Páginas

quinta-feira, 23 de março de 2017

vamos parar o mundo?



Daqui não se percebe mas quando tirei esta fotografia estava num restaurante pequeno, quente, com uns belíssimos quadros de gente gordinha e feliz e comer. Foi aqui que comi o melhor risotto e bebi um vinho branco floral com calma e preceito. Não fiz contas à vida que a vida tem-me trocado as voltas, apenas parei o mundo. Parei o meu mundo. Fiquei em silêncio a olhar o céu azul típico das noites frias. Se calhar o segredo para se seguir em frente é este: não olhar para trás. Não fazer contas. Não esperar resultados. Parar o mundo. Parar.


terça-feira, 21 de março de 2017

das separações.






Estou em Amesterdão e o pai da minha filha (ainda não consigo chama-lo de ex-marido) está em Espanha. Perguntam-me com frequência: com quem ficou a tua filha? Por norma, como ando bem-disposta, respondo que lhe deixei 5€ por cada dia e ela desenrasca-se muito bem. Mas depois reflito e penso que as pessoas equivocam-se muitas vezes sobre os limites do que é uma família. A família é a mãe, é o pai, os irmãos, os avós, os amigos… não percebo a dúvida. Depois pensam que com uma separação tudo muda. Muda muita coisa, mas o amor não pode mudar. De cada vez que digo que falei com a minha sogra ou que a minha sogra ficou com a miúda, sinto olhares incrédulos sobre mim. Mas eu não sei como poderia ser de outra forma. Quando me separei tinha de deixar de gostar de pessoas de que sempre gostei? Como é que isso se faz? É automático? É um botão? E porquê fazê-lo? Como é que isso se procede? Um dia gostamos de uma pessoa e no dia seguinte passa-se a detestar todos os membros de uma determinada família? Como é? Tudo o que se viveu vai para o esgoto? Não, não me explique que eu não quero saber!

Nunca conheci os meus avós e a minha mãe sempre esteve dedicada aos filhos numa presença constante. As férias eram com a minha tia Palmira. E quando a minha mãe tinha coisas para fazer ficava com a senhora Emília, uma mulher que vivia no fundo da nossa rua e que tinha duas filhas. Ficava lá com o mesmo à vontade com que ficaria em minha casa. A sociedade é uma rede que podemos saber tecer melhor ou pior, e que serve de apoio, de estrutura. Esta era a minha rede, a da minha filha é outra, bem mais densa.

Tento estar o mais presente possível na vida da minha filha. O pai tenta o mesmo. Mas quando não conseguimos e às vezes não conseguimos simultaneamente, tenho, logo em primeira instância, a minha querida sogra (dizem que sogra é sempre sogra e eu fico muito feliz) que é a melhor avó que a Maria podia ter. Sei que tudo faz e desfaz pela neta. Está sempre presente, sempre. Como se agradece a uma pessoa que aprendeu a mexer no whatsapp e a esta altura já me mandou imensas fotografias da Maria de hoje de manhã? Sei como dormiu e o que comeu. Sei as piadas que ela diz. As brincadeiras que tem. E ouve-me atentamente quando lhe digo que acho que a Maria está a precisar disto ou daquilo. Não tinha de ser uma excecional sogra para a adorar, bastava ser a avó que é, mas tenho a felicidade de ser também uma sogra como não conheço nenhuma outra; e tenho a minha cunhada (curiosamente é para a minha filha aquilo que sinto que sou para a minha sobrinha), a Áua, um  misto de ama, amiga e avó da Maria, a minha querida Catarina que já ficou com a Maria em conjunto com as suas duas filhas (há amigos que se transformam rapidamente em família) e que me perguntou se a queria deixar lá em casa, e se necessário fosse, vinha a minha mãe com as suas couves e bacalhau do norte para cuidar da neta. Ou até o meu irmão, que lá tinha de se levantar mais cedo para levar a sobrinha à escola.

Quando as pessoas se separaram, e atenção que eu sei pouco sobre este tema, apenas tento fazer o caminho o melhor que sei e o melhor que posso, é de salutar que as crianças sintam o seu meio o menos beliscado possível. Basta a separação parental. Se a essa juntarmos a separação total da família e dos amigos (aqui dava pano para mangas… e aqueles amigos que desaparecem de repente? Aqueles que acham que têm de tomar uma posição sendo que a única plausível era não tomarem nenhuma e que depois puf, cadê?) o mundo como o conheceram até então desaparece e com ele a estabilidade de que precisam.

Por isso, as almas atormentadas que estão preocupadas com quem deixei eu a minha criatura preferida, ela está bem e recomenda-se. Como se está quando estamos com quem nos ama acima de tudo.

A Maria com um chapéu que a avó lhe deu

Amesterdão



 Estou em Amesterdão. No meu caminho diário do hotel para o café deparo-me com o fim deste canal. De certa forma isto fascina-me. A água chega aqui e pára. Não vai para mais lado nenhum. Queda-se como se já não tivesse mais vontade. Não quer ir mais além. A sua vida é esta. Hoje estava com umas cores particularmente dramáticas o que adensa a trama. Para onde iria se quisesse? Para onde iria se a deixassem ir?


sexta-feira, 17 de março de 2017

da arte... uma seca, não leiam.



 No corredor da casa dos meus pais há uns quadros com umas rosas. Não são especialmente bonitos. Não são especialmente feios. São rosas pintadas e com uma breve inscrição que, imaginem, nunca li. Não sei como ficaria aquele corredor sem aquelas rosas. Era a única coisa que havia na casa dos meus pais. Nunca houve, lá em casa, grande ligação com a arte. Na verdade nunca tive nenhuma. Meus pais viviam preocupados com outras coisas. Em Trás-os-Montes nos anos 70 e 80 era acima de tudo difícil a sobrevivência, quanto mais pensar-se na arte. Creio que já estaria em lisboa a primeira vez que fui a uma exposição, ou pelo menos a primeira vez que uma exposição me disse alguma coisa. Ainda era uma gaiata e entrei no Museu de Arte Antiga e aquilo falou-me aos berros. Entrou em mim escancarando todas as portas. Fascina-me a arte, certa arte, Não toda, apenas aquela com a qual tenho uma ligação. Aquela que me cutuca. Que Bule com os sentidos. Aquela que me aparece em sonhos. Que não deslarga.

Lembro bem a primeira vez que vi um quadro do Francisco Vidal e a promessa que me fiz de um dia tê-lo especado numa parede de minha casa. Ou daquela vez que vi uma litografia numa casa em Santos e olhando para o preço tive vontade de vender o meu carro para comprar aquela mulher desfigurada mas com saias aos corações que me olhava de uma montra.

Quando engravidei o meu obstetra tinha no seu consultório um quadro de Paula Rego. Era uma mulher desfigurada que me olhava sempre que me deitava e abria as pernas. Ele via como eu estava e eu não largava o olhar da monstra que de certa forma me dava colo. Era um momento estranho mas sinto saudades dela.

Acontece isto, deparar-me com determinada arte e quase querer casar e morrer de amor com ela.

Há coisa de meio ano botei os olhos, sei lá eu como, nuns pratos pintados de Rita Wainer, uma artista brasileira, e quis ter um na minha sala. Quis tanto. Quero tanto. Mas ela é brasuca e eu sou portuga e funcionária publica. Não é só um oceano que nos separa é também a minha carteira.

Não sei se é por viver a fase de vida que estou a viver mas de quando em vez vou ao seu site ver o que ela pinta, coloco a imagem grande, imagino na minha sala e descanso olhando para aquelas mulheres de cabelos negros com frases que me dizem algo, muito, tudo.

Aguardo que esta vontade passe. Ou talvez não.

Encontro na arte muitas das respostas que procuro diariamente.








quarta-feira, 15 de março de 2017

O pai da minha Maria


O dia do pai está à porta e este ano ele cutuca-me de forma distinta. Não penso tanto no meu querido pai, mas no pai da minha Maria. A Maria tem um pai que é muito diferente de mim e ao ser diferente de mim e ao sermos ambos os pais da Maria, ela tem uma realidade e uma vivência muito rica. Ambos a queremos acima de tudo e para ambos ela é a nossa prioridade. Por ela, deixamos de lado o que nos diferencia e tentamos acordos. Temos conversas diárias. Gastamos o telemóvel com imagem e vídeos para mandar ao outro na tentativa que o outro sofra menos na ausência. Porque doi. Doi muito quando a sabemos com o outro sem que possamos estar a ver o que está a fazer. E tentamos diminuir essa dor, esse enjeito, essa amargura. Mais belo ainda - é por causa dela que ainda rimos em conjunto.

A Maria tem um pai e o pai da Maria é o melhor pai que ela podia ter. Aqui há tempos perguntavam-me se eu algum dia me arrependi deste pai para esta Maria. Nem respondi por achar a pergunta tão descabida. Foi como se me perguntassem se eu acho que há limoeiros em Marte. A Maria só existe porque há este pai e se voltasse atrás era com ele que teria esta Maria. Não se muda a mãe e não se muda o pai. Ela tem tiques dele. É tão clara quanto ele. Cabelo liso como o dele. Com um gosto musical especial como ele tem. Até sardas a miúda já tem. A minha Maria não seria esta minha Maria se não tivesse este pai. E este pai foi, talvez, a única coisa que escolhi bem na vida. Porque escolhemos. Na maioria das vezes escolhemos ter filhos com este ou aquele homem. E  depois, muitas vezes, desdizemos de tal façanha. Como se ter um filho fosse coisa pouca. Fosse uma loucura no meio de uma paixão. Ter um filho deve ser pensado, ponderado para depois, mesmo depois da conjugalidade, que se pode desfazer na espuma dos dias, haja a paternidade que nos une.

Quando ouço mães a falarem mal dos pais às próprias crianças, penso que as estão a martirizar por uma escolha que apenas às mães diz (disse) respeito. Há maus pais? Sim, há. Há pais que depois de uma separação se esquecem dos filhos, sim há. Mas julga uma mãe que a criança não sabe disso sem que lhe seja preciso dizer? Sabe, pois. A criança sabe exatamente que tipo de pai é o seu pai. Não precisa do rancor da mãe em cima das palavras para lhe fazer ver que aquela pessoa está aquém do que gostaria. Não podemos amar os filhos, dizer que queremos o seu melhor e depois desdizer do pai. Eu sei bem os defeitos do meu pai. Não foi a minha mãe que os disse. Fui eu que fui descobrindo. Detestaria ouvir minha mãe falar mal do meu pai. Sei bem os desfeitos do pai da Maria (e este saberá dos meus). E sei que o pai da Maria nunca falará mal de mim. Se discordamos pegamos no telefone e falamos. Às vezes gritamos. Discutimos. Desligamos com vontade de matar o outro. Dá vontade de dizer: o teu pai isto ou o teu pai aquilo. E depois? Que tipo de mãe seria se o fizesse? O que ganharia a Maria com isso? Mesmo quando ele faz diferente do que eu gostaria, não está ele a fazer o seu melhor? Não estou eu a fazer o meu melhor quando faço diferente dele?

Há maus pais, que há, mas há mães que podiam refletir mais e melhor quando falam com os filhos.

Que sirva para isso este Dia do Pai que se aproxima.

domingo, 26 de fevereiro de 2017

dia 26 de fevereiro de 2017


Um dia li um livro de uma mãe que perante a morte da sua filha pensava que ela poderia ter frio no cemitério. Hoje penso na minha tia lá, sozinha, naquele alto tão gélido e não consigo deixar de chorar, de sentir uma dor que parece que se afunda na garganta… estou só. Sinto-me só. Penso no frio que a minha tia estará a sentir.
 A minha filha ficou com pai e deixei o meu irmão na sua casa e cheguei aqui, pousei a mala no corredor e deitei-me no sofá. Sinto os ossos a romperem a carne. A cabeça parece que vai rebentar. Penso na minha mãe que perdeu a sua irmã querida. Durante 14 anos, desde que a minha tia tivera um AVC, que a minha mãe a levou para casa e cuidou dela, ano após ano, mês após mês, dia após dia e hora após hora. E teria cuidado mais 14. Ainda ouço o meu pai a dizer que a minha tia nunca esteve a mais lá em casa. Não esteve mesmo. Ocupou o quarto de solteiro do meu irmão e a minha mãe revestiu as paredes azuis com santos e mais santos encimados por Cristo na cruz. Houve um cuidado que nunca abandonou. Ainda vejo a minha mãe a fazer-lhe festinhas na face e a dizer ‘ então, mana querida, não comes?’. Era isto num tom doce. O tom doce que a minha mãe tem quando ama. Agora minha mãe ficou lá a disfarçar que é forte, que tudo aguenta, que consegue ir em frente. E consegue. Conseguimos, mas já não se vai de igual forma. De igual modo. Tropeçamos no caminho. Já doi a alma. Ouço Todd Terje e acho que me vai dar para fazer um chá e ir para a varanda olhar para o céu e ver a estrela mais brilhante e dar-lhe o nome de Ilda como disse à minha filha que a morte funcionava: Saímos daqui e flutuamos até ao céu, como aqueles balões que tu tanto gostas, onde nos transformamos na estrela mais brilhante. Dá vontade de rir, não dá? Mas as crianças tudo aceitam…
Ainda ouço a minha tia a perguntar-me ‘a miúda?’. Eu já não importava, apenas a miúda importava. Só a miúda. E a minha filha pendurava-se na cama ortopédica, de onde a minha tia não saia, e perguntava ‘tia, não sais daí?’, e a minha tia, com o ar mais convincente deste mundo, metida num esqueleto atrofiado por 14 anos sem se mexer e dizia: ‘saio, claro que saio, vais ver que já te apanho’.

A minha aldeia

Do alto do cemitério a vista é ainda mais soberba. A emoção que me prostrou ainda me permite sentir este Douro tão intenso e, ao mesmo tempo, tão duro. A vida aqui faz-se debaixo de dias muito difíceis. A Natureza de tão desvairada que anda coloca as gentes da aldeia desorientadas. Mas depois a morte todos junta. Os desavindos e os amigos. Os conhecidos e os conhecidos de conhecidos. O sino parece gritar... vou embora mas nunca deixo de sentir a aldeia em mim. Não sei se isso é bom ou não.