Páginas

segunda-feira, 11 de junho de 2018

Vai um manjerico?

Quando era miúda o meu pai levava-me, todos os anos, a Vila Real, ao São João. Por um motivo que me ultrapassava, para além de uma fartura e voltinhas nos carrosséis, ele dava-me um vaso com manjericos que morriam, invariavelmente, nos dias consequentes. Primeiro diziam que morriam porque os cheirava. No ano seguinte já não os cheirava embora não entendesse o motivo de uma flor cheirar tão bem e depois não lhe poder meter o nariz. Morriam na mesma. Diziam que era porque lhes tocava com afinco. No outro ano apenas lhes tocava com leveza. Morriam. Então era porque deitava água a mais. Depois era água a menos... o que importa é que todos os anos, no São João, lá íamos até à cidade comer umas farturas, beber um sumol e regressava a casa sempre de espírito animado e com um vaso de manjericos. Hoje fui à feira inserida nas festas populares de Oeiras. A minha filha andou de carrossel, comemos uma fartura e comprei-lhe um manjerico. Fi-lo sem pensar muito. Só quando a vi com o vaso na mão cheia de cuidados é que viajei no tempo. Vi-me pequena novamente. Olhei para todo o recinto das festas com um olhar infantil, assoberbado, cheio de espanto. Há uma certa magia quando nos sentimos filhas naquilo que fazemos enquanto mães. Há mesmo. 

quinta-feira, 7 de junho de 2018

Antes das nove

O café tem apenas duas mesas corridas. Sento-me numa. Sou apenas uma numa mesa com seis lugares. Chega uma senhora. Pergunta se pode sentar-se numa das cadeiras livres. Digo que sim. Senta-se e folheia um jornal gratuito dos vários que existem na mesa. Depois chega um senhor. Senta-se numa outra cadeira. Saca do record. Chega um casal. A mesa está quase cheia. Ninguém fala. Somos estranhos a partilhar uma mesa. Tiro o meu Octaedro de Júlio Cortázar. O senhor do jornal olha para o meu livro. Olha de seguida para mim. Sinto que me vê pela primeira vez. Diz: ‘esse é um grande escritor’. Sorrio. Depois olha para uma página onde está o Bruno de Carvalho e diz-me: e este é um grande maluco!’ A senhora levanta os olhos do seu jornal e afirma com um tom demasiado alto para esta hora da manhã: ‘Não é não, isto é tudo culpa dos benfiquistas e da comunicação social. Por causa de um post no Facebook fazem uma coisa destas ao homem? Valha-me Deus! Ainda por cima tem uma bebé pequenina...’. Nunca fui boa a argumentar com pessoas que vivem num planeta diferente do meu. Nada digo. Coloco os olhos no meu livro. Ela não se cala: ‘e aquele maluco lá de cima que anda com a brasileira, deixa de andar com a brasileira, volta a andar com a brasileira, deixa de andar, volta a andar e ninguém diz nada? Nota-se que é descompensado. Um velho daqueles com uma miúda, isso sim, mostra bem a maluqueira do animal, mas desse ninguém fala! Aquilo só lá vai com viagra e isso só faz mal ao cérebro.’ Ninguém lhe responde. Ela suspira. Está, nitidamente, irritada. Mais ainda por ninguém lhe responder. Ela insiste uma e outra vez. Os argumentos não se elevam. São rasteirinhos. A dada altura a senhora do casal que entrou dispara: sabe porque motivo o Trump ganhou? E ganhou democraticamente e é igual aquela maluco da coreia que já nasceu com o cu na cadeira do poder? Sabe? Sabe? Porque há pessoas como a senhora que são completamente burras!’ Silêncio. Cada um voltou aos seus pensamentos, à sua vida. Ninguém disse absolutamente mais nada. E eu sinto que já tive a minha dose de futebol e política diária ainda antes das 9 da matina. 

segunda-feira, 28 de maio de 2018

Sobre o Arroz doce

Quando peço arroz doce num qualquer restaurante, busco, indelevelmente, o arroz doce da minha mãe. Lá em casa ela raramente o fazia porque o meu irmão não gostava e ao meu pai era-lhe indiferente. Por isso, quando ela o fazia eu sabia que o fazia por mim. Há pouca coisa que me traz o colo e mimo da minha mãe como o arroz doce faz. Nunca expliquei isto a quem almoça comigo diariamente mas todos sabem que esta é a sobremesa que, existindo, peço sempre. Hoje, estava a trabalhar e a Sónia liga-me e pergunta se posso ir ter com ela à rua. Fui e ela tinha num saco uma taça de arroz doce que a mãe dela tinha feito ontem e que ela, lembrando-se de mim, quis oferecer-me. Não fui capaz de demonstrar o quanto o seu gesto me tocou. Uma atitude que me remeteu para o meu Trás-os-Montes, a minha aldeia, a cozinha da minha mãe onde a mesa corrida se enche de taças e mais taças a arrefecer e a mãe, com o seu jeito tão único, faz rios e rios de canela em cada uma. O cheiro ocupa todo o espaço e ela diz-me: filha, come um enquanto está quente que assim é que sabe bem. Tive vontade de chorar. Abracei a Sonia. Agradeci-lhe atabalhoadamente como o fazemos quando não há maneira de explicar o sentimento. E como uma miúda pequena, esperei chegar ao meu sofá, no silêncio da minha casa, para comer o arroz doce da mãe da Sonia que é igual ao da minha mãe. Porque há nas mães algo que só elas são capazes de colocar naquilo que fazem. 

quinta-feira, 17 de maio de 2018

Vidas

A minha amiga A conheceu um tipo que a convidou, ao fim de algum tempo, a irem jantar fora. Ela arranjou-se. Vestiu o seu mais belo vestido. Usou o perfume que usa quando a ocasião merece. E ele chega. Abraça-a. Beija-a ainda estavam na ombreira da porta. Empurra-a para dentro de casa. Mais beijos, amassos e acabam na cama a fazerem amor. No fim ele vai para o telemóvel ver notícias sobre o seu Sporting. Fica cada vez mais fechado. Ausente. Chateado. Ela começa a vestir-se. Tem fome. Pergunta se não vão jantar. Ele pergunta-lhe se ela não pode fazer qualquer coisinha. Ela diz que nada tem. Apenas dois kiwis e umas bolachas. Ele levanta-se e diz que vai buscar jantar para ambos. Sai porta fora e, passados dois dias ainda não voltou. não deu notícias. ‘E tu?’, pergunto querendo saber o desfecho. ‘ eu comi os dois kiwis e as bolachas e, por volta da meia noite, retirei a maquilhagem e deitei-me’. 

Coisas da filha

Entro na escola com a minha filha e um amiguinho dela vem ter connosco e diz:
- eu queria dar um beijo à Maria mas ela não quer. 
Eu olho para a minha filha a ver se ela diz alguma coisa e ela, com o ar mais despachado do mundo, afirma:
- primeiro quer um beijo, depois quer namorar e a seguir casar. Não, não estou para isso.



segunda-feira, 14 de maio de 2018

mulheres inteligentes e sortudas


O major Valentim Loureiro diz que a mulher é inteligentíssima. E justifica a afirmação por esta, após ter conhecimento que ele tinha uma outra mulher da qual tinha dois filhos, passou a convidar estes para jantarem 'lá em casa' às sextas. Percebo que a inteligência dela o encante. Isto faz-me lembrar uma moça que vivia perseguida pelo marido profundamente ciumento e obsessivo onde os limites eram, inúmeras vezes ultrapassados. Um dia ela disse-me: ‘poucas pessoas entendem a nossa relação e não entendem por inveja. As pessoas gostavam de ter alguém que as amasse como eu tenho. Ele é assim porque me ama e eu sou um sortuda’. A inteligência de uma é semelhante à sorte da outra. Muitas das vezes o que vemos mais não é do que aquilo que queremos ver.   

sábado, 12 de maio de 2018

O bolo

Este tem sido o bolo dos grandes festejos: casamentos, batizados e aniversários. A receita é mais antiga do que eu, o que a torna jurássica, e isso obriga-me a um respeito imenso. Desta vez fi-lo com a ajuda da minha filha. Aos poucos vou-lhe passando esta responsabilidade. Porque é isso que uma receita que passa de geração em geração é: um legado que exige respeito.