a noite passada tive um sonho muito estranho. Sonhei que minha coluna esgaçava, ou seja, que ela rachava por vários sítios e eu sabendo disso tentava, a todo o custo, falar com o meu médico que fugia de mim. Tinha pouco tempo de mobilidade. Era como se tivesse um cronómetro que não parava. E eu procurava pelo meu medico. Chamava-o e acordei. Foi tão cansativo que acordei cansada e durante o dia veio-me à cabeça várias vezes este sonho. O meu drama não era a coluna rachar, nem era a dor, mas sim o deixar de andar. Perseguia-me o deixar de me suster em pé. A minha luta para encontrar o meu medico era sufocante porque não queria parar de forma obrigatória. Não queria estar na cama sem conseguir sair, sem conseguir ir à casa de banho. Ficar à mercê de outros mesmo para aquilo que nos é tão íntimo como cuidar do nosso corpo. Ter de ficar nua para que me vestissem, me lavassem. Não conseguir ir à depilação. pedir para me colocarem creme nas pernas que já não cumpriam a sua função de andarem. Levantar-me. E esta sensação já a provei. E não esqueci. Durante todo o dia dei por mim a reflectir no raio do sonho e chego à conclusão que mais do que recear a dor, mais do que recear a faca que entra na coluna de cada vez que a dor toma conta de mim, receio não andar. Receio os dias que já vivi, prisioneira da minha cama, com minha mãe a lavar-me os cabelos, o corpo, com uma esponja e eu a imaginar, com a parca agua a escorrer em mim, que estava num mar aberto e azul; receio querer algo e não ter ninguém ao lado e ficar à espera que me visitem, que entrem no quarto para pedir a água, ou que me tapem ou que me desnudem.
Há anos que nao me lembrava desses dias em que escondia a dor para não a juntar à dor dos meus pais; há anos que não me lembrava das tentativas do meu irmão me levantar e eu chorar agarrada a ele e ele a evitar chorar e a dizer que eu consigo e eu não consigo e peço desculpas por não conseguir e ele a obrigar-me a conseguir e a chorar; há anos que não me lembrava das saudades que tive de sentir o chão debaixo dos meus pés.
Questiono porquê isto agora.
Descubro: porque andava a esquecer-me de me sentir grata por poder fazer tudo; andava a ficar irritada com coisas pequeninas; andava a crescer em mim a menina parva e insatisfeita que afinal tem muita sorte por viver com os pés no chão.
Relembrei.
Vou em frente grata e rezando para que o futuro não me traga mais nenhum pedaço do passado inerte e doloroso.
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