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sexta-feira, 13 de abril de 2012

40 anos, E, parabéns


 

Nem sei bem o que poderia dar-te neste dia que estivesse à altura do acontecimento. E como não sei, apenas posso tentar escrever-te que é aquilo que embora não faça muito bem é o que faço de melhor. Que esta carta tenha o sabor dos fofos que tu tanto gostas.


 

Tenho, não poucas vezes, a sensação que me cruzei contigo na escola primária, naquele edifício típico do Estado Novo, branco, mas onde nos escondíamos dos outros para falarmos de nós. Outras alturas tenho a sensação que crescemos juntas na Secundária para onde fui, ano após ano, a pé, por entre os trilhos que rasgam os montes do meu douro.


 

Acho que falamos dos nossos primeiros amores e creio que choramos os nossos desamores. Angustiadas por nosso corpo ter crescido tão rápido, debandávamos a tristeza com o jeito que sempre tivemos e que fomos apurando.


 

Parece-me que vi contigo Roma, Verona, Genebra, Nova Iorque e Florença. Ah, Florença, lembras-te? E creio, assim num jeito meio sumido de dúvida, que me falaste do teu primeiro beijo. E até me relembro, na perfeição de um assombro, as nossas férias na praia em São Martinho do Porto, na barraca de paredes meias com as famílias de finas flores da zona. Crescemos juntas e juntas apoiamos as dores de quem cresce, de quem duvida, de quem questiona e de quem tem a mania que tudo sabe. Passamos a adolescência juntas e juntas crescemos.


 

Depois, e aqui sei de cor, o dia em que me disseste que estavas de bebé e me pedias para não dizer nada a ninguém, para não gritar, para me conter na alegria. Como me conter, como? Vi-te a crescer enquanto mãe e vi o P cá fora. Grande e lindo. Grande e terno. Grande, Grande menino em que o P se transformou. Há em mim um arrebatamento de orgulho pelo P que colocaste na minha vida.


 

E chorei contigo quando parte do teu mundo desabou e sabia, soube sempre, que te irias reerguer e recomeçar de novo. E assim foi. Cresceste na dor. Enfrentaste, de frente, a ferida aberta do casamento que se desmoronou. Mas és focada. Sempre foste focada. Em todos os momentos da tua vida, sabes o que é prioridade. Foi o P, sempre foi ele. E qual Fénix renasceste das cinzas e voltaste a amar. Depois fui eu. Estiveste sempre  a assistir ao meu desmoronamento físico e a dar-me alento. Estiveste presente quando levei a cabo a vontade de ter um filho. Eu queria muito contra tudo e todos. E chorei no teu ombro. E deste-me uma força que se calhar não te disse na altura, mas que me deu um alento danado. E tu sabias que seria uma menina e deste aquela t-shirt rosa ‘Very Important Princess’. E foi menina. E pegaste nela com engenho. E ajudaste-me a ser mãe. Ajudaste-me tanto a ser mãe. E ajudaste-me a ser mulher e estás sempre a ajudar-me a viver, simplesmente a viver, percebes. E não cobras e não julgas e ouves e dizes e secas-me as lágrimas e eu só posso agradecer a Deus, àquele Deus que tu não acreditas que existe e que eu amo, agradecer a esse Deus a alegria de me ter posto na vida alguém que não acreditando Nele, Ele sabia que seria o melhor para mim. E agora diz-me, como agradecer estes 40 anos juntas quando não foram 40, mas que valem pelos 40 que efetivamente já levamos de vida? Como?


 

Eu sei e tu sabes que não estivemos juntas na primária, na preparatória, no secundário, nos amores primeiros e nos desamores de adolescentes. Sabemos que não tivemos esses primórdios de vida, mas agora parece que isso não tem importância, que foi como se tivéssemos uma à outra desde sempre. Sempre. Porque sempre nos teremos. Sempre. Parabéns, querida E, parabéns. Foram uns belos e maravilhosos 40 anos.



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