Estou em Amesterdão e o pai da
minha filha (ainda não consigo chama-lo de ex-marido) está em Espanha.
Perguntam-me com frequência: com quem ficou a tua filha? Por norma, como ando
bem-disposta, respondo que lhe deixei 5€ por cada dia e ela desenrasca-se muito
bem. Mas depois reflito e penso que as pessoas equivocam-se muitas vezes sobre
os limites do que é uma família. A família é a mãe, é o pai, os irmãos, os
avós, os amigos… não percebo a dúvida. Depois pensam que com uma separação tudo
muda. Muda muita coisa, mas o amor não pode mudar. De cada vez que digo que
falei com a minha sogra ou que a minha sogra ficou com a miúda, sinto olhares incrédulos
sobre mim. Mas eu não sei como poderia ser de outra forma. Quando me separei
tinha de deixar de gostar de pessoas de que sempre gostei? Como é que isso se
faz? É automático? É um botão? E porquê fazê-lo? Como é que isso se procede? Um
dia gostamos de uma pessoa e no dia seguinte passa-se a detestar todos os
membros de uma determinada família? Como é? Tudo o que se viveu vai para o
esgoto? Não, não me explique que eu não quero saber!
Nunca conheci os meus avós e a
minha mãe sempre esteve dedicada aos filhos numa presença constante. As férias
eram com a minha tia Palmira. E quando a minha mãe tinha coisas para fazer
ficava com a senhora Emília, uma mulher que vivia no fundo da nossa rua e que
tinha duas filhas. Ficava lá com o mesmo à vontade com que ficaria em minha casa.
A sociedade é uma rede que podemos saber tecer melhor ou pior, e que serve de
apoio, de estrutura. Esta era a minha rede, a da minha filha é outra, bem mais
densa.
Tento estar o mais presente
possível na vida da minha filha. O pai tenta o mesmo. Mas quando não
conseguimos e às vezes não conseguimos simultaneamente, tenho, logo em primeira
instância, a minha querida sogra (dizem que sogra é sempre sogra e eu fico
muito feliz) que é a melhor avó que a Maria podia ter. Sei que tudo faz e
desfaz pela neta. Está sempre presente, sempre. Como se agradece a uma pessoa
que aprendeu a mexer no whatsapp e a esta altura já me mandou imensas
fotografias da Maria de hoje de manhã? Sei como dormiu e o que comeu. Sei as
piadas que ela diz. As brincadeiras que tem. E ouve-me atentamente quando lhe
digo que acho que a Maria está a precisar disto ou daquilo. Não tinha de ser
uma excecional sogra para a adorar, bastava ser a avó que é, mas tenho a
felicidade de ser também uma sogra como não conheço nenhuma outra; e tenho a
minha cunhada (curiosamente é para a minha filha aquilo que sinto que sou para
a minha sobrinha), a Áua, um misto de
ama, amiga e avó da Maria, a minha querida Catarina que já ficou com a Maria em
conjunto com as suas duas filhas (há amigos que se transformam rapidamente em
família) e que me perguntou se a queria deixar lá em casa, e se necessário
fosse, vinha a minha mãe com as suas couves e bacalhau do norte para cuidar da
neta. Ou até o meu irmão, que lá tinha de se levantar mais cedo para levar a
sobrinha à escola.
Quando as pessoas se separaram, e
atenção que eu sei pouco sobre este tema, apenas tento fazer o caminho o melhor
que sei e o melhor que posso, é de salutar que as crianças sintam o seu meio o
menos beliscado possível. Basta a separação parental. Se a essa juntarmos a
separação total da família e dos amigos (aqui dava pano para mangas… e aqueles
amigos que desaparecem de repente? Aqueles que acham que têm de tomar uma
posição sendo que a única plausível era não tomarem nenhuma e que depois puf,
cadê?) o mundo como o conheceram até então desaparece e com ele a estabilidade
de que precisam.
Por isso, as almas atormentadas
que estão preocupadas com quem deixei eu a minha criatura preferida, ela está
bem e recomenda-se. Como se está quando estamos com quem nos ama acima de tudo.
| A Maria com um chapéu que a avó lhe deu |






