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quinta-feira, 13 de abril de 2017

O meu pai

O meu pai nunca foi de falar muito. E eu sempre lhe tentei chegar. Sempre. Quando era miúda, deitávamo-nos no terraço nas quentes noites de verão a olhar o céu. Só falávamos quando um de nós via uma estrela cadente. Só queria ver as estrelas para o ouvir. Havia noites em que nem uma aparecia. Ontem ele estava a comer uma maçã no beiral das escadas que dão para a cozinha. Sentei-me ao seu lado. Sem saber o que dizer, disse:

- esta macieira está cheia de flores. Vai dar muitas maçãs. 

E ele pergunta:

- esta quê?

Foi a ânsia de Meter conversa que me fez escorregar na ignorância. Olhei melhor para a árvore. Olhei para as folhas. Remendei:

- enganei-me, queria dizer esta laranjeira.

Já não respondeu. Semi sorriu. Afinal a urbe e a cidade ainda não engoliu a filha. Ainda consigo descortinar as árvores de fruto. Menos mal. Sim, ainda sou uma miúda da aldeia que se atreve a viver na cidade.

Velharias

Vou-me descobrindo de cada vez que regresso a casa dos pais. Percebo o meu gosto por velharias. Percebo porque ando sempre à cata de loucas de outrora. Vivi com o passado encostado ao presente. Aqui está um pormenor da cozinha dos meus pais.


quinta-feira, 6 de abril de 2017

PSP do meu coração


Há uns anos vivia num apartamento que tinha por vizinho uma esquadra da PSP. A esquadra da PSP era virada para um pátio, pátio este para onde era virada a janela do meu quarto. Em algumas noites, os agentes que estavam de serviço, iam fumar e conversar para esse mesmo pátio. Por vezes, estavam numa conversa tão animada que eu tinha dificuldades em adormecer. Um dia, após ter acordado com o riso deles, furiosa e maldisposta (sou impossível com fome e com sono) visto o roupão e saio de casa e entro na esquadra dizendo que queria fazer uma queixa. O agente que me atende, super simpático, pega numa folha qualquer e começa a escrever o que lhe vou dizendo e pára quando percebe que a morada que estou a dar é a deles.

- Sim, vocês fazem tanto barulho que eu não consigo dormir. Quero fazer uma queixa a vocês sobre vocês.

Ele percebeu que eu espumava e, de forma inteligente, disse:

- Tem toda a razão. Queixa apresentada. Não voltará a acontecer.

Fui para casa, deitei-me e houve silêncio o resto da noite. No dia seguinte, achando que tinha exagerado, fui ter com eles e pedi desculpas afirmando a importância de eles darem o exemplo. Nunca mais ouvi barulho vindo do pátio deles. Hoje o meu pai teve um acidente no Marco de Canaveses. Ele queria ligar para a psp mas estava um pouco nervoso com tudo o que lhe tinha acontecido que me pediu, eu que estou em Oeiras, para ser eu a ligar. Deu-me apenas uma indicação: estou algures numa rotunda. Liguei para a psp de marco de canaveses com essa indicação: uma rotunda. Acredito que hajam muitas rotundas. Certamente existem. Mas eu não sabia mais nada. Falei com o agente que me atendeu. Disse que estava longe, que estava preocupada, que achei o meu pai nervoso e que ele estava numa rotunda. Eu nunca fui ao Marco de Canaveses. Não conseguia dizer mais nada. Foram impecáveis. Descansou-me. Encontraram a rotunda. Ajudaram em tudo.

Há uma tendência para se falar mal dos agentes da autoridade. Eu, em modo-chata e em modo-filha, só posso dizer bem. Ajudam. Preocupam-se. Aceitam a crítica.

sexta-feira, 31 de março de 2017

crise de valores


 Um homem deu parte do seu fígado à sua filha. Para isso ausentou-se do trabalho para realizar a intervenção cirúrgica. Quando regressou tinha uma carta de despedimento. Nela, a sua entidade patronal dizia que assim teria mais tempo para cuidar da sua prole. A matriz primária do ser humano contínua intacta, mesmo que mergulhados em pleno século XXI.

 Mais do que uma crise económica vivemos uma gravíssima crise de valores. Não é difícil perceber isto. Basta estarmos atentos a esta chafarica. E estarmos atentos ao nosso dia-a-dia. Ao que se passa em nosso redor. Nunca uma sociedade viveu tão informada, tão indignada, mas e o resultado disso? Sabem?

Se por um lado estamos informados, por outro a velocidade com que as noticias nos caem ao colo leva a que passemos de indignação para indignação sem grande atenção ou profundidade.

Um homem perdeu o emprego para dar vida à sua filha. Indignamo-nos. Logo de seguida chega um atentado. Indignamo-nos. Depois chega mais um resgate a um banco onde temos conta e temos medo, indignamo-nos. Isto no prazo de um dia. A indignação da sociedade poderia levar a algumas mudanças, mas já nem indignarmo-nos conseguimos fazê-lo com reflexos, com propósito. E depois precisamos de aligeirar a vida. Basta um busto mal atamancado e a coisa faz soltar o riso. Eu também me ri. Aquilo está feio como tudo. Mas depois penso que foi um rapaz desempregado que o fez em 15 dias. Há aqui um certo mérito. Ou um desmérito que me apela aos sentidos. Lembram-se de uma escultura que o Cavaco Silva inaugurou algures a meio da A1 e que foi um balúrdio? E é um pilarete, ao alto, que quando bate o sol temos de colocar os óculos de sol para não nos encadearmos e enfiarmos o carro na traseira de um camião. Não houve grande indignação. E já agora que falamos no Cavaco Silva, se ele escrevesse um livro de memórias patrocinado pelos mesmos que patrocinaram o do Sampaio? Ui, imagino a indignação que seria. Assim foi só uma mini-indigação.

Saltamos de indignação em indignação com a leveza com que mudamos de roupa. Daqui a uns tempos não me lembrarei mais deste pai que, em Espanha, país pertencente a esta europa dos valores (cof cof), foi despedido. Terei outra indignação. Ou mais duas. Ou três. Que descartarei sem problema.

Falam da crise económica, mas vivemos uma outra bem mais grave e perniciosa. A dos sentidos e dos valores.

quinta-feira, 30 de março de 2017

dia 30 de março 2017




Se me pudessem ver daí para aqui, viam-me perfeitamente encolhida, livro sobre o peito, computador sobre as pernas e estas encolhidas porque sustêm a minha filha que adormeceu. Estamos as duas no sofá, semi encolhidas e eu mal respiro para não a acordar. Tenho uma panela com água, sal e azeite ao lume à espera de receber uma massa. E deve borbulhar à espera que eu faça alguma coisa, mas estou encolhida e não me mexo para a minha filha não acordar. Ouço daqui a água a saltar. Mantenho-me aqui de pernas encolhidas. Há pouco, quando lia Aulas de Literatura de Julio Cortázar, passava as páginas com uma calma sem precedentes, sem barulho, numa suavidade que até me permitia ouvir o bater do meu coração. Tirei o som ao telefone. Tirei o som à TV. Se tivesse música em casa, apenas se ouviria um Tom Waits, nada mais. E a respiração dela pesada e a minha o mais leve possível para não a acordar. A agua a borbulhar ouve-se aqui, na sala.

Tenho tanto para vos contar! Ontem comprei este livro de que vos falei e hoje trabalhei cada segundo com ele na cabeça. Queria ter a possibilidade de em vez de ter ido para o trabalho ter feito um desvio para um canto e consumi-lo com gana. Este é um livro oral, baseado nas aulas que Cortazar deu em 1980 numa universidade Americana. Então, sendo a transcrição das suas aulas, primeiro quis ouvir a sua voz numa entrevista que deu e que está no youtube; depois, munida do seu tom, do seu timbre, comecei a ler e a magia deu-se: parece que ele está no meu ouvido a dar-me as aulas sobre o que é um conto, o que é um romance, o amor que tinha por Borges (quem não tem?) e de como no seu tempo de jovem ainda não sabia que a missão de um escritor ‘ que é além disso um homem, tinha de ir muito para lá do mero comentário ou da mera simpatia dos grupos combatentes’, ele refere-se à política mundial. Penso que hoje a coisa também deveria ser assim…

Ontem fui fazer um workshop de risoto. É uma luta, percebem? A primeira vez que comi estava em Itália na minha Florença. Não gostei. Tinha ido com uma amiga. nessa noite ela declarou-se. nem sempre o amor é belo, às vezes é incomodo. desconfortável. não desejado. Demorei a voltar a tentar comer risoto. A segunda vez, foi num pequeno restaurante à parte de baixo da minha antiga casa, adorei. ficou 1-1 no marcador. E foi sempre assim: oscilar entre gostar e detestar. Quis ir à luta. Foi ontem, entre uma boa conversa com a minha amiga T e um bom vinhinho, sinto que ganhei vantagem. Percebem? O problema é que ele exige tempo e paciência. Na verdade o tempo mede-se facilmente: 16 minutos. A paciência não se mede: ou se tem ou não se tem.

Receio que a água evapore e eu fique aqui, cheia de cãibras para que a minha Maria não acorde e a panela queime. Se assim for, paciência. 
o meu risoto de cogumelos e espargos

O raio do livro é caro para caramba, mas vale a pena.

segunda-feira, 27 de março de 2017

Aquárius é mais do que um filme


 
O filme começa com uma festa em que uma senhora, tia da protagonista, faz 70 anos. A família está reunida na sala e os miúdos mais novos prepararam um discurso em honra da tia e começam a debita-lo. A tia, uma mulher de cabelos prateados, bonita, serena, olha para todos comovida com o que vai ouvindo. De repente pousa os olhos numa cómoda e nesse preciso momento recorda-se do minete que o seu companheiro, o amor da sua vida lhe fez, exatamente com ela em cima dessa cómoda. Esse móvel, que podia ser um outro objeto qualquer, é como que um objeto que rompe com o tempo, que carrega memória. Nessa cena, vê-se uma mulher ainda nova, um homem, e toda a arte do amor atinge a tela. De barulho de fundo está a voz dos miúdos a tecerem os elogios à tia que vai sorrindo à medida que o seu cérebro lhe devolve o sexo, o prazer. É assim que começa o filme Aquarius, um filme brasileiro que conta com Sónia Braga no principal papel.

A sala de cinema estava cheia e eu era a mais nova. O filme deve fazer parte de alguma brochura com sugestões de lazer para seniores. Ao meu lado uma senhora com cerca de 70 anos que, na cena de abertura, encostou-se de tal forma que a minha cadeira abanou. Percebo… é sempre bom sabermos que a geração dos nossos pais e avós também fizeram exatamente aquilo que nós achamos que só nos fazemos. Que só nós é que somos loucos e libertos e sem tabus… tretas.

O filme mostra uma Sónia Braga de 65 anos, com todas as rugas a que tem direito e ainda uma certa beleza, viúva, com três filhos, a viver o que lhe resta da vida entre um bom vinho, um charro e a sua família e amigos numa casa que sempre foi a sua casa. Aqui reside o problema, já todos os vizinhos venderam os respetivos apartamentos para que fosse construído, no lugar, um belíssimo terreno frente à praia, um empreendimento de luxo. Mas Sónia Braga (Clara no filme), não lhe interessa o dinheiro, aquelas paredes testemunharam o crescimento dos filhos, a relação com o seu marido, a sua luta contra o cancro da mama,  e como tal resiste. O que é que este filme tem de tão especial? Tudo. Para além de nos mostrar que a vida não acaba quando atingimos determinada idade (é sempre bom sabermos disso), que há sentimentos e vontades que acompanham a nossa time-line. Mas se me perguntarem que cena levei para casa, não foi o sexo desenfreado, não, nem o facto de me rever numa mulher que ouve musica enquanto bebe um bom vinho (coisa que faço amiúde), mas a cena em que ela engata um viúvo algures numa festa. Vão para o carro e começam a beijar-se. Ele coloca a mão sobre o peito dela e ela, docemente e sem tabus, diz que teve cancro e que tinha tirado esse peito e tenta colocar a mão no outro. Ele, nesse momento, de forma educada mas tensa, retrai-se. Percebe-se que esmorece e, cobardemente, diz: ‘você é uma mulher muito interessante, mas preciso levá-la a casa’. Ele não aguenta lidar com uma mulher mastectomizada. Não tem mais tusa. Ela não lhe interessa mais. Ela sorri com um certo sarcasmo e apanha um táxi para casa, sozinha. Chega a casa e vê-se a cómoda, sempre a cómoda e todos os seus lp’s (ela foi jornalista musical) e a música de Maria Betânia a entoar no filme e em nós. Abre uma garrafa de vinho e deita num copo, põe uma música e dança, dança para ela, para a vida, para nós.

Há filmes que só se permite não se ver se não soubermos que existem. Deste já vos dei conta.



quinta-feira, 23 de março de 2017

vamos parar o mundo?



Daqui não se percebe mas quando tirei esta fotografia estava num restaurante pequeno, quente, com uns belíssimos quadros de gente gordinha e feliz e comer. Foi aqui que comi o melhor risotto e bebi um vinho branco floral com calma e preceito. Não fiz contas à vida que a vida tem-me trocado as voltas, apenas parei o mundo. Parei o meu mundo. Fiquei em silêncio a olhar o céu azul típico das noites frias. Se calhar o segredo para se seguir em frente é este: não olhar para trás. Não fazer contas. Não esperar resultados. Parar o mundo. Parar.