soberba. A emoção que me prostrou ainda me permite sentir este Douro tão intenso e, ao mesmo tempo, tão duro. A vida aqui faz-se debaixo de dias muito difíceis. A Natureza de tão desvairada que anda coloca as gentes da aldeia desorientadas. Mas depois a morte todos junta. Os desavindos e os amigos. Os conhecidos e os conhecidos de conhecidos. O sino parece gritar... vou embora mas nunca deixo de sentir a aldeia em mim. Não sei se isso é bom ou não.



sábado, 25 de fevereiro de 2017

Tia Ilda

A vida muda quando os que sempre nos acompanharam se vão embora para aquele lugar lá longe, algures numa outra dimensão, quiçá à nossa espera.  E gostava disso, gostava de a reencontrar com o seu timbre típico, a beber a sua cerveja fresca e a desdizer dos homens em geral e do seu em particular. Era a tia que, contrariando todas as irmãs, não sabia cozinhar nada de jeito ' elas já o fazem por mim'; mas era aquela que melhor conduzia uma fofoca familiar entre descascar uma cebola e uma batata. As manas começam a ficar pernetas. Das 6 ficam 4. E foram essas 4 que ontem a lavaram, escolheram a melhor roupa, e que serenamente, me mostraram que a família cuida na vida mas também cuida na morte. Até já querida tia. Prometo que não vou esquecer de beber e comer bem como tão bem me ensinaste. Que uma gordura na comida ajuda a um desaire amoroso. E que o tinto cai que nem ginjas nas insónias. E também prometo usar cuecas de algodão. Vai com Deus! 

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

Uma das minhas palavras

A minha filha foi à casa de banho e veio esbaforida dizer:


- mãe, mãe, a casa de banho tem aquela palavra que gostas muito! 



terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

Dia dos namorados... cof, cof, cof


A M diz que ama o N; o B diz que não vive sem a T; a R diz que ama a sua melhor amiga, a S; a M colocou fotografias do seu marido cheio de corações; o R diz que namora mesmo com a sua cervejola e coloca uma fotografia a beijar a garrafa; os blogues enchem-se de sugestões de prendas para os mais-que-tudo; outras, mais sexy, colocam fotografias de lingerie rendada; as declarações de amor para toda a vida dos mais insípidos dos seres, acontecem um pouco por todos os perfis; imagino que a estopada do La La Land vá ter mais visualizações hoje que nos restantes mês... vejo que o nível de romantismo nas redes sociais está em alta mas, e lá em casa, como vai a coisa, malta? Eu tenho cá umas teorias estranhas e até penso, imaginem lá, que uma vez que o íntimo e o pessoal veio para o espaço publico que aquilo que se vive em cada casa não é aquilo que nos é dado imaginar.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Espargos selvagens e uma vida por contar

Espargos, uma paixão tardia mas perfeitamente obsessiva. Ainda penso no senhor que os vende à beira da estrada e da filha que brinca, horas e horas, dentro do carro, à espera que as vendas sejam de feição para a família. 
Comprei três molhos quando só queria um. Assim, talvez a miúda tenha ido para casa mais cedo.