De hoje a oito dias estarei a viver o dia da mala. É o dia que antecede a
uma viagem. Passei a chamar-lhe 'dia da mala' por causa do meu primeiro big
boss a sério que tive. Ele, sempre que íamos de férias, dava-nos a tarde para
fazermos a mala e dava-nos a manhã do regresso para a desfazermos. Dava também
o dia de anos. Ninguém entendeu tão bem quanto ele o que é o salario emocional.
Sabia-o na perfeição. E depois exigia-nos trabalho duro e com afinco. E nós
assim fazíamos. Não conseguimos dizer não a quem nos diz sim tantas vezes. Nunca
trabalhei num sítio onde sentisse tanto a camisola da casa e ao mesmo tempo
onde sentia que a casa onde trabalhava sabia quem eu era, com as minhas
particularidades. Sabia quem eu era e sabia quem eram os meus colegas. Era um
dar e receber. Nunca vi ninguém a saber gerir pessoal como ele, nunca. E se trabalhávamos!
Nem horas extraordinárias metíamos. Achávamos sempre que estávamos em divida. Era
um sentimento de pertença que um dia, com muita pena minha, acabou. Penso
muitas vezes no que seria a minha vida se por lá tivesse continuado. Nunca
sabemos… E mais curioso é que ele – o gestor - está preso. Ele, que sempre foi exímio
na arte de gerir pessoal, afundou-se. Vem-me à cabeça a frase de Dalai Lama:
ninguém é 100% bom e ninguém é 100% mau. Voltando ao dia da mala e áquilo que
fica na nossa cabeça quando os anos passam, quando a vida muda, quando as personagens
do jogo se alteram. Há algo que os anos não matam nem fazem envelhecer: o
sentimento de pertença a uma equipa, mesmo quando essa equipa já não existe. Se
um dia fosse gestora de algo, sabia muito bem o que fazer. O grande problema é
que quem gere, em grande parte das vezes, chegou lá sem saber ler ou escrever,
que é como quem diz, sem terem noção do que é gerir porque nunca foram
geridas/os.
Mas para mim ficou sempre o dia da mala na cabeça. E o dia de desfazer a
mala. E de hoje a oito dias estarei a organizar mentalmente a mala a partir do
trabalho e quando chegar a casa, fá-la-ei em meio minuto para depois gastar as
ultimas horas em Portugal com a minha filha no intuito de encher meu coração
com o seu cheiro, com o seu riso e esperar que isso me ajude a suportar a sua ausência
por 5 dias.
Ah, abençoado dia da mala!
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