domingo, 27 de agosto de 2017
Leite creme
Nada me restitui mais os domingos da minha infância do que um leite creme. Minha mãe fazia religiosamente após chegar a casa da missa domingueira. Trazia consigo a benção e a paz. Mexia com calma o creme que ia engrossando e aquecia o ferro velho e quase a chamar a ferrugem na labareda da lareira. Depois vinha o cheiro do açúcar queimado que alimenta a alma. Este vai para a minha vizinha da minha casa da árvore. Porque a D. Armanda tem aquele jeito de quem faz a diferença na sua família tal como a minha mãe faz na minha.
sábado, 5 de agosto de 2017
A arte da sedução
Fui com os putos ao circo que aterrou perto da praia. Ao lado do circo carrinhos de choque. Ambos quiseram andar. Fui comprar fichas. O moço que as vendeu tinha um ar gingão. Foi quando sorriu que vi que prendia o cigarro no espaço onde antes existia um canino. O cigarro ficava ali. Ele falava. Ria. Assobiava com o cigarro preso. Uma certa arte. O que interessa era o ar de vencedor. As miúdas riam-se para ele. Olham-no com interesse. Ele não lhes ligava muito. Tinha um ar superior. E o cigarro ali na boca a morrer lentamente. Começou o circo. O Aníbal que mostrava as habilidade com o diablo era o mesmo. Agora de fato de cetim preto, Justo. Gel no cabelo. Mandava o diablo para o ar e apanhava-o na corda. Imagino que um dia o diablo tenha caído sobre si deitando por terra o canino. Perder dentes na arte circense mostra valentia. Está explicado o ar de herói e a rendição das miúdas.
quinta-feira, 3 de agosto de 2017
quarta-feira, 28 de junho de 2017
eu ao volante
Sabem aquela altura em que chegas a um cruzamento e do outro lado também se aproxima um carro com uma senhora e Olhamos uma para a outra na certeza porém que nenhuma sabe quem tem a prioridade? Sorri e indiquei que podia passar. Ela faz o mesmo. ficamos paradas a olhar uma para a outra. Insisti para ela avançar. Ela avançou e disse adeus. Adoro quando as duvidas acabam em bem.
domingo, 25 de junho de 2017
O meu sofá
A lotação no meu sofá está lotada. Elas escrevem as tendências deste verão. Uma diz que são as calças rotas e a outra diz que são os vestidos com folhos. Sobre as pessoas que gostavam que batessem à porta, uma queria a Ana Montana e a outra a Cristina Ferreira. E a música que mais gostam, varia entre um Jose Cid, david Bowie e o despacito. Há sítios espetaculares por este mundo fora, mas em nenhum há um sofá com este.
sexta-feira, 16 de junho de 2017
Lagos do meu coração
Estar com a minha filha. Beber um copo com a S. Falarmos de tudo e de nada. Não ter horas para nada. Dormir muito. Comer pouco. Nadar até querer ver Marrocos. Ir ao mercado de Lagos ver dos peixes mais belos que já vi. A arte pública ao alcance de todos. Apanhar conchas. Muitas. Ansiar pelo senhor das bolas de Berlim com a mesma gana que esperava os namorados quando era uma adolescente. Tudo isto me ajuda voltar a ser alguém com o riso fácil.
Estes dias valem ainda mais do que as fotografias querem fazer valer.
quinta-feira, 8 de junho de 2017
a casa da árvore 1
Aluguei a casa a um senhor ‘de
palavra’. Daqueles que ‘assino o contrato porque agora se faz assim, mas a
minha palavra é só uma’. Um homem que sendo mais velho que o meu pai tem, tal
como ele, aquela forma de ser que nos dá confiança. Não há ali a mínima dúvida
de caracter. Não há como facilitar naquilo que diz. De cabelo branco e olhos
nos olhos, explica-me as regras. E eu confio. E eu podia não ter assinado o
contrato. Sei de que massa ele é feito. E estranho. Estranho porque das mil
casas que vi, da quantidade de senhorios possíveis com que me deparei, em
nenhum vi aquele caracter. Aquele olhar. Aquela força que só alguns homens
possuem. ‘Homens de antigamente’, dizia-me uma amiga. Sim, é isso. E é pena que
seja isso. Que hoje não encontremos mais exemplares destes na malta da minha
idade, ou nos mais novos, ou nos mais velhos. Há-os. Mas poucos.
E sim, vou mudar-me para A Casa
da Árvore.
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