Páginas

segunda-feira, 24 de abril de 2017

Meu querido Rui Reininho

«Disse numa entrevista que esteve a meio metro de se tornar um grande bicha, isso seria assim tão mau?

Estive a menos, talvez a uns 20 cm, porque tinha um grupo de amigos que frequentavam as mesmas zonas ( não erógenas) que eu e que eram muito bichas. Gente muito gira. Aqui há tempos encontrei um deles que é funcionário público e que me disse ‘olha, eu já estou reformado’, e eu perguntei-lhe ‘mas continuas a ser um grande bicha?’ ao que ele me respondeu ‘isso sim, claro!’. Gosto dos bichas porque, por norma, são bem-dispostos, desempoeirados. Tenho bons amigos bichas'. »

Rui Reininho na entrevista que acabou de me dar para o 30Dias. Não leem as minhas entrevistas e depois queixam-se que não há coisas giras a acontecer no mundo.

sábado, 22 de abril de 2017

A cozinha da minha mãe

Na cozinha da mãe há uma mesa antiga e grande no meio. Nela preparamos a comida. Nela comemos. Nela existe uma fruteira sempre a abarrotar com as melhores frutas. É um género de uma ilha mas mais bonita, densa, forte, antiga. Nela colocamos o café que a minha mãe faz. O melhor café do mundo. Mais importante, é onde nos juntamos todas: eu, mae, sobrinha, tia Palmira e tia ana. Contam-se histórias. Contam-se fofocas. Partilha-se o adn da forma mais bela: com olhares e palavras. Aqui picava os alhos para o cabrito da Páscoa. Sei que minha mãe fazia um arroz de feijão. A minha filha fazia um puzzle. Minha sobrinha tirava fotos. Olho e sei a que cheirava a cozinha nessa exata hora. E mesmo longe, o que esta fotografia me traz é um certo conforto.


sábado, 15 de abril de 2017

Dos meus dias

O Na lentidão da tarde esparramo- me num livro de Afonso Cruz. Parece pequeno. Parecem poucas paginas. Mas diz tanto em tão pouco, é tão denso e interessante, que o pouco é muito e a quantidade é a que conseguimos suportar. Tão bom! 



quinta-feira, 13 de abril de 2017

O meu pai

O meu pai nunca foi de falar muito. E eu sempre lhe tentei chegar. Sempre. Quando era miúda, deitávamo-nos no terraço nas quentes noites de verão a olhar o céu. Só falávamos quando um de nós via uma estrela cadente. Só queria ver as estrelas para o ouvir. Havia noites em que nem uma aparecia. Ontem ele estava a comer uma maçã no beiral das escadas que dão para a cozinha. Sentei-me ao seu lado. Sem saber o que dizer, disse:

- esta macieira está cheia de flores. Vai dar muitas maçãs. 

E ele pergunta:

- esta quê?

Foi a ânsia de Meter conversa que me fez escorregar na ignorância. Olhei melhor para a árvore. Olhei para as folhas. Remendei:

- enganei-me, queria dizer esta laranjeira.

Já não respondeu. Semi sorriu. Afinal a urbe e a cidade ainda não engoliu a filha. Ainda consigo descortinar as árvores de fruto. Menos mal. Sim, ainda sou uma miúda da aldeia que se atreve a viver na cidade.

Velharias

Vou-me descobrindo de cada vez que regresso a casa dos pais. Percebo o meu gosto por velharias. Percebo porque ando sempre à cata de loucas de outrora. Vivi com o passado encostado ao presente. Aqui está um pormenor da cozinha dos meus pais.


quinta-feira, 6 de abril de 2017

PSP do meu coração


Há uns anos vivia num apartamento que tinha por vizinho uma esquadra da PSP. A esquadra da PSP era virada para um pátio, pátio este para onde era virada a janela do meu quarto. Em algumas noites, os agentes que estavam de serviço, iam fumar e conversar para esse mesmo pátio. Por vezes, estavam numa conversa tão animada que eu tinha dificuldades em adormecer. Um dia, após ter acordado com o riso deles, furiosa e maldisposta (sou impossível com fome e com sono) visto o roupão e saio de casa e entro na esquadra dizendo que queria fazer uma queixa. O agente que me atende, super simpático, pega numa folha qualquer e começa a escrever o que lhe vou dizendo e pára quando percebe que a morada que estou a dar é a deles.

- Sim, vocês fazem tanto barulho que eu não consigo dormir. Quero fazer uma queixa a vocês sobre vocês.

Ele percebeu que eu espumava e, de forma inteligente, disse:

- Tem toda a razão. Queixa apresentada. Não voltará a acontecer.

Fui para casa, deitei-me e houve silêncio o resto da noite. No dia seguinte, achando que tinha exagerado, fui ter com eles e pedi desculpas afirmando a importância de eles darem o exemplo. Nunca mais ouvi barulho vindo do pátio deles. Hoje o meu pai teve um acidente no Marco de Canaveses. Ele queria ligar para a psp mas estava um pouco nervoso com tudo o que lhe tinha acontecido que me pediu, eu que estou em Oeiras, para ser eu a ligar. Deu-me apenas uma indicação: estou algures numa rotunda. Liguei para a psp de marco de canaveses com essa indicação: uma rotunda. Acredito que hajam muitas rotundas. Certamente existem. Mas eu não sabia mais nada. Falei com o agente que me atendeu. Disse que estava longe, que estava preocupada, que achei o meu pai nervoso e que ele estava numa rotunda. Eu nunca fui ao Marco de Canaveses. Não conseguia dizer mais nada. Foram impecáveis. Descansou-me. Encontraram a rotunda. Ajudaram em tudo.

Há uma tendência para se falar mal dos agentes da autoridade. Eu, em modo-chata e em modo-filha, só posso dizer bem. Ajudam. Preocupam-se. Aceitam a crítica.

sexta-feira, 31 de março de 2017

crise de valores


 Um homem deu parte do seu fígado à sua filha. Para isso ausentou-se do trabalho para realizar a intervenção cirúrgica. Quando regressou tinha uma carta de despedimento. Nela, a sua entidade patronal dizia que assim teria mais tempo para cuidar da sua prole. A matriz primária do ser humano contínua intacta, mesmo que mergulhados em pleno século XXI.

 Mais do que uma crise económica vivemos uma gravíssima crise de valores. Não é difícil perceber isto. Basta estarmos atentos a esta chafarica. E estarmos atentos ao nosso dia-a-dia. Ao que se passa em nosso redor. Nunca uma sociedade viveu tão informada, tão indignada, mas e o resultado disso? Sabem?

Se por um lado estamos informados, por outro a velocidade com que as noticias nos caem ao colo leva a que passemos de indignação para indignação sem grande atenção ou profundidade.

Um homem perdeu o emprego para dar vida à sua filha. Indignamo-nos. Logo de seguida chega um atentado. Indignamo-nos. Depois chega mais um resgate a um banco onde temos conta e temos medo, indignamo-nos. Isto no prazo de um dia. A indignação da sociedade poderia levar a algumas mudanças, mas já nem indignarmo-nos conseguimos fazê-lo com reflexos, com propósito. E depois precisamos de aligeirar a vida. Basta um busto mal atamancado e a coisa faz soltar o riso. Eu também me ri. Aquilo está feio como tudo. Mas depois penso que foi um rapaz desempregado que o fez em 15 dias. Há aqui um certo mérito. Ou um desmérito que me apela aos sentidos. Lembram-se de uma escultura que o Cavaco Silva inaugurou algures a meio da A1 e que foi um balúrdio? E é um pilarete, ao alto, que quando bate o sol temos de colocar os óculos de sol para não nos encadearmos e enfiarmos o carro na traseira de um camião. Não houve grande indignação. E já agora que falamos no Cavaco Silva, se ele escrevesse um livro de memórias patrocinado pelos mesmos que patrocinaram o do Sampaio? Ui, imagino a indignação que seria. Assim foi só uma mini-indigação.

Saltamos de indignação em indignação com a leveza com que mudamos de roupa. Daqui a uns tempos não me lembrarei mais deste pai que, em Espanha, país pertencente a esta europa dos valores (cof cof), foi despedido. Terei outra indignação. Ou mais duas. Ou três. Que descartarei sem problema.

Falam da crise económica, mas vivemos uma outra bem mais grave e perniciosa. A dos sentidos e dos valores.