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segunda-feira, 14 de maio de 2018

mulheres inteligentes e sortudas


O major Valentim Loureiro diz que a mulher é inteligentíssima. E justifica a afirmação por esta, após ter conhecimento que ele tinha uma outra mulher da qual tinha dois filhos, passou a convidar estes para jantarem 'lá em casa' às sextas. Percebo que a inteligência dela o encante. Isto faz-me lembrar uma moça que vivia perseguida pelo marido profundamente ciumento e obsessivo onde os limites eram, inúmeras vezes ultrapassados. Um dia ela disse-me: ‘poucas pessoas entendem a nossa relação e não entendem por inveja. As pessoas gostavam de ter alguém que as amasse como eu tenho. Ele é assim porque me ama e eu sou um sortuda’. A inteligência de uma é semelhante à sorte da outra. Muitas das vezes o que vemos mais não é do que aquilo que queremos ver.   

sábado, 12 de maio de 2018

O bolo

Este tem sido o bolo dos grandes festejos: casamentos, batizados e aniversários. A receita é mais antiga do que eu, o que a torna jurássica, e isso obriga-me a um respeito imenso. Desta vez fi-lo com a ajuda da minha filha. Aos poucos vou-lhe passando esta responsabilidade. Porque é isso que uma receita que passa de geração em geração é: um legado que exige respeito. 





sexta-feira, 11 de maio de 2018

A chegada a casa

Gosto do sítio. Gosto das pessoas. Gosto do verde e gosto desta sensação de que a cidade fez as malas e partiu para parte incerta. Quando aqui chego, reposiciono-me. Respiro fundo e espero a bonança que o lugar me dá. Ajuda o ela também gostar de por aqui cirandar. Não são as casas que importam, mas o lugar e as pessoas que as circundam. E, naturalmente, quem as habita.






quinta-feira, 10 de maio de 2018

Paris


Já tinha ido a Paris há uns 20 anos. Gostei mas não fascinei. A estadia foi curta e retenho mais a animação que levava no corpo do que aquilo que a cidade me fez sentir. Olhando para trás, é como se estivesse numa outra cidade.

Agora voltei. Voltei com uma amiga, a minha filha e a filha desta. A ideia era irmos com as miúdas à eurodisney e fomos mas sobre isso falo numa outra altura), mas quisemos aproveitar e dar uma volta pela cidade. Não sei se foi de tudo o que já vivi. Não sei se foi da fase em que estou. Não sei se os astros estavam alinhados ou se a lua estava particularmente amorosa, só sei que a cidade entrou em mim como um leve nevoeiro e , cá dentro, fez-se denso. Calei perante as ruas que se deparavam à minha frente. Compramos um bilhete para andarmos num daqueles autocarros sem teto. ‘vamos ficar com uma ideia da cidade’, justificamos. Meti os fones nos ouvidos e coloquei em modo francês. Não, nada sei de francês, mas a sonoridade, a música de Piaf por detrás, fizeram-me tudo entender sem, no entanto, nada ter percebido. O Sena serpenteia sussurrando qualquer coisa de perfeitamente audível. É um convite a mergulhar. É um convide a olha-lo e, ao fazê-lo, passam pela cabeça a memória de amores idos. É como que uma catarse. As ruas cheias de esplanadas no mais direto convite ao ócio, à volúpia, ao deleite… há muito vinho em cima das mesas, quase tanto como cerveja neste nosso país. Só isso me deu logo uma vontade imensa de me mudar para lá umas temporadas. Depois, sei lá, é o ar, percebem, a atmosfera, é aquilo que não se conta mas que se sente que faz daquela cidade a cidade que quero, antes de todas outras, voltar e conhecer.
Acredito, no entanto, que também pode ser uma cidade-filho-da-puta, se não estivermos fortes, consistentes. Uma dor de amor em Paris dói mais ainda. 

Pensei muito no impacto que ela me causou. Parece-me que para se entender Paris temos de já ter amado, vivido, desamado, sofrido, caído, levantado, esmorecido, arrebitado, fodido… talvez por isso a cidade nada me tenha dito aos 20 anos.  

quarta-feira, 9 de maio de 2018

vidas


 A minha amiga A está chateada porque um dos tipos com que anda lhe rasgou as cuecas que ela mais gostava. Diz que foi difícil desligar-se desse facto enquanto fodiam;

A minha amiga M andava há uma semana a receber sms de 'bom dia princesa', 'boa noite anjo' ( uma mulher só aguenta esta merda porque anda carente), imagens sem fim de pratos de arroz e pequenos almoços (manias), imagens dele com o filho, musicas e mais um sem fim de ligações que mostram um certo interesse de um tipo por quem ela se começava a interessar e que conheceu nas redes sociais. Ontem, enquanto trocavam mensagens, ela perguntou-lhe há quanto tempo ele estava sozinho, ao que ele lhe respondeu: mas eu tenho uma companheira.

A minha amiga D está com um tipo que lhe prometeu casamento, filhos, lua-de-mel em Paris, mimos a toda a hora e sms cheios de amor. Ao fim de meia dúzia de meses os sms resumem-se a 'o que queres que leve do supermercado?'. E os minetes começam a escassear.

A E anda com um tipo lá no trabalho que lhe diz que a ama, que a adora, que ela é a mulher da vida dele. Precisa apenas de tempo para deixar a legítima. Anda nisto há dois anos. Ela tem a  certeza que está quase.

Eu queria chegar a casa, abrir um vinho branco fresco, comer um queijo e uvas mas dei por mim a encharcar-me de bolachas sem o mínimo interesse nutricional.

terça-feira, 9 de janeiro de 2018

Obituário )s)





Este obituário que saiu nos jornais brasileiros aquando da morte do jornalista Carlos Heitor Cony é, talvez, o mais belo de todos os obituários. O que se dizer quando a morte deixa um vazio? Nada. E é este assumir que, afinal, há quem seja verdadeiramente insubstituível que me deixa comovida. E quando as palavras são insuficientes por que não se assumir que o Homem não conseguiu criar um vocabulário que tudo explique? Que tal deixarmos cair a caneta e pendermo-nos para o vazio com o peso da morte?

quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

Seres gregários


 Em 1971, a Universidade de Stanford, quis levar a cabo uma experiência e para tal criou uma prisão fictícia onde 24 alunos, amigos entre si, se voluntariaram, metade para serem prisioneiros e a outra metade para serem os carcereiros. Eles foram escolhidos de forma aleatória. Os presos foram vestidos com uniformes típicos da prisão, foram tratados por um número, ou seja, destituídos de parte da sua personalidade. Os carcereiros tinham o papel de vigiarem os presos. A experiência teve de ser interrompida ao fim de seis dias porque os carcereiros começaram a ter atitudes sádicas, de verdadeiros carrascos. Os presos, mesmo os que eram mais afoitos, começaram a adquirir atitudes de profunda submissão. Esta experiência mostrou que o poder do grupo, o corporativismo, o que nos rodeia é tão forte que, muitas das vezes, aniquila a ética e muitas das normas adquiridas socialmente. O Homem é um ser gregário e influenciável. Lembrei-me disto por causa do R. Ele é dos mais críticos aqui no Facebook. Conheço-o bem. Fomos amigos longos anos. Conheci-o na faculdade. Em anos passados, frequentou a minha casa. É um feroz defensor da honestidade. Os políticos são todos uns corruptos, na sua boca. Critica o corporativismo, diz que é um meio cheio de vícios sem vislumbres de virtudes. Este país assim não vai lá, está sempre a dizer. Devíamos por os olhos na Suíça e na Suécia. Ali pagam-se impostos mas vê-se para onde são canalizados, dizia a miúde. Estamos rodeados de uma variadíssima cambada de desonestos em todas as áreas da sociedade. E lembro-me do dia em que vendi a minha casa e foi ele, mediador imobiliário, quem me fez o negócio. Vendi a casa a uma moça. Um dia, ele convidou-me para um café. Queria acertar uns pormenores do negócio. Vivia em Carnaxide e combinamos ali no Centro Cívico. Explicou-me que era o pai da moça que iria dar-lhe o dinheiro para a casa. Queria que o negócio fosse escriturado por um valor inferior e o restante era dado em dinheiro vivo. Explicou-me, como quem está habituado a essas lides, como poderia fazer com a sua comissão. Também seria, parte dela, paga em notas vivas. ‘Carla, não te preocupes que isso não te traz problema algum. Isto está sempre a acontecer. Temos de ser espertos senão somos engolidos’. Perguntei-lhe pela sua honestidade. Sorriu de forma nervosa. Não fizemos negócio. Sei bem por que motivo serei sempre uma remediada. Já ele, continua a mandar farpas na sua pagina e eu sorrio sempre que leio o escreve.