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segunda-feira, 24 de abril de 2017

25 de Abril


Eles são o que são. Ninguém lhes impõe orientação profissional, sexual, ou de qualquer outra índole. Queremos apenas ( apenas?) que sejam felizes. Do 25 de Abril apenas sabem o que aprendem nas aulas de história. Como se explica a quem sempre teve liberdade o que é não a ter? Como resgatamos dos livros de história e dos discursos monótonos do 25 de Abril que nunca se deve baixar a guarda? Como explicar que hoje, mais do que nunca, têm de estar alertas? 
25 de Abril sempre. 
( na foto os meus queridos sobrinhos)

Meu querido Rui Reininho

«Disse numa entrevista que esteve a meio metro de se tornar um grande bicha, isso seria assim tão mau?

Estive a menos, talvez a uns 20 cm, porque tinha um grupo de amigos que frequentavam as mesmas zonas ( não erógenas) que eu e que eram muito bichas. Gente muito gira. Aqui há tempos encontrei um deles que é funcionário público e que me disse ‘olha, eu já estou reformado’, e eu perguntei-lhe ‘mas continuas a ser um grande bicha?’ ao que ele me respondeu ‘isso sim, claro!’. Gosto dos bichas porque, por norma, são bem-dispostos, desempoeirados. Tenho bons amigos bichas'. »

Rui Reininho na entrevista que acabou de me dar para o 30Dias. Não leem as minhas entrevistas e depois queixam-se que não há coisas giras a acontecer no mundo.

sábado, 22 de abril de 2017

A cozinha da minha mãe

Na cozinha da mãe há uma mesa antiga e grande no meio. Nela preparamos a comida. Nela comemos. Nela existe uma fruteira sempre a abarrotar com as melhores frutas. É um género de uma ilha mas mais bonita, densa, forte, antiga. Nela colocamos o café que a minha mãe faz. O melhor café do mundo. Mais importante, é onde nos juntamos todas: eu, mae, sobrinha, tia Palmira e tia ana. Contam-se histórias. Contam-se fofocas. Partilha-se o adn da forma mais bela: com olhares e palavras. Aqui picava os alhos para o cabrito da Páscoa. Sei que minha mãe fazia um arroz de feijão. A minha filha fazia um puzzle. Minha sobrinha tirava fotos. Olho e sei a que cheirava a cozinha nessa exata hora. E mesmo longe, o que esta fotografia me traz é um certo conforto.


sábado, 15 de abril de 2017

Dos meus dias

O Na lentidão da tarde esparramo- me num livro de Afonso Cruz. Parece pequeno. Parecem poucas paginas. Mas diz tanto em tão pouco, é tão denso e interessante, que o pouco é muito e a quantidade é a que conseguimos suportar. Tão bom! 



quinta-feira, 13 de abril de 2017

O meu pai

O meu pai nunca foi de falar muito. E eu sempre lhe tentei chegar. Sempre. Quando era miúda, deitávamo-nos no terraço nas quentes noites de verão a olhar o céu. Só falávamos quando um de nós via uma estrela cadente. Só queria ver as estrelas para o ouvir. Havia noites em que nem uma aparecia. Ontem ele estava a comer uma maçã no beiral das escadas que dão para a cozinha. Sentei-me ao seu lado. Sem saber o que dizer, disse:

- esta macieira está cheia de flores. Vai dar muitas maçãs. 

E ele pergunta:

- esta quê?

Foi a ânsia de Meter conversa que me fez escorregar na ignorância. Olhei melhor para a árvore. Olhei para as folhas. Remendei:

- enganei-me, queria dizer esta laranjeira.

Já não respondeu. Semi sorriu. Afinal a urbe e a cidade ainda não engoliu a filha. Ainda consigo descortinar as árvores de fruto. Menos mal. Sim, ainda sou uma miúda da aldeia que se atreve a viver na cidade.

Velharias

Vou-me descobrindo de cada vez que regresso a casa dos pais. Percebo o meu gosto por velharias. Percebo porque ando sempre à cata de loucas de outrora. Vivi com o passado encostado ao presente. Aqui está um pormenor da cozinha dos meus pais.


quinta-feira, 6 de abril de 2017

PSP do meu coração


Há uns anos vivia num apartamento que tinha por vizinho uma esquadra da PSP. A esquadra da PSP era virada para um pátio, pátio este para onde era virada a janela do meu quarto. Em algumas noites, os agentes que estavam de serviço, iam fumar e conversar para esse mesmo pátio. Por vezes, estavam numa conversa tão animada que eu tinha dificuldades em adormecer. Um dia, após ter acordado com o riso deles, furiosa e maldisposta (sou impossível com fome e com sono) visto o roupão e saio de casa e entro na esquadra dizendo que queria fazer uma queixa. O agente que me atende, super simpático, pega numa folha qualquer e começa a escrever o que lhe vou dizendo e pára quando percebe que a morada que estou a dar é a deles.

- Sim, vocês fazem tanto barulho que eu não consigo dormir. Quero fazer uma queixa a vocês sobre vocês.

Ele percebeu que eu espumava e, de forma inteligente, disse:

- Tem toda a razão. Queixa apresentada. Não voltará a acontecer.

Fui para casa, deitei-me e houve silêncio o resto da noite. No dia seguinte, achando que tinha exagerado, fui ter com eles e pedi desculpas afirmando a importância de eles darem o exemplo. Nunca mais ouvi barulho vindo do pátio deles. Hoje o meu pai teve um acidente no Marco de Canaveses. Ele queria ligar para a psp mas estava um pouco nervoso com tudo o que lhe tinha acontecido que me pediu, eu que estou em Oeiras, para ser eu a ligar. Deu-me apenas uma indicação: estou algures numa rotunda. Liguei para a psp de marco de canaveses com essa indicação: uma rotunda. Acredito que hajam muitas rotundas. Certamente existem. Mas eu não sabia mais nada. Falei com o agente que me atendeu. Disse que estava longe, que estava preocupada, que achei o meu pai nervoso e que ele estava numa rotunda. Eu nunca fui ao Marco de Canaveses. Não conseguia dizer mais nada. Foram impecáveis. Descansou-me. Encontraram a rotunda. Ajudaram em tudo.

Há uma tendência para se falar mal dos agentes da autoridade. Eu, em modo-chata e em modo-filha, só posso dizer bem. Ajudam. Preocupam-se. Aceitam a crítica.