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segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

E tudo a gula levou!

Ter o meu irmão a viver connosco tem sido uma sensação boa. Para mim sabe-me a casa. Não sei explicar isto de outra forma. Creio que o facto de ter saído cedo de casa dos meus pais e ter uma boa relação familiar, deixou-me sempre uma sensação de ‘filha fora do ninho’. E gostei sempre das férias, dos natais e das páscoas e de sentir o ritmo da casa com as minhas gentes. Mesmo agora que tenho a minha família, faz-me sempre falta aquela família que me deu origem. Este fim de semana foi muito esclarecedor, neste sentido. Na sexta fiquei a saber que os meus pais não vão estar presentes no meu aniversário. Nunca estão. Nunca podem. Mas saber isso e chegar a casa e ter o meu irmão lá, deu-me um conforto que amainou, em muito, a minha dor. Não totalmente porque continuo chateada com este facto, mas amainou. Sábado meu irmão trabalhou. Telefonou para saber se queria ir almoçar com ele. Claro que sim. Uma mola invisível disparou no meu traseiro e eu saltei do sofá, arranjei a piquena e lá fomos todos almoçar com o rapaz que estava de desejos de bife e batata frita. Que filho da puta de desejo para se ter à minha frente, logo eu que evito fritos ao máximo não conseguindo evitar quando eles habitam a mesma mesa que o meu prato saudável. Fomos ao Satélite dos Bifes em Carnaxide. Um sítio com um nome destes é, desde logo, premonitório da qualidade dos mesmos. Finos, a nadarem em manteiga e com batas fritas moles. Mas, pois, foram todas para o bucho. À noite resolvi fazer um peixe em condições para desenjoar, ou pelo menos deitar-me com a sensação de que não dei muitas facadas ao meu organismo. Fui comprar um peixe que tenha vivido no mar, no oceano ou onde bem entendesse desde que nas suas guelras tivesse marcado o gosto de ter sido um peixe livre e feliz. Comprei um pargo mulato que foi pescado no Atlântico norte. O que lixou a refeição foi o vinho que meu irmão comprou. O Calheiros Cruz costuma ser bom sem ser uma maravilha, mas aquele já teve melhores dias. Bebeu-se sem entusiasmo e beber sem entusiasmo é coisa que não queremos de um vinho. No domingo, e depois de me queixar à força toda (e como consigo ser chata quando quero) do facto de meu irmão ainda não ter cozinhado nada, ele resolveu fazer «uma simples massa, uma refeição ligeira». Ó valha-me Deus, se aquilo era simples, ou ligeira, eu sou loira e elegante. O rapaz na cozinha é um ás. O mago. Enquanto ele cozinhava eu tirava fotografias para que possa comprovar aquilo que estou aqui a debitar. E achei que com a massinha ia bem um vinho que o meu querido JMC me deu no natal Quinta de S. José, tinto do douro. Aliás, o JMC juntamente com o meu irmão são os que me oferecem vinhos de grande gabarito. Sei sempre que é uma aposta segura, mesmo que não conheça. Aliás, o JMC devia estar aí, num jornal qualquer a falar de vinhos, a dar a conhecer pequenos produtores, a dar sugestões (tal como eu devia ser critica gastronómica, mas pronto, fica para outra reencarnação). O SLB jogava e eu era a única portista que estava em casa. Bebi para esquecer. Para esquecer o SLB; para esquecer o facto de os meus pais não virem, para esquecer o facto de sentir meu irmão triste, para esquecer o facto de ser tão difícil ser feliz mesmo quando nos contentamos com pouco. Bebi porque este Quinta de S José tem o paladar único e irrepetível dos tintos do douro (e que nem todos os tintos do douro conseguem ter) de densidade, corposo, firme e que alaga a nossa tristeza transformando-a em pequenos fait-divers. Por odem de acontecimento:
o peixinho e o mediano (para o fraco) do Calheiros Cruz
Tudo começou assim
passou por esta linda fase
palavras para quê?
pois... desculpem a vossa dolorosa dor de cotovelo
E tudo a gula levou!

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