Páginas

quarta-feira, 9 de maio de 2018

vidas


 A minha amiga A está chateada porque um dos tipos com que anda lhe rasgou as cuecas que ela mais gostava. Diz que foi difícil desligar-se desse facto enquanto fodiam;

A minha amiga M andava há uma semana a receber sms de 'bom dia princesa', 'boa noite anjo' ( uma mulher só aguenta esta merda porque anda carente), imagens sem fim de pratos de arroz e pequenos almoços (manias), imagens dele com o filho, musicas e mais um sem fim de ligações que mostram um certo interesse de um tipo por quem ela se começava a interessar e que conheceu nas redes sociais. Ontem, enquanto trocavam mensagens, ela perguntou-lhe há quanto tempo ele estava sozinho, ao que ele lhe respondeu: mas eu tenho uma companheira.

A minha amiga D está com um tipo que lhe prometeu casamento, filhos, lua-de-mel em Paris, mimos a toda a hora e sms cheios de amor. Ao fim de meia dúzia de meses os sms resumem-se a 'o que queres que leve do supermercado?'. E os minetes começam a escassear.

A E anda com um tipo lá no trabalho que lhe diz que a ama, que a adora, que ela é a mulher da vida dele. Precisa apenas de tempo para deixar a legítima. Anda nisto há dois anos. Ela tem a  certeza que está quase.

Eu queria chegar a casa, abrir um vinho branco fresco, comer um queijo e uvas mas dei por mim a encharcar-me de bolachas sem o mínimo interesse nutricional.

terça-feira, 9 de janeiro de 2018

Obituário )s)





Este obituário que saiu nos jornais brasileiros aquando da morte do jornalista Carlos Heitor Cony é, talvez, o mais belo de todos os obituários. O que se dizer quando a morte deixa um vazio? Nada. E é este assumir que, afinal, há quem seja verdadeiramente insubstituível que me deixa comovida. E quando as palavras são insuficientes por que não se assumir que o Homem não conseguiu criar um vocabulário que tudo explique? Que tal deixarmos cair a caneta e pendermo-nos para o vazio com o peso da morte?

quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

Seres gregários


 Em 1971, a Universidade de Stanford, quis levar a cabo uma experiência e para tal criou uma prisão fictícia onde 24 alunos, amigos entre si, se voluntariaram, metade para serem prisioneiros e a outra metade para serem os carcereiros. Eles foram escolhidos de forma aleatória. Os presos foram vestidos com uniformes típicos da prisão, foram tratados por um número, ou seja, destituídos de parte da sua personalidade. Os carcereiros tinham o papel de vigiarem os presos. A experiência teve de ser interrompida ao fim de seis dias porque os carcereiros começaram a ter atitudes sádicas, de verdadeiros carrascos. Os presos, mesmo os que eram mais afoitos, começaram a adquirir atitudes de profunda submissão. Esta experiência mostrou que o poder do grupo, o corporativismo, o que nos rodeia é tão forte que, muitas das vezes, aniquila a ética e muitas das normas adquiridas socialmente. O Homem é um ser gregário e influenciável. Lembrei-me disto por causa do R. Ele é dos mais críticos aqui no Facebook. Conheço-o bem. Fomos amigos longos anos. Conheci-o na faculdade. Em anos passados, frequentou a minha casa. É um feroz defensor da honestidade. Os políticos são todos uns corruptos, na sua boca. Critica o corporativismo, diz que é um meio cheio de vícios sem vislumbres de virtudes. Este país assim não vai lá, está sempre a dizer. Devíamos por os olhos na Suíça e na Suécia. Ali pagam-se impostos mas vê-se para onde são canalizados, dizia a miúde. Estamos rodeados de uma variadíssima cambada de desonestos em todas as áreas da sociedade. E lembro-me do dia em que vendi a minha casa e foi ele, mediador imobiliário, quem me fez o negócio. Vendi a casa a uma moça. Um dia, ele convidou-me para um café. Queria acertar uns pormenores do negócio. Vivia em Carnaxide e combinamos ali no Centro Cívico. Explicou-me que era o pai da moça que iria dar-lhe o dinheiro para a casa. Queria que o negócio fosse escriturado por um valor inferior e o restante era dado em dinheiro vivo. Explicou-me, como quem está habituado a essas lides, como poderia fazer com a sua comissão. Também seria, parte dela, paga em notas vivas. ‘Carla, não te preocupes que isso não te traz problema algum. Isto está sempre a acontecer. Temos de ser espertos senão somos engolidos’. Perguntei-lhe pela sua honestidade. Sorriu de forma nervosa. Não fizemos negócio. Sei bem por que motivo serei sempre uma remediada. Já ele, continua a mandar farpas na sua pagina e eu sorrio sempre que leio o escreve.

segunda-feira, 30 de outubro de 2017

Trompete

Há duas noites que o som de um trompete rasga a noite. Não é o som de quem toca na perfeição. Mas é de quem quer tocar na perfeição. Não percebo de onde vem. O som espalha-se pela noite, deambula pelos telhados, bate nas janelas. Assim que o ouço tímido a pedir socorro, abro as minhas janelas de par em par. Fecho os olhos e sinto cada nota a tomar o seu lugar no espaço que circunda a minha casa. Depois pára. De seguida retoma. Insiste na mesma música. Às vezes nota-se uma leve melhoria. Na maioria das vezes, os erros são os mesmos. Mas eu gosto. Faz-me companhia. Quem toca não adivinha o bem que me faz. Nem sabe que eu existo. Parte da beleza da vida é esta: darmos-nos ao outro, um o outro que não sabemos que existe.

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

1º dia de aulas


Primeiro dia de aulas a sério. O professor disse, olhando para a turma de meninos com medo de crescerem: 'vocês são os melhores e os maiores. Que nunca ninguém vos tente mostrar o contrário. O que quiserem fazer, serão capazes de o fazer e capazes de o fazer bem'. Todos sabemos o poder que a auto-estima tem. Se ela acreditar nela, será capaz de açambarcar o mundo com as pernas.
Filha, não pretendo que sejas a melhor, que o teu nome esteja no pernicioso quadro de honra, apenas desejo que dês o teu melhor e que percebas que a vida é mais fácil quando levada com alegria e com um certo desarrumo mental. Força amor




domingo, 27 de agosto de 2017

Leite creme

Nada me restitui mais os domingos da minha infância do que um leite creme. Minha mãe fazia religiosamente após chegar a casa da missa domingueira. Trazia consigo a benção e a paz. Mexia com calma o creme que ia engrossando e aquecia o ferro velho e quase a chamar a ferrugem na labareda da lareira. Depois vinha o cheiro do açúcar queimado que alimenta a alma. Este vai para a minha vizinha da minha casa da árvore. Porque a D. Armanda tem aquele jeito de quem faz a diferença na sua família tal como a minha mãe faz na minha.


sábado, 5 de agosto de 2017

A arte da sedução

Fui com os putos ao circo que aterrou perto da praia. Ao lado do circo carrinhos de choque. Ambos quiseram andar. Fui comprar fichas. O moço que as vendeu tinha um ar gingão. Foi quando sorriu que vi que prendia o cigarro no espaço onde antes existia um canino. O cigarro ficava ali. Ele falava. Ria. Assobiava com o cigarro preso. Uma certa arte. O que interessa era o ar de vencedor. As miúdas riam-se para ele. Olham-no com interesse. Ele não lhes ligava muito. Tinha um ar superior. E o cigarro ali na boca a morrer lentamente. Começou o circo. O Aníbal que mostrava as habilidade com o diablo era o mesmo. Agora de fato de cetim preto, Justo. Gel no cabelo. Mandava o diablo para o ar e apanhava-o na corda. Imagino que um dia o diablo tenha caído sobre si deitando por terra o canino. Perder dentes na arte circense mostra valentia. Está explicado o ar de herói e a rendição das miúdas.