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quarta-feira, 21 de março de 2012

salário emocional

De hoje a oito dias estarei a viver o dia da mala. É o dia que antecede a uma viagem. Passei a chamar-lhe 'dia da mala' por causa do meu primeiro big boss a sério que tive. Ele, sempre que íamos de férias, dava-nos a tarde para fazermos a mala e dava-nos a manhã do regresso para a desfazermos. Dava também o dia de anos. Ninguém entendeu tão bem quanto ele o que é o salario emocional. Sabia-o na perfeição. E depois exigia-nos trabalho duro e com afinco. E nós assim fazíamos. Não conseguimos dizer não a quem nos diz sim tantas vezes. Nunca trabalhei num sítio onde sentisse tanto a camisola da casa e ao mesmo tempo onde sentia que a casa onde trabalhava sabia quem eu era, com as minhas particularidades. Sabia quem eu era e sabia quem eram os meus colegas. Era um dar e receber. Nunca vi ninguém a saber gerir pessoal como ele, nunca. E se trabalhávamos! Nem horas extraordinárias metíamos. Achávamos sempre que estávamos em divida. Era um sentimento de pertença que um dia, com muita pena minha, acabou. Penso muitas vezes no que seria a minha vida se por lá tivesse continuado. Nunca sabemos… E mais curioso é que ele – o gestor - está preso. Ele, que sempre foi exímio na arte de gerir pessoal, afundou-se. Vem-me à cabeça a frase de Dalai Lama: ninguém é 100% bom e ninguém é 100% mau. Voltando ao dia da mala e áquilo que fica na nossa cabeça quando os anos passam, quando a vida muda, quando as personagens do jogo se alteram. Há algo que os anos não matam nem fazem envelhecer: o sentimento de pertença a uma equipa, mesmo quando essa equipa já não existe. Se um dia fosse gestora de algo, sabia muito bem o que fazer. O grande problema é que quem gere, em grande parte das vezes, chegou lá sem saber ler ou escrever, que é como quem diz, sem terem noção do que é gerir porque nunca foram geridas/os.

Mas para mim ficou sempre o dia da mala na cabeça. E o dia de desfazer a mala. E de hoje a oito dias estarei a organizar mentalmente a mala a partir do trabalho e quando chegar a casa, fá-la-ei em meio minuto para depois gastar as ultimas horas em Portugal com a minha filha no intuito de encher meu coração com o seu cheiro, com o seu riso e esperar que isso me ajude a suportar a sua ausência por 5 dias.

Ah, abençoado dia da mala!

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