terça-feira, 10 de janeiro de 2012
Um filho... apenas um filho.
O almoço prendia-se com o convite que me fez há uns meses para escrever um texto para o catálogo da sua próxima exposição. Somos amigos há anos, quando os nossos trabalhos se misturaram e nunca perdemos o rasto, mesmo agora que já se reformou e mudou os ponteiros da sua existência para outras andanças.
Encontramo-nos no restaurante do costume e na mesa de sempre. Falamos da exposição e do meu texto. E de repente, sem nada que previsse, sem aviso prévio para que eu me pudesse preparar, fala do seu único filho que se suicidara há três anos. Nunca falei da sua perda, nunca me senti capaz de abordar o tema, achando, se calhar erradamente, que ele jamais quereria falar de tal. E, curiosamente, nem nunca falava muito da minha filha, temendo com a minha maternidade lhe causar uma dor mais profunda na perda irreversível da sua paternidade. Mas ele perguntava-me sempre por ela. E como ela estava. E como cresce. E como nos embala o embalo que lhes damos. E eu fugia do tema como o diabo da cruz. Ele até deveria de me achar pouco maternal, ou distante do meu papel de mãe. Não sei. Sei que por desconforto eu nunca passava perto do tema ‘filho’, nunca. E hoje assim, do nada, ele fala-me do, chamemos-lhe Rui, que não é Rui. Dizia-me que teve de continuar a pintar porque seria aquilo que o Rui quereria. E que sentia uma necessidade de passar pelos mesmos sítios que passou com ele, de ir aos mesmos cafés, de relembrar conversas tidas na cumplicidade de que que era feita a sua relação, de visitar as mesmas esquinas e de o recordar amiúde, como se tivesse um medo atroz de o esquecer, naquilo que é impossível esquecer. Disse que, ao contrário da sua mulher, precisava de falar dele, e até rir das coisas que o filho ria. Eu ouvi. Muda e estarrecida. Ouvia-o num nervosismo de quem quer dizer o que não sente e que não é capaz de sentir o que diz. Por fim, percebi o seu propósito quando me disse: um filho é pouco, Frida, é pouco…
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