Um filho muda muito a vida de alguém. Muda o lado efectivo: temos tarefas
para fazer em prol da criança e o tempo fica escasso para as nossas coisas.
Temos de lhes dar a comida, o banho, vesti-los, embala-los, mima-los, ajuda-los
a respirarem quando têm o nariz entupido, ajuda-los a acalmarem quando o mundo
se depara muito barulhento, aquecê-los quando têm frio, alivia-los quando está quente. Temos
de acordar de noite para irmos cantar algo ao seu ouvido, temos de ter paciência
para vermos o Panda de frente para trás e de trás para a frente. Temos de
acordar cedo quando nos deitamos tarde e acordar cedo quando nos deitamos cedo.
Temos de conduzir com outra atenção. Olha-los bem nos olhos e tentar lê-los.
Muda tudo.
Na nossa vida muda tudo. Mas depois, não é nada disto que penso
quando saio do trabalho e vou a correr buscá-la. Quando não a vejo durante o
dia, chego à porta da ama, toco a campainha e encosto o meu ouvido à porta para
ouvir os passos dela, meios sumidos na madeira e ainda trapalhões, e ouço,
ainda do lado de lá da porta aquele 'mamã' muito sereno e baixo. E baixo-me no
momento em que a porta abre para ficar ao nível dela. E a primeira vez que nos
vemos ao fim de horas estamos ao mesmo nível. Temos a mesma altura. Abro-lhe os
braços e ela não sabe, mas naquele preciso segundo tenho vontade de chorar pela
imensidão de amor que jorra em mim. E ela chega-se e eu meto o meu nariz no
pescoço dela e sinto o seu calor, o seu cheiro e digo-lhe' amo-te filha linda'
e ela não me entende, não me percebe, mas digo-o na mesma porque se não o
disser, ah, e se não disser rebento de tanto amor, rebento de tanta ternura que tenho a crescer em
mim desde que a vi pela primeira vez. Tenho de dizer 'amo-te, amo-te, amo-te filha'.
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