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segunda-feira, 23 de janeiro de 2012
às vezes superamo-nos, noutras afogamo-nos
Fui com a minha filha ao pediatra. E o pediatra em causa está a lutar contra um cancro. E é uma luta que o tem deixado surpreso: pela força que achava que não tinha, mas que afinal tem. Mas sente, agora, que o 'bicho' está a levar a melhor. Sente que a besta foi-se alojando aqui e acolá, fazendo cidades de células cancerosas, de monstros que combatem os guerreiros cansados que o seu corpo produz cada vez em menor quantidade. E sorri a contar tudo isto. Sorri porque não quer que quem o ouve fique com pena, ou triste, ou esmorecido. Mas eu ia ficando enterrada na cadeira, esquecendo a minha filha e apenas olhava-o e a dada altura calamo-nos. Pesou-nos o silêncio. Ficou o som da minha pequena com os seus pequenos passos. Ficamos ali a olhar um para o outro. Eu queria abraça-lo. Apenas abraça-lo. Dizer-lhe que não sei o que ele sente. Que não sei nem quero saber nunca o que ele sente, mas que tenho uma pena imensa, imensa como o oceano. Mas nada disse. Nada me saiu. Nada. Olhei outra vez para a minha filha. Voltei a olhar para ele e aí ele leu-me os olhos, a mente, o coração e acabou dizendo: às vezes superamo-nos, noutras… afogamo-nos.
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