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sexta-feira, 16 de junho de 2017

Lagos do meu coração


Rumei para sul em busca de sal e sol na pele e paz no espírito. Os dias correm difíceis. Mais difíceis dentro de mim do que fora, na verdade. Aos poucos vou vendo uma nesga de luz. Mas é tão tênue. 

Estar com a minha filha. Beber um copo com a S. Falarmos de tudo e de nada. Não ter horas para nada. Dormir muito. Comer pouco. Nadar até querer ver Marrocos. Ir ao mercado de Lagos ver dos peixes mais belos que já vi. A arte pública ao alcance de todos. Apanhar conchas. Muitas. Ansiar pelo senhor das bolas de Berlim com a mesma gana que esperava os namorados quando era uma adolescente. Tudo isto me ajuda voltar a ser alguém com o riso fácil. 

Estes dias valem ainda mais do que as fotografias querem fazer valer. 






quinta-feira, 8 de junho de 2017

a casa da árvore 1


 

Aluguei a casa a um senhor ‘de palavra’. Daqueles que ‘assino o contrato porque agora se faz assim, mas a minha palavra é só uma’. Um homem que sendo mais velho que o meu pai tem, tal como ele, aquela forma de ser que nos dá confiança. Não há ali a mínima dúvida de caracter. Não há como facilitar naquilo que diz. De cabelo branco e olhos nos olhos, explica-me as regras. E eu confio. E eu podia não ter assinado o contrato. Sei de que massa ele é feito. E estranho. Estranho porque das mil casas que vi, da quantidade de senhorios possíveis com que me deparei, em nenhum vi aquele caracter. Aquele olhar. Aquela força que só alguns homens possuem. ‘Homens de antigamente’, dizia-me uma amiga. Sim, é isso. E é pena que seja isso. Que hoje não encontremos mais exemplares destes na malta da minha idade, ou nos mais novos, ou nos mais velhos. Há-os. Mas poucos.

E sim, vou mudar-me para A Casa da Árvore.

quarta-feira, 7 de junho de 2017

a casa da árvore

nunca fui feliz nesta casa e não me imagino a sê-lo. desatei à procura de uma nova casa numa altura onde, parece, que o mundo e arredores descobriu Lisboa e periferia. A minha decisão de mudar foi toda numa altura onde o resultado de conseguir algo foi muito mais difícil do que poderia imaginar. mas encontrei. E encontrei a casa que me diz que, talvez ali, possa voltar a sorrir. É a minha casa da árvore. Estou tão entusiasmada que até me apetece mudar o nome deste blogue para A Casa da Arvore. Tatuar A Casa da Arvore no meu ombro. Fazer aletria e colocar, em letras primorosamente feitas a canela: A Casa da Arvore.

na verdade, não há outra hipótese do que tentar ser feliz ali. Não há. não há mais sitio onde possa ser. estou oca como pode estar uma galinha pronta para o recheio. oca e preciso voltar a encher. encher do que gosto. da musica. do cinema. dos livros. da minha comida. de uma cozinha onde me sente na bancada a beber um copo enquanto espero que o forno apite. preciso de me reconstruir. fazer jantares para amigos. para mim, para nós as duas. habituar-me aos novos sons.


vou viver para um género de vivendinha, sem ninguém por cima nem ninguém por baixo. eu, ela e a arvore.

chega perfeitamente. É lá que vou sentir vontade de aqui vir mais vezes. é lá.

terça-feira, 6 de junho de 2017

Nada

Há dias difíceis. Uns colados aos outros. Um comboio de dias maus, que nos batem e atiram ao chão. Depois há um livro. Um vinho. Qualquer coisa pequena. O sorriso dela. Aquelas uvas. Os morangos a saberem a morangos. As amigas juntas na dor. E, de repente, tudo muda. Fica-se melhor. Um pouco melhor. 

quinta-feira, 25 de maio de 2017

Pataniscas de bacalhau

Com a idade dela não gostava de pataniscas de bacalhau. Aliás, demorei a gostar de as comer e demorei mais ainda a atrever-me a fazê-las. Nos últimos tempos ela pede amiúde que as faça e o treino leva a uma certa sabedoria. Já sei o truque. Já as faço como a minha mãe: tudo a olho. Sentindo o polme, a temperatura do óleo, as lascas grandes do bacalhau. E o que mais gosto é de a sentir nas costas a roubar uma e outra e eu a fazer de conta que não vejo.


segunda-feira, 1 de maio de 2017

Flores para a minha filha

No forno está um bolo de iogurte e na jarra as flores que comprei no mercado em Colares. A senhora que estava a duas bancas de distância da banca onde as comprei disse que eram importadas, ao contrário das dela que eram criadas no seu jardim ao cuidado do seu marido. Prometi que da próxima vez seria a ela que as compraria. Gostei do olhar que ela lançou ao marido e gostei do sorriso com que ele lhe retribuiu. O bolo está quase pronto. E eu também. Agora conto os minutos para a ver entrar pela casa dentro cheia de novidades como só ela sabe ter e como só ela sabe contar.


Leite creme

Aos domingos havia sempre leite creme em casa da minha mãe. Não era tão bonito quanto este mas era igualmente bom. Eu acordava e entrava na cozinha e o primeiro impacto era com o cheiro a limão. Depois a minha mãe queimava-o com um ferro muito velho mas funcional. E o cheiro de limão dava lugar ao cheiro do açúcar queimado. Havia uma nuvem de fumo pela cozinha e como eu gostava daquilo. Nunca como leite creme sem pensar no que a minha mãe faz. Nunca.