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sábado, 25 de fevereiro de 2012

a minha aldeia

Desde os meus quatro anos até aos meus dezoito que vivi numa aldeia. A minha aldeia. Nela cresci tendo a sensação de ter tudo longe mas de vivências e afectos muito perto. cresci na medida exacta que os vinhedos frente a casa. Mergulhei por entre as couves, reguei feijão verde, apanhei azeitonas e cresci longe de tudo tendo a sensação de proximidade. ir tomar café à cidade mais proxima, que são 9 quilometros, era para mim 'ir ali ao lado'. Deu-me uma noção de distância distinta das minhas amigas da capital. Desenrasco-me na perfeição com um pneu furado, sei montar um esquentador e fico sozinha numa grande casa em noites de tempestade sem qualquer drama. Cresci rodeada dos vinhedos. Vinhedos verdes e castanhos e algo laranja, mas também secos e áridos em alguns meses. Vinhedos que por vezes me embalaram e noutras me sufocaram. Sempre gostei da 'grande cidade', mas também sempre gostei de regressar. Sinto-me em casa por aqui, nesta aldeia, que vai matando as pessoas que conheço, que enterra gentes que me viram crescer e que está cada vez mais pejada de casas sem gente. Hoje parece um pouco vazia, meio aldeia fantasma, mas ainda encontro por aqui os meus cantos, as árvores onde li inumeros livros, escrevi inumeras cartas e até onde dei os primeiros passos na arte de namorar. No entanto, cada vez sou menos daqui. Aos poucos, vou estranhando o pouco de novo que por aqui existe. Aos poucos vai saindo de mim a aldeia que me viu crescer. So isto pode justificar a angustia que se me prega ao peito quando aqui venho e que por aqui estou horas que se transformam em dias e que me parecem meses.

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