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terça-feira, 6 de março de 2012

Florbela Espanca

Era ainda uma adolescente, e isso talvez explique o facto, quando me apaixonei perdidamente pela Florbela Espanca. Foi uma fase de grande introspeção e até de alguma dor. Lia e relia os seus poemas. Marcava as páginas e com lápis sublinhava frases e frases que me faziam sentido e me faziam escorrer em sangue. Essa fase veio em conjunto com a fase Maria Bethania. Ouvia-a a uma e lia a outra. Um conjunto quase mortífero. Fechada no quarto, via o negrume da vida nas quatro paredes. Não sabia, na altura, que elas não ajudariam mas aniquilariam, ainda mais, a minha já ténue alegria. Sobrevivi-lhes quando o meu pai guardou bem longe de mim os poemas de uma e os LP’s da outra (devolveu-me quando fiz 30 anos).

Hoje relia a vida da Florbela Espanca que que vem na revista do Expresso. Ainda mexeu um pouco. Ainda estremeci porque aquilo que ela escreveu era fruto de uma alma torturada. E as almas torturadas reconhecem-se. Mas hoje, estou outra, a alegria sobrepõem-se às fases mais negras (embora sempre mais produtivas). Hoje sou mais feliz. Hoje sou mais velha. Hoje sou mais madura. Hoje sou outra, embora saiba que existe algures, escondida, uma tristeza que tento sufocar com algum riso e muito amor.

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