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segunda-feira, 18 de outubro de 2010

E ela morreu.

Há um ano, mais ou menos, ela recebeu-me na sua casa em Sintra com vista para a serra. Tinha à minha espera doce caseiro e bolachas de água e sal. O motivo era falar-me do seu pai para um trabalho que estava a fazer. Nunca nos tinhamos visto e nunca nos voltamos a ver. Foi uma tarde intensa, bela, cumplice. Depois apareceu a filha que ficou ali, do alto dos seus 14 anos a ouvir a mãe falar daquele avô que nunca conhecera. Perdi a noção das horas e ela perdeu a noção de estar com uma estranha e desnudou-se. Era uma mulher bela, cabelos claros, cheia de pulseiras e com um grande anel que o pai lhe oferecera há mais de 20 anos e que se recusava a tirar até no banho. Falou por ela e pelos irmão (muitos). Falou pela mãe já doente algures na Beira-Alta. E deslizamos para as nossas vidas. Falamos de nós. saí de lá cheia. Plena. Com o meu gravador repleto e lembro-me de ao entrar no carro não conseguir, sequer, ouvir musica porque queria-me ainda a destilar tudo quanto ouvira.

Há tres semanas recebi um email de uma sua irmã. Ela estava doente e gostava de ver o trabalho do seu pai que, não me perguntem porquê ainda não tinha saido, antes de falecer. Fiz tudo. Telefonemas. Email. Sms. Sinais de fumo e pedidos quase de joelhos. Consegui o que ela queria na sexta. Mandei. Recebi um mail da irmã a dizer que ela já tinha falecido. Já não fui a tempo. Era um tumor na cabeça que a levou num ápice.

A vontade que tenho é de chorar até sair do peito esta raiva e esta sensação de impotencia que se apoderou de mim.

E neste momento, mais do que a dor da perda é a sensação de incompetencia que me rasga ao meio.

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