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segunda-feira, 1 de maio de 2017

Flores para a minha filha

No forno está um bolo de iogurte e na jarra as flores que comprei no mercado em Colares. A senhora que estava a duas bancas de distância da banca onde as comprei disse que eram importadas, ao contrário das dela que eram criadas no seu jardim ao cuidado do seu marido. Prometi que da próxima vez seria a ela que as compraria. Gostei do olhar que ela lançou ao marido e gostei do sorriso com que ele lhe retribuiu. O bolo está quase pronto. E eu também. Agora conto os minutos para a ver entrar pela casa dentro cheia de novidades como só ela sabe ter e como só ela sabe contar.


Leite creme

Aos domingos havia sempre leite creme em casa da minha mãe. Não era tão bonito quanto este mas era igualmente bom. Eu acordava e entrava na cozinha e o primeiro impacto era com o cheiro a limão. Depois a minha mãe queimava-o com um ferro muito velho mas funcional. E o cheiro de limão dava lugar ao cheiro do açúcar queimado. Havia uma nuvem de fumo pela cozinha e como eu gostava daquilo. Nunca como leite creme sem pensar no que a minha mãe faz. Nunca.


segunda-feira, 24 de abril de 2017

25 de Abril


Eles são o que são. Ninguém lhes impõe orientação profissional, sexual, ou de qualquer outra índole. Queremos apenas ( apenas?) que sejam felizes. Do 25 de Abril apenas sabem o que aprendem nas aulas de história. Como se explica a quem sempre teve liberdade o que é não a ter? Como resgatamos dos livros de história e dos discursos monótonos do 25 de Abril que nunca se deve baixar a guarda? Como explicar que hoje, mais do que nunca, têm de estar alertas? 
25 de Abril sempre. 
( na foto os meus queridos sobrinhos)

Meu querido Rui Reininho

«Disse numa entrevista que esteve a meio metro de se tornar um grande bicha, isso seria assim tão mau?

Estive a menos, talvez a uns 20 cm, porque tinha um grupo de amigos que frequentavam as mesmas zonas ( não erógenas) que eu e que eram muito bichas. Gente muito gira. Aqui há tempos encontrei um deles que é funcionário público e que me disse ‘olha, eu já estou reformado’, e eu perguntei-lhe ‘mas continuas a ser um grande bicha?’ ao que ele me respondeu ‘isso sim, claro!’. Gosto dos bichas porque, por norma, são bem-dispostos, desempoeirados. Tenho bons amigos bichas'. »

Rui Reininho na entrevista que acabou de me dar para o 30Dias. Não leem as minhas entrevistas e depois queixam-se que não há coisas giras a acontecer no mundo.

sábado, 22 de abril de 2017

A cozinha da minha mãe

Na cozinha da mãe há uma mesa antiga e grande no meio. Nela preparamos a comida. Nela comemos. Nela existe uma fruteira sempre a abarrotar com as melhores frutas. É um género de uma ilha mas mais bonita, densa, forte, antiga. Nela colocamos o café que a minha mãe faz. O melhor café do mundo. Mais importante, é onde nos juntamos todas: eu, mae, sobrinha, tia Palmira e tia ana. Contam-se histórias. Contam-se fofocas. Partilha-se o adn da forma mais bela: com olhares e palavras. Aqui picava os alhos para o cabrito da Páscoa. Sei que minha mãe fazia um arroz de feijão. A minha filha fazia um puzzle. Minha sobrinha tirava fotos. Olho e sei a que cheirava a cozinha nessa exata hora. E mesmo longe, o que esta fotografia me traz é um certo conforto.


sábado, 15 de abril de 2017

Dos meus dias

O Na lentidão da tarde esparramo- me num livro de Afonso Cruz. Parece pequeno. Parecem poucas paginas. Mas diz tanto em tão pouco, é tão denso e interessante, que o pouco é muito e a quantidade é a que conseguimos suportar. Tão bom! 



quinta-feira, 13 de abril de 2017

O meu pai

O meu pai nunca foi de falar muito. E eu sempre lhe tentei chegar. Sempre. Quando era miúda, deitávamo-nos no terraço nas quentes noites de verão a olhar o céu. Só falávamos quando um de nós via uma estrela cadente. Só queria ver as estrelas para o ouvir. Havia noites em que nem uma aparecia. Ontem ele estava a comer uma maçã no beiral das escadas que dão para a cozinha. Sentei-me ao seu lado. Sem saber o que dizer, disse:

- esta macieira está cheia de flores. Vai dar muitas maçãs. 

E ele pergunta:

- esta quê?

Foi a ânsia de Meter conversa que me fez escorregar na ignorância. Olhei melhor para a árvore. Olhei para as folhas. Remendei:

- enganei-me, queria dizer esta laranjeira.

Já não respondeu. Semi sorriu. Afinal a urbe e a cidade ainda não engoliu a filha. Ainda consigo descortinar as árvores de fruto. Menos mal. Sim, ainda sou uma miúda da aldeia que se atreve a viver na cidade.