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quinta-feira, 17 de maio de 2018

Vidas

A minha amiga A conheceu um tipo que a convidou, ao fim de algum tempo, a irem jantar fora. Ela arranjou-se. Vestiu o seu mais belo vestido. Usou o perfume que usa quando a ocasião merece. E ele chega. Abraça-a. Beija-a ainda estavam na ombreira da porta. Empurra-a para dentro de casa. Mais beijos, amassos e acabam na cama a fazerem amor. No fim ele vai para o telemóvel ver notícias sobre o seu Sporting. Fica cada vez mais fechado. Ausente. Chateado. Ela começa a vestir-se. Tem fome. Pergunta se não vão jantar. Ele pergunta-lhe se ela não pode fazer qualquer coisinha. Ela diz que nada tem. Apenas dois kiwis e umas bolachas. Ele levanta-se e diz que vai buscar jantar para ambos. Sai porta fora e, passados dois dias ainda não voltou. não deu notícias. ‘E tu?’, pergunto querendo saber o desfecho. ‘ eu comi os dois kiwis e as bolachas e, por volta da meia noite, retirei a maquilhagem e deitei-me’. 

Coisas da filha

Entro na escola com a minha filha e um amiguinho dela vem ter connosco e diz:
- eu queria dar um beijo à Maria mas ela não quer. 
Eu olho para a minha filha a ver se ela diz alguma coisa e ela, com o ar mais despachado do mundo, afirma:
- primeiro quer um beijo, depois quer namorar e a seguir casar. Não, não estou para isso.



segunda-feira, 14 de maio de 2018

mulheres inteligentes e sortudas


O major Valentim Loureiro diz que a mulher é inteligentíssima. E justifica a afirmação por esta, após ter conhecimento que ele tinha uma outra mulher da qual tinha dois filhos, passou a convidar estes para jantarem 'lá em casa' às sextas. Percebo que a inteligência dela o encante. Isto faz-me lembrar uma moça que vivia perseguida pelo marido profundamente ciumento e obsessivo onde os limites eram, inúmeras vezes ultrapassados. Um dia ela disse-me: ‘poucas pessoas entendem a nossa relação e não entendem por inveja. As pessoas gostavam de ter alguém que as amasse como eu tenho. Ele é assim porque me ama e eu sou um sortuda’. A inteligência de uma é semelhante à sorte da outra. Muitas das vezes o que vemos mais não é do que aquilo que queremos ver.   

sábado, 12 de maio de 2018

O bolo

Este tem sido o bolo dos grandes festejos: casamentos, batizados e aniversários. A receita é mais antiga do que eu, o que a torna jurássica, e isso obriga-me a um respeito imenso. Desta vez fi-lo com a ajuda da minha filha. Aos poucos vou-lhe passando esta responsabilidade. Porque é isso que uma receita que passa de geração em geração é: um legado que exige respeito. 





sexta-feira, 11 de maio de 2018

A chegada a casa

Gosto do sítio. Gosto das pessoas. Gosto do verde e gosto desta sensação de que a cidade fez as malas e partiu para parte incerta. Quando aqui chego, reposiciono-me. Respiro fundo e espero a bonança que o lugar me dá. Ajuda o ela também gostar de por aqui cirandar. Não são as casas que importam, mas o lugar e as pessoas que as circundam. E, naturalmente, quem as habita.






quinta-feira, 10 de maio de 2018

Paris


Já tinha ido a Paris há uns 20 anos. Gostei mas não fascinei. A estadia foi curta e retenho mais a animação que levava no corpo do que aquilo que a cidade me fez sentir. Olhando para trás, é como se estivesse numa outra cidade.

Agora voltei. Voltei com uma amiga, a minha filha e a filha desta. A ideia era irmos com as miúdas à eurodisney e fomos mas sobre isso falo numa outra altura), mas quisemos aproveitar e dar uma volta pela cidade. Não sei se foi de tudo o que já vivi. Não sei se foi da fase em que estou. Não sei se os astros estavam alinhados ou se a lua estava particularmente amorosa, só sei que a cidade entrou em mim como um leve nevoeiro e , cá dentro, fez-se denso. Calei perante as ruas que se deparavam à minha frente. Compramos um bilhete para andarmos num daqueles autocarros sem teto. ‘vamos ficar com uma ideia da cidade’, justificamos. Meti os fones nos ouvidos e coloquei em modo francês. Não, nada sei de francês, mas a sonoridade, a música de Piaf por detrás, fizeram-me tudo entender sem, no entanto, nada ter percebido. O Sena serpenteia sussurrando qualquer coisa de perfeitamente audível. É um convite a mergulhar. É um convide a olha-lo e, ao fazê-lo, passam pela cabeça a memória de amores idos. É como que uma catarse. As ruas cheias de esplanadas no mais direto convite ao ócio, à volúpia, ao deleite… há muito vinho em cima das mesas, quase tanto como cerveja neste nosso país. Só isso me deu logo uma vontade imensa de me mudar para lá umas temporadas. Depois, sei lá, é o ar, percebem, a atmosfera, é aquilo que não se conta mas que se sente que faz daquela cidade a cidade que quero, antes de todas outras, voltar e conhecer.
Acredito, no entanto, que também pode ser uma cidade-filho-da-puta, se não estivermos fortes, consistentes. Uma dor de amor em Paris dói mais ainda. 

Pensei muito no impacto que ela me causou. Parece-me que para se entender Paris temos de já ter amado, vivido, desamado, sofrido, caído, levantado, esmorecido, arrebitado, fodido… talvez por isso a cidade nada me tenha dito aos 20 anos.  

quarta-feira, 9 de maio de 2018

vidas


 A minha amiga A está chateada porque um dos tipos com que anda lhe rasgou as cuecas que ela mais gostava. Diz que foi difícil desligar-se desse facto enquanto fodiam;

A minha amiga M andava há uma semana a receber sms de 'bom dia princesa', 'boa noite anjo' ( uma mulher só aguenta esta merda porque anda carente), imagens sem fim de pratos de arroz e pequenos almoços (manias), imagens dele com o filho, musicas e mais um sem fim de ligações que mostram um certo interesse de um tipo por quem ela se começava a interessar e que conheceu nas redes sociais. Ontem, enquanto trocavam mensagens, ela perguntou-lhe há quanto tempo ele estava sozinho, ao que ele lhe respondeu: mas eu tenho uma companheira.

A minha amiga D está com um tipo que lhe prometeu casamento, filhos, lua-de-mel em Paris, mimos a toda a hora e sms cheios de amor. Ao fim de meia dúzia de meses os sms resumem-se a 'o que queres que leve do supermercado?'. E os minetes começam a escassear.

A E anda com um tipo lá no trabalho que lhe diz que a ama, que a adora, que ela é a mulher da vida dele. Precisa apenas de tempo para deixar a legítima. Anda nisto há dois anos. Ela tem a  certeza que está quase.

Eu queria chegar a casa, abrir um vinho branco fresco, comer um queijo e uvas mas dei por mim a encharcar-me de bolachas sem o mínimo interesse nutricional.