sábado, 23 de junho de 2018
segunda-feira, 11 de junho de 2018
Vai um manjerico?
Quando era miúda o meu pai levava-me, todos os anos, a Vila Real, ao São João. Por um motivo que me ultrapassava, para além de uma fartura e voltinhas nos carrosséis, ele dava-me um vaso com manjericos que morriam, invariavelmente, nos dias consequentes. Primeiro diziam que morriam porque os cheirava. No ano seguinte já não os cheirava embora não entendesse o motivo de uma flor cheirar tão bem e depois não lhe poder meter o nariz. Morriam na mesma. Diziam que era porque lhes tocava com afinco. No outro ano apenas lhes tocava com leveza. Morriam. Então era porque deitava água a mais. Depois era água a menos... o que importa é que todos os anos, no São João, lá íamos até à cidade comer umas farturas, beber um sumol e regressava a casa sempre de espírito animado e com um vaso de manjericos. Hoje fui à feira inserida nas festas populares de Oeiras. A minha filha andou de carrossel, comemos uma fartura e comprei-lhe um manjerico. Fi-lo sem pensar muito. Só quando a vi com o vaso na mão cheia de cuidados é que viajei no tempo. Vi-me pequena novamente. Olhei para todo o recinto das festas com um olhar infantil, assoberbado, cheio de espanto. Há uma certa magia quando nos sentimos filhas naquilo que fazemos enquanto mães. Há mesmo.
quinta-feira, 7 de junho de 2018
Antes das nove
O café tem apenas duas mesas corridas. Sento-me numa. Sou apenas uma numa mesa com seis lugares. Chega uma senhora. Pergunta se pode sentar-se numa das cadeiras livres. Digo que sim. Senta-se e folheia um jornal gratuito dos vários que existem na mesa. Depois chega um senhor. Senta-se numa outra cadeira. Saca do record. Chega um casal. A mesa está quase cheia. Ninguém fala. Somos estranhos a partilhar uma mesa. Tiro o meu Octaedro de Júlio Cortázar. O senhor do jornal olha para o meu livro. Olha de seguida para mim. Sinto que me vê pela primeira vez. Diz: ‘esse é um grande escritor’. Sorrio. Depois olha para uma página onde está o Bruno de Carvalho e diz-me: e este é um grande maluco!’ A senhora levanta os olhos do seu jornal e afirma com um tom demasiado alto para esta hora da manhã: ‘Não é não, isto é tudo culpa dos benfiquistas e da comunicação social. Por causa de um post no Facebook fazem uma coisa destas ao homem? Valha-me Deus! Ainda por cima tem uma bebé pequenina...’. Nunca fui boa a argumentar com pessoas que vivem num planeta diferente do meu. Nada digo. Coloco os olhos no meu livro. Ela não se cala: ‘e aquele maluco lá de cima que anda com a brasileira, deixa de andar com a brasileira, volta a andar com a brasileira, deixa de andar, volta a andar e ninguém diz nada? Nota-se que é descompensado. Um velho daqueles com uma miúda, isso sim, mostra bem a maluqueira do animal, mas desse ninguém fala! Aquilo só lá vai com viagra e isso só faz mal ao cérebro.’ Ninguém lhe responde. Ela suspira. Está, nitidamente, irritada. Mais ainda por ninguém lhe responder. Ela insiste uma e outra vez. Os argumentos não se elevam. São rasteirinhos. A dada altura a senhora do casal que entrou dispara: sabe porque motivo o Trump ganhou? E ganhou democraticamente e é igual aquela maluco da coreia que já nasceu com o cu na cadeira do poder? Sabe? Sabe? Porque há pessoas como a senhora que são completamente burras!’ Silêncio. Cada um voltou aos seus pensamentos, à sua vida. Ninguém disse absolutamente mais nada. E eu sinto que já tive a minha dose de futebol e política diária ainda antes das 9 da matina.