Morreste devagarinho e foi na morte que mostraste, pela
primeira vez, um pingo de indecisão. Acho que a dada altura não querias ir e
não querias ficar. E se desististe, estou certa que foi fruto de um amor maior,
não querias dar trabalho a ninguém, não querias. E foste embora logo tu, que
tanto gostavas de cá andar. E tenho pensado muito dos teus últimos dias, quando
te fui ver, e te falei e tu me olhaste e hoje sei o que me querias dizer. Tu já
tinhas tomado uma decisão, não já? E eu sei porque tive na família quem morresse
quando estava a melhorar. Tenho na família quem tenha desistido por recusar a
viver num corpo que começava a ficar parecido com uma gaiola. E tu não eras
menina de gaiola.
Sabes que falei muito com o Zé e tu sabes o quanto o amor
dele por ti me fez sentir minúscula perante todos os amores do mundo. Ele ficou
ali, o tempo todo, a tentar fazer aquilo que achava que tu gostarias que ele
fizesse. Até ao fim, o pensamento dele era:’ ela ia gostar que eu chamasse o
padre’, ‘ ela iria querer que eu mandasse rezar uma missa’. Ele, que era um agnóstico
convicto. E quis que ficasses numa campa para onde se imagina que também vai
viver para ‘finalmente voltarmos a estar juntos’. Ele que se esqueceu dele para
te fazer viver mais tempo. Há no amor dele por ti algo que nem a morte abala.
Há no vosso amor uma vitória perante tudo o que é terreno. E queria alguém que um dia me amasse assim!
O que me chateia mais, Teresa, é que não te disse o
suficiente que gostava de ti embora o tenha feito algumas vezes. E com a tua
ida, jurei dizer a quem gosto que gosto. Tenho medo de perder mais alguém e sei
que vou perder. Um dia vou perder…
Tens de me desculpar porque eu nem sabia que gostava tanto
de ti quanto vim a descobrir que gostava. Não sabia. E faz-me falta o pouco de
tempo em que nos misturávamos.
Este fim de semana olhei para os ténis que deste à minha
filha. Guardei. Chorei. Queria que a visses crescer. Queria ver-te envelhecer.
Queria continuar a chatear-te por seres tão irresponsável com a tua saúde. E
queria ver-te ainda uma e outra vez de mão dadas com o Zé. E no dia de hoje
chegavas aqui e mostravas o relógio que o Zé te tinha dado e pedias-me um dos
meus bolos que tanto gostavas.
Será que há aniversários ai onde estas?
Parabéns, minha querida Teresa.
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